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A noite já havia começado há horas…

Tiago M. F. (aluno do 9ºEF)

   A noite já havia começado há horas. Era uma noite como qualquer outra, de qualquer dia, de qualquer estação do ano, a frieza da escuridão tornava aquele pequeno cemitério no mio do campo uma fonte de medo e desespero. Terras já conhecidas e desfrutadas por mim havia muitas décadas, tudo parecia ocorrer natural e instintivamente, como a Mãe Natureza diria que deveria ser. Eu não poderia dizer, já que minha natureza se resumia àquele cemitério. Mas os anos apontaram que o planeta em que vivemos é uma esfera imensa, muito além do pouco que sei. Eu posso citar com clareza qualquer coisa que já havia acontecido naquele medonho parque mortífero, porém justamente nessa fria e desconfortável noite de outono, ocorreu algo de que com certeza não me esquecerei: um jovem, aparentemente um estudante bem sucedido, contradizia sua aparência respeitável pulando a cerca metálica do cemitério, logo ao meu lado, sem muita dificuldade. Ele se aproximou de um pequeno e insignificante túmulo que apenas apresentava uma lápide. Vi que seu estado emocional se modificou ao ler atento e silenciosamente o que estava escrito na sepultura da pessoa enterrada. Ele caiu em lágrimas, se agarrando à terra como se aquilo fosse trazer a morta (talvez sua amada) de volta à vida.

   Enquanto aquele jovem se ajoelhava no meio de tantos mortos, fiquei naquele intervalo de tempo ponderando o porquê daquela situação. Pessoas de sua idade eram menos frequentes em visitas rotineiras, o que me sugeriu que perdera uma pessoa amada em hora que, de certa forma, julgara incorreta. Apesar de a cena já ter sido, inicialmente, incomum, o que se seguiu foi ainda mais surpreendente do que uma visita noturna não permitida: o garoto retirou uma pequena pá de sua mochila e energicamente começou a cavar aquela terra fertilizada pelos restos dos mortos. Como se houvesse entrado em uma estória de terror, o vento violento que levantava as folhas que cobriam o gramado cessou subitamente, ao mesmo tempo em que o homem havia agora atingido o caixão que impulsivamente procurava.

   Em um reflexo quase involuntário, ele tirou o caixão do buraco com um movimento uniforme, pulando para fora logo em seguida. Mesmo com a minha experiência, nunca tive certeza do porquê de as pessoas enterrarem seus falecidos amados. Porém, de qualquer forma entendia que a fé era um superpoder oculto nas vidas humanas, o que as leva a fazer qualquer coisa.

   Voltando a atenção para o que se passava entre os dois corpos, separados um do outro pelo mesmo laço que separa a vida da morte, notei que o rapaz já não chorava nem parecia expressar sentimento algum. Lentamente, ele chegou à sua mochila e retirou um pequeno frasco de líquido cintilante. Eu não sabia suas intensões, mas imaginei que ele, a esta altura, apenas roubaria o corpo e fugiria dali sem deixar rastros; e a terra deixaria de aprisionar mais um ser infeliz, capturado pela madrasta morte.

   Apesar de isso fazer sentido segundo meu raciocínio, o que se passou foi diferente: o jovem devolveu cuidadosamente o corpo par ao caixão, devolvendo-o à cova. Mas ele não fechou a cova, nem o caixão. Para minha surpresa, entrou no caixão e ao lado de sua suposta amada, começou a enterrar o que pôde novamente de dentro da caixa funerária. Após isso acontecer, veio o grito que cessou o silêncio mórbido da noite. Compreendia o que acabara de ocorrer. Senti pena e ódio, ao mesmo tempo, daquele que acabava de acabar com a própria vida. Jamais saberia sua história e nunca entenderei sua missão na Terra. Mesmo porque, na minha condição, jamais conhecerei nenhuma história ou entenderei nenhuma vida senão as minhas próprias. O tempo me consumiria e consumiria tudo da mesma maneira como consumiu aquele rapaz. E não havia nada que eu pudesse fazer.

