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Colheita

como se fosse possível voar
ali sentindo o cheiro da terra
misturar-se a seus cabelos

ali ouvindo o ar quente da
tarde fundindo-se com
a brisa úmida da noite

e a chuva que vem
para colorir o desejo
nunca gasto em vão

Sobre o ser e o não ser

Cintia Mayumi

Sou o que sou mais a soma de tudo aquilo que gostaria de ser.
Abranjo o infinito de todas as coisas que quero e não quero.
O que me define?
A intensa vontade de ser.
O que me restringe?
A instantaneidade do tempo.
O que me aflige?
A vida que poderia ser e não foi.
Não.
A vida que poderia ser e não é.
Não.
As vidas que nunca serão.

O tempo passa, cada instante contém mil possiblidades.
Ser ou não ser, dois caminhos.
Ser tudo, ser o que sou e não sou.
Ser todo um universo.
Ser uma possibilidade.

aos libros

O que é ser fiel a um livro?
 
Lê-lo de cabo a rabo irresolutas vezes
como se quiséssemos nos apropriar de cada vírgula ou locução verbal?
 
Lê-lo além de suas páginas
querendo cada fonte, cada foz, seus inúmeros deltas encontrar?
 
Lê-lo demoradamente,
fruindo cada página como se querendo saber o gosto que delas se extrai
não só ano após ano mas em todo e cada instante?
 
Lê-lo não só a ele, mas a seus pares e ímpares,
pois só tridimensionalmente conseguiremos vislumbrar sua meândrica face?
 
Pois um livro, ainda que não peça, merece fidelidade.
E ser fiel, às vezes, é livrar-se de laços.

Intersecções

Extensão do intelecto,
o corpo ambiciona a tessitura por trás da ideia.

Extensão do corpo,
o intelecto estende a mão ao impalpável.

dos instantes

– A função dos instantes é negar sua natureza fugidia
ser em vez de ter sido
permanecer em vez de perecer
mas mesmo assim eles vão.

– A função dos instantes é ser fugidio
a essência que se esvai não deixa de ser essencial
pois é nos deixando que fica em nós a sua irretratável lição.

De um aforismo, o tempo.

O tempo: a negação do eterno.
Daí, portanto, a importância de fruí-lo enquanto.
Pois, sim, o advérbio existe e restringe,
o cruel advérbio inespecificado,
o doce advérbio que nos abriga,
que nos sufoca, sendo nosso oxigênio.
O que é o tempo?

***

O eterno: a negação do tempo.
Daí, portanto, a negação da vida.
A doce e cruel ilusão de se ter quando se perde.
Tal qual o amor
racionalizado em vez de fruído,
aprisionado em vez de fluído.

O eterno
eufemismo do vazio.