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Presépio

        A varanda: o olhar mira a pequena horta que se perde ao descuido. Alheios, outros olhos veem as estrelas dançando nos céus. Da pequena horta pouco se colhe, um pouco pela ignorância, muito pelo desleixo. Vertem-lhe d’água à superfície, que a recebe como um rio caudaloso aos chuviscos da madrugada: finge absorvê-los, mas apenas leva-os ao distante lá. Cada vez menos força resta às raízes heroicas e moribundas.
        O olhar distrai-se da pequena horta, perdendo-se nas voltas da pequena estrada que lá adiante faz-se vista. A imagem duma carroça move-se longe, não tão longe, cada vez menos longe.
        E os olhos: os olhos continuam apaixonados, às estrelas testemunhando. O céu imenso: do céu muito se colhe, pouco se usa. A desgraça da horta, tão miúda, tão amaldiçoada, dela o mínimo se faz suficiente. O olhar se levanta, resignado, leva os passos à horta, encara-a. Os dentes espremem-se, os dedos se contraem. A jugular se incha e o olhar, o olhar mira os olhos que dos céus continua  absorvendo cada pouco que dele se pode absorver. Um grunhido animalesco chama a si os olhos, assustados e surpresos, olhos obedientes. O corpo é lançado ao chão sem mais pistas. Lançam-se pés e mãos à terra. Arranca-se um naco verde e murcho do chão. A lua, imensa e curiosa, ilumina os dois corpos, incomunicáveis, em mais um capítulo de revelação e surpresa. Espreme-se o vegetal colhido ao abdômen. Haraquiri bucólico, nada mais poderá salvá-los. Um abraço é tentado. Reconciliador ou desnecessário, não se pôde saber. A carroça – aquela mesma – fez-se presente, obrigando o casal a adentrar-se em seu presépio. Fecharam a porta tão rápido que nem perceberam o eclipse apagar as luzes daquela noite.

brumático

O cheiro de barro ainda se encontrava em sua pele. O gosto telúrico, tão seu, não lhe saíra por completo da boca. Até mesmo suas mãos ressecadas guardavam ainda uma camada de pó, primeira pele. Se sentia tudo isso, se percebia a inabilidade em expressar esses sentimentos tão primordiais, não revelaria, pois padecia já do fado moderno da solidão. Cores, aromas, texturas, sons e sabores compunham então uma só coisa, gosto primevo. Gosto sem gosto, pois não compartilhado, não dito, sequer refletido.

É predominante em certa cultura masculina esse desejo, quase necessidade, de segurar o gozo como se os impulsos devessem ser freados; como se a suspensão do clímax acentuasse o prazer, como se o fremir pudesse se eternizar, como se não houvesse no prolongamento do coito outro agente, buscando não só o próprio prazer, mas também o grito alheio, o berro, o urro por todas as escolhas findadas, o alento de um quê de esperança, a vitalidade em sua desmedida unidade…

Gosto de sentir seus dedos se perderem nos meus cabelos. Gosto do modo como se atiçam sensações e lembranças. Seus dedos se multiplicam, deixam de pertencer apenas ao momento presente, ao estado concreto, tornam-se memórias e projeções. Sua substância se dissolve, verbaliza-se. Sim, é um elogio.

E de sua costela, e do oxigênio que se abrigava em seus pulmões, vieram Eva+Evo. Com ambos conheceu os contrastes e as antíteses do mundo. O gáudio derramado no chão; o fruir suspendido, mais ideia que fato. Evanescência eviterna? Infelizmente não compreendiam paradoxismos.

O prazer, quando visto como mera abstração, torna-se uma meta burocrática, desvencilhada da ação em si, como se a gestualidade fosse um mero instrumento e não um organismo já em desenvolvimento. O estar lançado às traças em nome do pode ser – daí a mecanicidade de um e a frigidez do outro.

Gosto quando você se esquece de que está aqui. Gosto do seu mero existir, irrefletido, irresponsável, egoísta sem ego, cúmplice integrado. Sem passado nem futuro, somente aqui.