Sombra

Caroline Carvalho

 Neste mundo, seja aquela presença em quartos escuros, os barulhos em salas vazias, ou os súbitos movimentos ao canto dos olhos, habitam monstros. Criaturas das trevas, seus corpos nada além da vazia inexistência, que se escondem na escuridão. A essas criaturas damos o nome de Sombras.

 Há contos que remetem ao início dos tempos, quando a luz reinava sobre o planeta. Mesmo neste começo da história, as Sombras existiam, incapazes de interferir devido à falta de um corpo físico. Por muito tempo, os seres apenas existiam, sem oportunidade de agir. Mas esta situação mudou quando uma nova criatura surgiu. Os humanos, puros e bons, possuíam o poder de atuar na realidade que as Sombras tanto invejavam. Mas os humanos eram tolos e influenciáveis. Os seres do mal, amargurados pelos séculos de exílio, se aproveitaram da condição da humanidade. Lentamente a consumindo, sussurrando o ódio e a negatividade, as Sombras moldaram um mundo no qual poderiam agir livremente, por meio das ações humanas, um mundo dominado pelo medo. Mas os humanos, em sua ignorância, não percebem que estão sendo manipulados, e continuam agindo pelo que acham que é vontade própria. Ignorando as vozes. Ignorando os movimentos incorpóreos. Sem saber que estão sendo guiados, e não seguidos.

O silêncio reinante

Giulia Angelo

   O silêncio reinava no cômodo. Ninguém se mexia. Ninguém falava. Ao longe os gritos de alguns pacientes eram abafados pelas paredes opressoras. Se não fosse pela respiração descompassada de Maria e pela respiração pesada do médico; poderia dizer que o quarto estava vazio.

   A mulher se encontrava presa entre os tentáculos da poltrona sob o olhar frio e calculista do Dr. Cardoso.

   -Então, senhorita, mandou me chamar? – questionou o homem pausadamente. A mulher, assustada, hesitou por alguns instantes.

   -Si-sim… –respondeu gaguejando. Já fazia quase um ano desde que chegara aqui. Vultos passaram por ela, fazendo-a tremer da cabeça aos pés. Não causava brigas… comia tudo e tomava todos os medicamentos que as enfermeiras pediam… não tinha mais alucinações…

   -Tem certeza? –perguntou Cardoso arrastando-se nas sibilantes. Maria percebeu que a língua dele se semelhava a de uma cobra. Engoliu em seco e consentiu.

   -Quando chegou aqui, você pedia constantemente para telefonar para o seu “marido”. Algo a dizer sobre isso?

    A moça pensou um pouco – a lembrança das enfermeiras tentando acalmá-la para, logo em seguida, enfiarem-lhe os comprimidos goela abaixo.

   Ela estava desesperada e perdida. Não falava coisa com coisa. Agora sabia ter sido uma mentirosa. Aprendera a não contar mais mentiras. Sequer reparava nas aranhas que subiam pouco a pouco pelo seu braço, eriçando-lhe os pelos, submersas no branquíssimo pijama, insinuando-se lentamente até chegarem ao pescoço.

   -Bom, bom… –resmungou o homem escrevendo algo no papel à sua frente. –Entregue isto as guardas, por favor. – pediu destacando o papel e entregando-o a ela.

   Maria caminhou esperançosa até a porta, não ligando para as espirais que consumiam o quarto. Mais um pouco ela estaria livre. Já conseguia se ver lá fora, cercada de vida e liberdade. Cercada de pássaros, árvores e aromas. Não estaria livre de seus pensamentos e obsessões, mas não importa; encontrara a saída.

Recebi uma carta

Cintia Mayumi

   Recebi uma carta… Estou distante de mim mesma, ela dizia. Parte de mim aqui, escrevendo. A outra parte, em algum lugar, por aí. Talvez por isso ao olhar-me no espelho me deparo com uma imagem borrada, como se o espelho estivesse sempre embaçado, a despeito do meu capricho em limpá-lo. Uma imagem sem contornos refletindo um eu sem contornos.

