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Dos textos perdidos

A mania de anotar ideias nos espaços virgens dos livros me faz não só perder diversos ganchos e motes, como ainda me aprisiona a, digamos assim, criatividade.

Felizmente, consegui encontrar dois aforismos antitéticos – estavam no Viagens na minha terra, do Garret. Ei-los:

A vida é um diálogo com si próprio.
A vida é um monólogo com os outros.

Quem me conhece percebe em ambos o gosto pelo paradoxo aparente; são duas ideias parecidas na casca, mas possuem seivas cujos sabores não combinam. De um lado, há a importante inquietação de quem se recusa a aceitar concepções taxativas e autoritátias – mesmo, e principalmente, no caso em que a autoridade é o próprio indivíduo. Já na segunda, encontramos a típica condição daquele para quem não existe o diferente, para quem o outro só tem o direito de ser enquanto não é; o outro não como complemento, mas como mero prolongamento do eu. Há quem se contente com a placenta.

desaforismos

Quer se ver? Jogue fora seus espelhos!
*
Mais do que a resposta, a charada me atrai.
*
A satisfação requer a manutenção do desejo – a saturação, a permanência do bocejo.
*
O segredo, tal qual o decote, é a arte de sugerir sem mostrar.

Intersecções

Extensão do intelecto,
o corpo ambiciona a tessitura por trás da ideia.

Extensão do corpo,
o intelecto estende a mão ao impalpável.

dos instantes

– A função dos instantes é negar sua natureza fugidia
ser em vez de ter sido
permanecer em vez de perecer
mas mesmo assim eles vão.

– A função dos instantes é ser fugidio
a essência que se esvai não deixa de ser essencial
pois é nos deixando que fica em nós a sua irretratável lição.

De um aforismo, o tempo.

O tempo: a negação do eterno.
Daí, portanto, a importância de fruí-lo enquanto.
Pois, sim, o advérbio existe e restringe,
o cruel advérbio inespecificado,
o doce advérbio que nos abriga,
que nos sufoca, sendo nosso oxigênio.
O que é o tempo?

***

O eterno: a negação do tempo.
Daí, portanto, a negação da vida.
A doce e cruel ilusão de se ter quando se perde.
Tal qual o amor
racionalizado em vez de fruído,
aprisionado em vez de fluído.

O eterno
eufemismo do vazio.

Reformulando-me

Envelhecer faz bem. Engraçado, pois quinze dias atrás eu sentia justamente o contrário, agustiado com algo aqui, algo acolá. Mas ali, a meia hora de ônibus da minha casa, senti que velhice do último lustro me fez enxergar melhor o que naquela época já me estava próximo às mãos.

Por ora, sem dar crédito a quem o merece, soltarei apenas dois aforismos gerados neste exato instante – logo abaixo, deixarei um outro, mais antigo, que talvez lhe tenha parentesco inda que distante:

Até a estética sem ética possui seu êthos.

Aos símbolos como complementos ao concreto, não aos substituidores, aniquiladores do real.

***

Por trás de toda regra há um ideal, uma premissa que lhe seja a razão de ser. Às vezes, sempre em nome desse ideal, é lícito infringirmos a regra. A regra que não se rende a seu ideal, na verdade, possui outras premissas.

Aforismos de outono

O melhor modo de iludir o indivíduo é fazer com ele acredite passivamente na sua autonomia.

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