Arquivos

perfume que por tanto tempo acariciei…

   É errado sentir orgulho por feitos dos outros, mas – quer saber? – certo ou errado, a verdade é que eu sinto um imenso orgulho por poder compartilhar este texto da Mel, aquela criatura linda que desde o Furumbelo sempre aparece com brilho próprio nos filmes que faço com meus alunos. A conheço tanto e há tanto tempo que não teria como eu atenuar minha felicidade ao ver nascer dela esta bela narrativa que ela produziu numa oficina de texto que eu coordenei algumas semanas atrás.

 Deixo o texto aqui em duas versões: a limpa, o texto em si, e a suja, com algumas notas de rodapé.

 Aproveite. 🙂

 P.S.:  Como ela me entregou o texto sem título, decidi por colocar um provisório que estará aqui até ela me dar um definitivo.

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros, mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei. Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…


 

* * *

Leitura comentada:

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.[1]

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros,[2] mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.[3]

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.[4]

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei.[5] Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.[6]

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…

 


[1] O texto começa invadido por diversas nuanças de sombra e penumbra, sejam elas mais físicas (“breu”, “mármore gélido”, “sem esperança de aurora”, “cama negra”) ou psicológicas (“não conhecia”, “Solitária de mim”, “eu não sabia”). O tom é sombrio também pelos elementos que sugerem anulação (“não” [três vezes], “sem”, “negra”, “Solitária” “falta”). Essa escolha vocabular evidencia uma harmonia semântica muito importante para entendermos o porquê de o texto não possuir uma dicção narrativa fluida. Ou melhor: a fluência do texto não pode ser medida em termos de velocidade. Aqui, o intuito dessa aparente lentidão é dar um toque poético e onírico à narrativa. Exemplo dessa proposta é a expressão “solitária de mim”, a qual se localiza num meio termo entre o paradoxal e o depressivo.

[2] Assim como no texto da Natália, aqui também temos uma sinestesia muito bem escolhida. A audição cria imagens visuais no cérebro da narradora, evidenciando o poder imagético das palavras, não só no plano da história, mas também no plano da narração.

[3] Aqui ficamos sabendo que a narradora é uma defunta. Além disso sabemos que ela não se comove com as palavras que pouco a pouco chegam a seus ouvidos.

[4] O terceiro parágrafo, calculando devidamente a progressão narrativa, apresenta uma mudança de postura, ainda que essa mudança seja “justificada” por um elemento externo, a movimentação da terra ao redor da sepultura. Essa justificativa tem de ser compreendida em toda sua ambiguidade, afinal é a terra que move o coração da narradora ou é seu coração que move a terra?

[5] Temos aqui uma sinestesia de muita sensualidade e bom gosto.

[6] O “turning-point” não poderia ser mais bonito. Acredito que a maior parte dos leitores está torcendo para que a narradora deixe esse sentimento renascer. Por ora, deixarei você se deliciar sozinho com o restante do texto. Aproveite-o.

Anúncios

…pedras amontoadas por todo terreno escuro.

 

Natália Calciolari

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro. Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor. A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de
tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

* * *

Leitura comentada:

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro.[1] Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.[2]

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor.[3] A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.[4]

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

 

 


 

[1]
A expressão “cair em mim” não é exatamente um sinônimo de acordar. O cair, sugerindo uma espécie de tombo (imagem essa que será usada mais adiante), expressa certo desconforto (físico e mental, como também veremos a seguir). As “pedras amontoadas” também sugerem desconforto. Essa mistura de elementos concretos e abstratos sugerindo adversidades é fundamental para o clima do texto.

[2]
Temos aqui dois movimentos concomitantes. O primeiro é o da consciência tentando, mas não conseguindo, acessar a memória. Se entendermos isso como ato falho, podemos supor que o narrador tem problemas relacionados não só com a memória recente, mas também com a distante (coisa que irá se confirmar logo mais). Já o segundo movimento é a insistência de o narrador sentir-se jovem, apesar de seu corpo não dizer mais o mesmo. Considerando que ele está embriagado no momento da narração e considerando que álcool não é um alimento propício a quem quer se manter com o corpo jovem e saudável, talvez nem ele mesmo acredite na sua suposta juventude. Essa decepção com o próprio eu talvez seja uma das causas da sua embriaguez – mas certamente não será a única.

[3]
Há aqui um saboroso oximoro. Há duas formas de estarmos surdos: pelo excesso e pela ausência de sons. O tom onírico, verbalizado no último período do texto, já está sendo sugerido aqui.

[4]
Dizer que há aqui uma sinestesia é pouco. Muito pouco. Interessante será analisar o modo como ela é usada para, então, usufruirmos as notas de seu paladar delicado. Ao espreitar “gritos de lamentação”, a autora não está apenas deixando o texto bonito, mas fazendo com que o narrador crie uma identificação visual com a expressão quase animalesca do jovem apaixonado que está entrando em cena. Mais do que uma sutileza quase cinematográfica, o que temos aqui é uma passagem daquelas que a gente mesmo gostaria de ter escrito.