  Onde será que se encontram as minhas linhas? Minhas definições? Minhas luzes e sombras? Em algum lugar, por aí.   Busco ao meu redor, vejo muitas pessoas, formas nítidas que andam e circulam e correm e pulam à minha volta, saltam aos meus olhos com os seus contornos e cores marcantes… Nenhuma delas sou eu.

  Certa vez observei uma moça elegante, de cabelo preto e vestido vermelho. Queria tanto ser como ela… Então peguei uma caneta nanquim e um guache vermelho e desenhei-me, como ela.  Contornos pretos, grossos, davam dimensão à minha forma, enquanto o guache me preenchia de cor, me tornava atraente, marcante. Por algum tempo desfilei assim pelas ruas, pensando ter resolvido o meu problema, encontrado a minha forma.

  Um dia, enquanto passeava alegre e despreocupada, começou a chover muito forte… e pouco a pouco meus contornos foram escorrendo, minhas cores, se esvaindo. Voltei para casa correndo e chorando. Olhei-me no espelho e vi a mesma imagem borrada de antes, sem linhas, sem cores, sem sombras; triste por ter deixado de ser quem eu nunca fui. Procuro incansavelmente por mim mesma desde então.

  Já revirei o mundo nessa busca, sem sucesso. Só havia um lugar no mundo em que eu ainda não havia procurado. Um lugar escuro, de profundidade desconhecida, um lugar que ninguém nunca havia explorado, habitado por sei lá que tipos de sentimentos – eu mesma. Eis que agora busco por mim dentro de mim mesma. Vasculhando às cegas, cada escombro que tiro do lugar causa um ruído que ecoa e gera um certo desconforto. Mas prometi a mim mesma que não desistiria. Até agora, tudo o que encontrei foram alguns rastros, traços que me compõem e cores que me preenchem. Está tudo bem, estou no caminho certo.

  Descobri que não sou tão tímida e que sou um tanto ansiosa. Que gosto mesmo de cinema e que sempre quis aprender a tocar violão. Descobri também que escrevo para descobrir quem eu sou. Então, por favor, continue escrevendo, de algum lugar, por aqui.

a leve garota do salão

Carolina A.

 Adentrei àquele enorme salão observando a tudo e a todos ao meu redor. De longe avistei a garota mais graciosa que já havia visto em toda minha curta vida. Ela não aparentava ter mais de 18 anos. Era leve. De olhos fechados, parecia sentir a música jogando os braços para cima e balançando os quadris em seu ritmo. Estava tão tranquila que não sentia os olhares que atraía; muitos outros garotos também estavam ali. Famintos. Foi a única palavra que encontrei para descrever os olhares que recaiam sobre ela. Suas amigas se divertiam ao seu lado, me fazendo perceber que ela estava totalmente desligada do mundo. Muitas meninas tentavam copiar o que ela fazia, mas nenhuma conseguia. A graciosidade com que ela se movia era única. A roupa que trajava, uma discreta saia preta até um pouco acima dos joelhos, a blusa rosa larga que ultrapassava por pouco a altura dos quadris e o sapato baixo prateado a deixavam não vulgar, como as outras, mas elegante. Os longos cabelos loiros balançavam em suas costas deixando-a ainda mais singular. Eu me escondi na penumbra, observando-a de longe. Meus amigos sumiram. Todos sumiram. Eu estava só.

Um cara visivelmente bêbado se aproximou dela. Ela tentou se esquivar uma, duas, três, quatro vezes, mas ele não se deu por vencido. Eu saí de meu esconderijo, aproximando-me deles. Fiquei feliz em perceber que o malandro era quase metade do meu tamanho. “Vá” disse ela firmemente para ele. Eu cheguei mais perto e me coloquei entre os dois. Olhando para cima, ele se assustou e foi embora tropeçado em seus próprios pés.