Ao olhar para ela e para ele, ainda que saiba distingui-los, não consegue hierarquizá-los conforme gênero, beleza, encanto ou simpatia. Algo, uma consciência indevida talvez, lhe sugere que deve fazê-lo. Por que confiar num ser sem braços e pernas, quase que só pescoço?

Pois o gozo se associa à melancolia, o esparramar-se gera arrependimento e luto, como se após o findar não restasse nada, apenas dois indivíduos entregues à realidade da qual tentaram fugir.

Não tema, meu bem. Você acordou, mas o sonho ainda não se foi. Não tema, não pense no fim. Ainda não.

missiv…

[De uma folha amassada que eu encontrei na praia:]

     Ubatuba, 27 de julho de 2013.

     Cris, boa tarde, estou morrendo de saudades das suas tontices!

     Estou escrevendo de madrugada, mas sei que essa carta só vai chegar aí na terça. Provavelmente você vai lê-la depois da escola. Então: boa tarde para você e boa madrugada para mim.

     É engraçado isso. Esta folha de papel nos une; duas pessoas separadas por três dias e algumas centenas de quilômetros. Sim, eu sei que estive contigo agora há pouco no colégio, mas essa não era eu – quero dizer, eu que estou aqui escrevendo esta carta ainda não sou aquela que esteve contigo meia hora atrás na saída do colégio. Você deve me achar estranha, né?

     Mesmo na praia, em vez de me divertir com meus primos e primas, fiquei pensando em você. Fiquei com uma estranha vontade de não aproveitar o passeio, pois queria estar caminhando contigo no Ibirapuera, ouvindo música no seu quarto, falando sobre meninos ou coisas mais importantes.

     Queria que você visse como a Ilha Anchieta é bonita. Queria te assustar no passeio de barco. Queria brigar contigo por você não ter vindo passar a semana conosco…

     Minha mãe comentou comigo que a saudade é importante, pois ela faz com que a gente perceba o quanto nos importamos com as pessoas. Não sei por que ela tocou no assunto; não comentei nada com ela. As mães são estranhas, né? Eu acho que as saudades (eu prefiro usar essa palavra no plural, pois quando sinto falta de alguém, sinto falta por diversos motivos – eu não sinto saudade, eu sinto saudades!)… bom, como eu estava dizendo, eu acho que as saudades fazem a gente gostar ainda mais das pessoas que a gente quer muito bem.

     O barulho da areia se enroscando com as ondas, as galhos brincando de pega-pega com esse vento frio, tudo isso me deixa muito comovida. Essa sou eu hoje, sábado às três da manhã, querendo não dormir. Será que na terça também estarei assim ou voltarei a ser aquela menina chata que não te deixa em paz?

     Não reclame do tamanho da carta, tá? Já estou terminando. Vai lá, vai fazer tarefa, cultivar sua nerdice enrustida!

     Queria te tacar na areia,

     Com afeto,

     Fab.

pão que se alimenta da fome

 Escavações recentes comprovaram que sob as calçadas da avenida Paulista não há terra, somente camadas de concreto e rochas inférteis. O que então impede as ratazanas de se exporem à nossa admiração e espanto em busca de comida e afeto? Acaso se alimentam dos anônimos que, desgostosos dos ares cotidianos, se entregam às entranhas do metrô?

momento branco

manhã branca

peixe branco

uma

polegada branca

(Haroldo de Campos)

– A tela esconde ideias, lança nuvens, penumbras, terra escura sobre as palavras que queremos encontrar. Essa, neste momento, é a função da sua arte. Comunicar-se num mundo em que camadas de preconceito, intolerância e indiferença se colocam entre o eu e o tu seria o pecado mortal do artista consciente de sua arte. É vital que se diga a todos os ouvidos o ruído. Mais do que o silêncio, que sugere paz, tranquilidade, calma, o ruído estimula, excita e incomoda. A recusa é, de certa forma, uma espécie de afirmação. Dizer sim para o nosso tempo, sua complexidade, seus meandros, é balbuciar algo impronunciável, gemer uma interjeição não compreensível, sussurrar o inefável.

