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Dos textos perdidos

A mania de anotar ideias nos espaços virgens dos livros me faz não só perder diversos ganchos e motes, como ainda me aprisiona a, digamos assim, criatividade.

Felizmente, consegui encontrar dois aforismos antitéticos – estavam no Viagens na minha terra, do Garret. Ei-los:

A vida é um diálogo com si próprio.
A vida é um monólogo com os outros.

Quem me conhece percebe em ambos o gosto pelo paradoxo aparente; são duas ideias parecidas na casca, mas possuem seivas cujos sabores não combinam. De um lado, há a importante inquietação de quem se recusa a aceitar concepções taxativas e autoritátias – mesmo, e principalmente, no caso em que a autoridade é o próprio indivíduo. Já na segunda, encontramos a típica condição daquele para quem não existe o diferente, para quem o outro só tem o direito de ser enquanto não é; o outro não como complemento, mas como mero prolongamento do eu. Há quem se contente com a placenta.

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desaforismos

Quer se ver? Jogue fora seus espelhos!
*
Mais do que a resposta, a charada me atrai.
*
A satisfação requer a manutenção do desejo – a saturação, a permanência do bocejo.
*
O segredo, tal qual o decote, é a arte de sugerir sem mostrar.

Intersecções

Extensão do intelecto,
o corpo ambiciona a tessitura por trás da ideia.

Extensão do corpo,
o intelecto estende a mão ao impalpável.

dos instantes

– A função dos instantes é negar sua natureza fugidia
ser em vez de ter sido
permanecer em vez de perecer
mas mesmo assim eles vão.

– A função dos instantes é ser fugidio
a essência que se esvai não deixa de ser essencial
pois é nos deixando que fica em nós a sua irretratável lição.