“Obrigada”, ela sussurrou para mim. A garota começou a se afastar, mas algo em seus olhos sugeriam outras vontades. Toquei seu braço de leve e perguntei se ela não gostaria de tomar algo. Obtive um grande sorriso em resposta. Nós caminhamos até o bar e lá ficamos por algum tempo até resolvermos voltar para a pista. Pude conhecê-la um pouco melhor. Luisa era seu nome. Tinha, como pensei, 18 anos. Desta vez não só a observei como também fiz parte da graciosidade com que ela se movia. Muito tempo passamos ali até que meus amigos reapareceram, dizendo que estavam indo embora. As amigas dela chegaram, segundos depois, dizendo a mesma coisa. Fui me despedir dela com um abraço, mas acabei roçando meus lábios no seu rosto. Quase trocamos um selinho. Foi instintivo. Eu estava pronto para me afastar e pedir desculpas quando ela levou as duas mãos para o meu rosto dando continuidade aquele beijo. O primeiro de muitos. Pois eram aqueles lábios os quais eu iria beijar por toda a minha vida, e nunca iria me cansar.

perfume que por tanto tempo acariciei…

   É errado sentir orgulho por feitos dos outros, mas – quer saber? – certo ou errado, a verdade é que eu sinto um imenso orgulho por poder compartilhar este texto da Mel, aquela criatura linda que desde o Furumbelo sempre aparece com brilho próprio nos filmes que faço com meus alunos. A conheço tanto e há tanto tempo que não teria como eu atenuar minha felicidade ao ver nascer dela esta bela narrativa que ela produziu numa oficina de texto que eu coordenei algumas semanas atrás.

 Deixo o texto aqui em duas versões: a limpa, o texto em si, e a suja, com algumas notas de rodapé.

 Aproveite. 🙂

 P.S.:  Como ela me entregou o texto sem título, decidi por colocar um provisório que estará aqui até ela me dar um definitivo.

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros, mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei. Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…


 

* * *

Leitura comentada:

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.[1]

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros,[2] mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.[3]

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.[4]

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei.[5] Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.[6]

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…

 


[1] O texto começa invadido por diversas nuanças de sombra e penumbra, sejam elas mais físicas (“breu”, “mármore gélido”, “sem esperança de aurora”, “cama negra”) ou psicológicas (“não conhecia”, “Solitária de mim”, “eu não sabia”). O tom é sombrio também pelos elementos que sugerem anulação (“não” [três vezes], “sem”, “negra”, “Solitária” “falta”). Essa escolha vocabular evidencia uma harmonia semântica muito importante para entendermos o porquê de o texto não possuir uma dicção narrativa fluida. Ou melhor: a fluência do texto não pode ser medida em termos de velocidade. Aqui, o intuito dessa aparente lentidão é dar um toque poético e onírico à narrativa. Exemplo dessa proposta é a expressão “solitária de mim”, a qual se localiza num meio termo entre o paradoxal e o depressivo.

[2] Assim como no texto da Natália, aqui também temos uma sinestesia muito bem escolhida. A audição cria imagens visuais no cérebro da narradora, evidenciando o poder imagético das palavras, não só no plano da história, mas também no plano da narração.

[3] Aqui ficamos sabendo que a narradora é uma defunta. Além disso sabemos que ela não se comove com as palavras que pouco a pouco chegam a seus ouvidos.

[4] O terceiro parágrafo, calculando devidamente a progressão narrativa, apresenta uma mudança de postura, ainda que essa mudança seja “justificada” por um elemento externo, a movimentação da terra ao redor da sepultura. Essa justificativa tem de ser compreendida em toda sua ambiguidade, afinal é a terra que move o coração da narradora ou é seu coração que move a terra?

[5] Temos aqui uma sinestesia de muita sensualidade e bom gosto.

[6] O “turning-point” não poderia ser mais bonito. Acredito que a maior parte dos leitores está torcendo para que a narradora deixe esse sentimento renascer. Por ora, deixarei você se deliciar sozinho com o restante do texto. Aproveite-o.

…pedras amontoadas por todo terreno escuro.