Ouvindo aquilo tudo como se ouvem antigos ecos nunca esquecidos, ela sorriu, admirando a energia que se desperdiçava com tanto empenho. Uma brisa tocou o seu rosto, harmonizando com o frescor do suco que o garçon havia acabado de trazer. Admirava as conversas; delas algo de grandioso sempre pode surgir – mas naquele momento ela queria mesmo era fruir o instante, sentir o vazio, como se o perfume daquele limão rosa, com suas camadas de açúcar e acidez, pudesse se fundir com a plenitude que só a quietude a dois pode trazer.

Da ponta do lápis

Algo em minhas fibras me diz que não sou daqui. Uma sensação de falta, certa ausência em meus contornos, como se eu tivesse sido amputado de algo maior; algum galho, quem sabe um tronco.

Bobagem minha talvez. Será essa forma diminuta, cilíndrica, que em nada se parece com uma cerejeira ou eucalipto, a dimensão do meu ser, o corpo da minha psique? Terei sido outra coisa antes de ser eu mesmo? Até quando serei o que sou? Se tirassem de mim a grafita, ainda assim permaneceria? Ou será ela o núcleo da minha consciência?

Quando me apontaram pela primeira vez, temi, sem saber ao certo o que temia. Gastaram-me a grafita, apontaram-me mais uma vez. E outra e outra vez. Sofri, mas resisti, sendo se não mais o mesmo, mas ainda assim de algum modo ainda eu.

Por sofisticação ou desleito, apontaram-me a outra extremidade, causando-me o mesmo incômodo, mas uma nova preocupação: eu, que já não era galho ou tronco, já não era mais o mesmo de uma, duas semanas. Mas ainda era algo ciente ou pretensamente ciente do que era. Se continuarem me gastando a grafita, se continuarem me apontando, e sim farão isso, até quando permanecerei? Haverá uma nova consciência, um saber das raspas; de algum modo ainda serei?

de retalhos

O que sobra da vida se lhe tirarmos os instantes, não aqueles forjados por fotografias enganadoras, mas aqueles que acontecem sem que percebamos, aqueles de que iremos nos lembrar quando desejosos de alegrias e felicidades olharmos para trás?

Aos instantes cujo sabor se destaca na amargura ou pela amargura, um toque de permanência lhes convém. Preciosidades hipotéticas, sublimações ilusórias? Que seja. Ao cofre em papel e grafite, ou em guardanapos, lenços sujos por um ou outro lamento, uma alegria esganiçada, ao cofre, por que não? Às vezes as impressões surgem antes dos pensamentos, às vezes os pensamentos se disfarçam de impressões. Abriguemo-los, cativemo-los, quem sabe o que eles serão? Se forem um agudo sentimento que se revelarão ao lhes revisitarmos, se forem apenas um arremedo, uma caricatura, um clichê do qual nos envergonharemos, já serão alguma coisa nossa, para nossa glória ou nossa vergonha, mas uma coisa nossa.

Chão

   No escuro do quarto, as pétalas de jasmim mantinham uma pequena lembrança do perfume de quando foram colhidas. Pensava nas estrelas já mortas em algum rincão da via láctea, estrelas que ainda sobreviviam imaculadas neste ou naquele ponto, quase invisível na imensidão noturna. Assim ela seria recordada, a cândida virgem que um dia se perdeu na escuridão da vida? Qual seria sua herança?

Encruzilhadas

   Aquele cheiro aguado antecipava o gosto-desgosto que estava por vir. Resolveu devolver o copo à mesa, na vã tentativa de se esquecer dos porquês que o levaram a ir àquele desconhecido bar na Consolação. A fumaça, visitante ilegal naquela paragem, lhe incomodava menos o olfato. Este era o preço, mas haveria mesmo uma recompensa? Logo iria saber; a imagem de Leine fazia-se notar na penumbra que iluminava o canto oposto do salão.

   “Os dias andam ásperos” – alguém falou, iniciando a conversa. “Ou talvez a aspereza pertença ao tato” – respondeu-se. E assim, aforismos seguidos de hipálages, ensaiou-se o diálogo.