 

Natália Calciolari

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro. Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor. A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de
tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

* * *

Leitura comentada:

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro.[1] Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.[2]

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor.[3] A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.[4]

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

 

 


 

[1]
A expressão “cair em mim” não é exatamente um sinônimo de acordar. O cair, sugerindo uma espécie de tombo (imagem essa que será usada mais adiante), expressa certo desconforto (físico e mental, como também veremos a seguir). As “pedras amontoadas” também sugerem desconforto. Essa mistura de elementos concretos e abstratos sugerindo adversidades é fundamental para o clima do texto.

[2]
Temos aqui dois movimentos concomitantes. O primeiro é o da consciência tentando, mas não conseguindo, acessar a memória. Se entendermos isso como ato falho, podemos supor que o narrador tem problemas relacionados não só com a memória recente, mas também com a distante (coisa que irá se confirmar logo mais). Já o segundo movimento é a insistência de o narrador sentir-se jovem, apesar de seu corpo não dizer mais o mesmo. Considerando que ele está embriagado no momento da narração e considerando que álcool não é um alimento propício a quem quer se manter com o corpo jovem e saudável, talvez nem ele mesmo acredite na sua suposta juventude. Essa decepção com o próprio eu talvez seja uma das causas da sua embriaguez – mas certamente não será a única.

[3]
Há aqui um saboroso oximoro. Há duas formas de estarmos surdos: pelo excesso e pela ausência de sons. O tom onírico, verbalizado no último período do texto, já está sendo sugerido aqui.

[4]
Dizer que há aqui uma sinestesia é pouco. Muito pouco. Interessante será analisar o modo como ela é usada para, então, usufruirmos as notas de seu paladar delicado. Ao espreitar “gritos de lamentação”, a autora não está apenas deixando o texto bonito, mas fazendo com que o narrador crie uma identificação visual com a expressão quase animalesca do jovem apaixonado que está entrando em cena. Mais do que uma sutileza quase cinematográfica, o que temos aqui é uma passagem daquelas que a gente mesmo gostaria de ter escrito.

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Cultura Pop

Exemplo de texto dissertativo

O texto a seguir foi feito pelo Eduardo Girão, aluno do oitavo ano. A proposta era: faça um breve texto dissertativo a respeito da cultura pop.

Sugeri que os alunos trabalhassem com a seguinte estrutura:

Tópico Frasal

 

Desenvolvimento

 

Gancho

 

Tópico Frasal

 

Desenvolvimento

 

Síntese

 

Na verdade, trata-se de uma dissertação reduzida, sem a introdução típica com que gostamos de trabalhar (periférico / tema / tese).

Vou apresentar o texto dele em duas formas. A primeira nua, despida de qualquer interferência minha. A segunda vestida com as cores que eu usei para identificar as partes lógicas do texto e adornada com notas de rodapé.

Vamos ao que interessa:

Exercício redacional (Eduardo Girão, também conhecido como o Príncipe da 74) – 1ª versão:

Muitos têm uma noção preconceituosa em relação à cultura pop. Essas pessoas acreditam que a cultura pop não serve para nada. Falam que, por não ser consistente com um estilo definido, nem merece a nossa atenção, servindo apenas para alienar jovens e criar uma falsa sensação de felicidade, iludindo todos que a apreciam. Mas isso nem sempre é verdade.

A cultura pop foi muito criticada ao longo do último século. A dificuldade de sua compreensão estimula o preconceito contra ela. Quantos ao longo de suas vidas já não julgaram um estilo ou cultura sem realmente os compreender? O jazz, quando começou a ganhar popularidade, foi injustamente criticado por seus constantes improvisos e, hoje, se tornou um estilo muito apreciado por aqueles que realmente o compreendem. Antes de um determinado estilo ser julgado, ele deve ser devidamente compreendido.

Exercício redacional (Eduardo Girão, também conhecido como o Príncipe da 74) – 2ª versão:

Muitos têm uma noção preconceituosa em relação à cultura pop.[1] Essas pessoas acreditam que a cultura pop não serve para nada.[2] Falam que, por não ser consistente com um estilo definido, nem merece a nossa atenção, servindo apenas para alienar jovens e criar uma falsa sensação de felicidade, iludindo todos que a apreciam.[3] Mas isso nem sempre é verdade. [4]

A cultura pop foi muito criticada ao longo do último século. [5] A dificuldade de sua compreensão estimula o preconceito contra ela. [6] Quantos ao longo de suas vidas já não julgaram um estilo ou cultura sem realmente os compreender? [7] O jazz, quando começou a ganhar popularidade, foi injustamente criticado por seus constantes improvisos e, hoje, se tornou um estilo muito apreciado por aqueles que realmente o compreendem. [8] Antes de um determinado estilo ser julgado, ele deve ser devidamente compreendido.[9]

 


[1] Para que esse suposto tópico frasal seja validado, é preciso que os períodos seguintes de fato desenvolvam a ideia contida aqui. Por exemplo: quem são esses “muitos”?, que “noção preconceituosa” é essa?, Por que existe esse preconceito? Qualquer que seja a opção do autor, ele precisa estar ciente de que o tópico frasal nunca é avaliado sozinho. Um bom tópico frasal não só atrai o olhar do leitor, como também o guia, sem tropeços, para o desenvolvimento do parágrafo.

[2]
O segundo período traz um pequeno acréscimo ao TF, mas não é claro o suficiente. Ele, por si só, não será considerado como um “desenvolvimento do TF”, mas nem precisa ser. Aqui é importante considerá-lo como ponto de partida para o desenvolvimento. Na sequência do texto seria conveniente que o autor explicasse essa postura: Como assim eles dizem que a cultura pop não serve para nada?

[3]
Agora sim o texto nos traz uma informação mais clara. A mente conservadora não vê na cultura pop um estilo definido, acreditando se tratar de uma forma barata de divertimento e alienação.

[4]
Gancho simples, mas eficiente. Apresentada e explicada a ideia contrária, está chegando a hora de o autor apresentar seu ponto de vista.

[5]
Aqui surge um grande perigo. Peraí! O tópico frasal parece adequado, bem feito, então qual é o perigo? De fato, o TF parece adequado e bem feito, no entanto precisamos ver o que o autor fará com ele. Sabemos que a sequência do texto deve ser coerente com o TF, mas, além disso, não podemos nos esquecer de que ela deve ser coerente com o gancho apresentado no parágrafo anterior. Veja bem, se o Dudu desenvolver um paralelo histórico das críticas feitas à cultura pop ao longo do século XX, talvez ele termine seu texto sem defender sua ideia. É importante, diria imprescindível, que ele harmonize gancho e tópico frasal, defendendo sua ideia e usando de alguma forma o referencial apresentado no TF. Vamos ver se ele dá conta do recado.

[6]
Por enquanto, o texto apresenta uma possível causa do preconceito (harmonizando-se mais com o gancho do parágrafo anterior do que com o TF).

[7]
Esta pergunta retórica é sensacional. Afinal, num determinado sentido, todos nós julgamos algo sem compreendê-la totalmente. Até porque talvez seja impossível compreender totalmente alguma coisa. Por exemplo, eu posso ver uma peça de teatro e odiá-la (ou amá-la, tanto faz) sem perceber determinadas – e, às vezes, importantes – questões estéticas, éticas, filosóficas etc. A pergunta retórica do Dudu faz referência direta ao nosso desenvolvimento intelectual e, de certa forma, já antecipa a conclusão do seu texto: antes de julgarmos, convém conhecermos adequadamente aquilo que estamos analisando.

[8]
E aqui, neste período, vemos a tão esperada referência ao TF, completamente articulada ao texto como um todo, indicando uma boa coesão entre partes diversas do texto, garantindo a coerência de ideias ao longo do texto.

[9]
Síntese perfeitamente alinhada à discussão proposta. Um texto simples (fácil de compreender) e complexo (pois bem costurado). Como diria o Daniel: Que homem, esse Dudu! J

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