*

   O sábado deixava o metrô das sete mais agradável. Sem aquelas pessoas comandadas pela agenda, pessoas sem finais de semana, pessoas sem ausências a serem preenchidas, era mais confortável abrigar-se ali. Mas, resquícios do cotidiano?, outros estranhos compartilhavam o espaço, invadiam-no, como se quisessem capturar um respingo de dignidade, algo que lhes desse sentido à vida mesquinha. Pobres coitados.

   Na verdade, não se importava com eles. Assim que a estação chegou, deixou-os no vagão, como se fossem não mais do que instrumentos para sua retórica, agora em busca de outro alvo, seja nas escadas-rolantes, na calçada, no bar – enfim, no bar. Ciente ou não, deu a seu rosto um ar de confiança pouco antes de avançar na fumarenta sala à qual se destinava. Lá estava ele com aquela cara de sempre, e agora também ela lá estava. Mais do que teses, ambos apreciavam antíteses, paradoxos, oximoros.

*

   Vadim levantara-se. Naquele boteco pseudonaif, só havia garçons na hora da gorjeta. Ri do modo como ele falava; aqueles trejeitos, longe de surpreender ou evocar uma nova masculinidade, mostrava o quanto ele ainda era pueril. Agora está lá falando com o suposto bartender, como se um dos dois entendesse qualquer coisa de bebidas. Garotos…

   Cá eu, sozinha, num hiato entre uma e outra relação, catando sobras de luz de uma penumbra qualquer, distraio-me com o jovem casal a meu lado. Ele, que pedira um copo de whisky para exibir maturidade – talvez a ele mesmo –, tenta disfarçar o suor das mãos. Ela, com seus gestos projetados, nem parece perceber o quanto é artificial. Mas, cada qual a seu modo, parece que o plano está dando certo. Ele a olha como a uma esfinge; ela sente que não mais o domina. Oaristos de um lado a outro. Em menos de cinco minutos, eles encontrarão seus caminhos. Mas não ficarão contentes com isso.

Um dia na vida de um copo de whisky virgem, nas prateleiras da adega

            Era estranho, estar ali ao lado de seres tão parecidos mas ao mesmo tempo tão diferentes. A luz que refratava por todos eles sugeria uma pureza enganadora, uma lucidez nublada por preconceitos mal disfarçados. Era o único ali a sentir-se isolado? O silêncio e a indiferença incomodavam mais do que um resmungo articulado por esta ou aquela teoria. Mas não. Só, solitário; o silêncio.

            Antes de parar ali, antes de parar em qualquer canto, segundo ouvira de uma voz perdida em algum meandro da memória, fora diversos grãos que nem sempre estiveram juntos, mas livres, abandonados ao acaso e aos dissabores da maré. Um dia, porém, o bafo quente de algum deus uniu aqueles grãos todos numa espécie de goma plástica – ou, melhor dizendo: vítrea – dando-lhe a forma irregular que talvez tanto lhe incomodava. Suposições e certezas às vezes se confundem.

            Agora ali, olhando ao lado, percebia diversos seres semelhantes a si. Todos eles também formados a partir de diversos grãos fundidos numa mesma goma vítrea, todos eles criados pelo mesmo e divino bafo incandescente, mas ao mesmo tempo cada um deles quieto, indiferente ao outro. A saudade de uma voz que decerto nunca existiu lhe atiçava e consumia as esperanças. Tentava entender seus vizinhos, como cada um deles refletia a própria existência cilíndrica, a essência vitriolizada, o ser enquanto copo ou taça. Dizia-se que algum dia, todos eles retornariam ao pó, aos pequenos grãos de areia que se espalham pelas praias, pelos leitos ou mesmo pelo chão. Há também a hipótese da permanência, os vitrais, mas isso pouco lhe importava. O que fora ou o que seja lhe pareciam variações da mesma abstração, pois ali, ao lado e isolado de seus pares, sentia-se ímpar, ao lado de diversas criaturas tão ímpares quanto ele, criaturas que talvez tivessem a mesma inquietação, mas por algum motivo impossibilitadas de lhe estender a voz, todas fadadas ao mesmo silêncio.