–>

Cultura Pop

Exemplo de texto dissertativo

O texto a seguir foi feito pelo Eduardo Girão, aluno do oitavo ano. A proposta era: faça um breve texto dissertativo a respeito da cultura pop.

Sugeri que os alunos trabalhassem com a seguinte estrutura:

Tópico Frasal

 

Desenvolvimento

 

Gancho

 

Tópico Frasal

 

Desenvolvimento

 

Síntese

 

Na verdade, trata-se de uma dissertação reduzida, sem a introdução típica com que gostamos de trabalhar (periférico / tema / tese).

Vou apresentar o texto dele em duas formas. A primeira nua, despida de qualquer interferência minha. A segunda vestida com as cores que eu usei para identificar as partes lógicas do texto e adornada com notas de rodapé.

Vamos ao que interessa:

Exercício redacional (Eduardo Girão, também conhecido como o Príncipe da 74) – 1ª versão:

Muitos têm uma noção preconceituosa em relação à cultura pop. Essas pessoas acreditam que a cultura pop não serve para nada. Falam que, por não ser consistente com um estilo definido, nem merece a nossa atenção, servindo apenas para alienar jovens e criar uma falsa sensação de felicidade, iludindo todos que a apreciam. Mas isso nem sempre é verdade.

A cultura pop foi muito criticada ao longo do último século. A dificuldade de sua compreensão estimula o preconceito contra ela. Quantos ao longo de suas vidas já não julgaram um estilo ou cultura sem realmente os compreender? O jazz, quando começou a ganhar popularidade, foi injustamente criticado por seus constantes improvisos e, hoje, se tornou um estilo muito apreciado por aqueles que realmente o compreendem. Antes de um determinado estilo ser julgado, ele deve ser devidamente compreendido.

Exercício redacional (Eduardo Girão, também conhecido como o Príncipe da 74) – 2ª versão:

Muitos têm uma noção preconceituosa em relação à cultura pop.[1] Essas pessoas acreditam que a cultura pop não serve para nada.[2] Falam que, por não ser consistente com um estilo definido, nem merece a nossa atenção, servindo apenas para alienar jovens e criar uma falsa sensação de felicidade, iludindo todos que a apreciam.[3] Mas isso nem sempre é verdade. [4]

A cultura pop foi muito criticada ao longo do último século. [5] A dificuldade de sua compreensão estimula o preconceito contra ela. [6] Quantos ao longo de suas vidas já não julgaram um estilo ou cultura sem realmente os compreender? [7] O jazz, quando começou a ganhar popularidade, foi injustamente criticado por seus constantes improvisos e, hoje, se tornou um estilo muito apreciado por aqueles que realmente o compreendem. [8] Antes de um determinado estilo ser julgado, ele deve ser devidamente compreendido.[9]

 


[1] Para que esse suposto tópico frasal seja validado, é preciso que os períodos seguintes de fato desenvolvam a ideia contida aqui. Por exemplo: quem são esses “muitos”?, que “noção preconceituosa” é essa?, Por que existe esse preconceito? Qualquer que seja a opção do autor, ele precisa estar ciente de que o tópico frasal nunca é avaliado sozinho. Um bom tópico frasal não só atrai o olhar do leitor, como também o guia, sem tropeços, para o desenvolvimento do parágrafo.

[2]
O segundo período traz um pequeno acréscimo ao TF, mas não é claro o suficiente. Ele, por si só, não será considerado como um “desenvolvimento do TF”, mas nem precisa ser. Aqui é importante considerá-lo como ponto de partida para o desenvolvimento. Na sequência do texto seria conveniente que o autor explicasse essa postura: Como assim eles dizem que a cultura pop não serve para nada?

[3]
Agora sim o texto nos traz uma informação mais clara. A mente conservadora não vê na cultura pop um estilo definido, acreditando se tratar de uma forma barata de divertimento e alienação.

[4]
Gancho simples, mas eficiente. Apresentada e explicada a ideia contrária, está chegando a hora de o autor apresentar seu ponto de vista.

[5]
Aqui surge um grande perigo. Peraí! O tópico frasal parece adequado, bem feito, então qual é o perigo? De fato, o TF parece adequado e bem feito, no entanto precisamos ver o que o autor fará com ele. Sabemos que a sequência do texto deve ser coerente com o TF, mas, além disso, não podemos nos esquecer de que ela deve ser coerente com o gancho apresentado no parágrafo anterior. Veja bem, se o Dudu desenvolver um paralelo histórico das críticas feitas à cultura pop ao longo do século XX, talvez ele termine seu texto sem defender sua ideia. É importante, diria imprescindível, que ele harmonize gancho e tópico frasal, defendendo sua ideia e usando de alguma forma o referencial apresentado no TF. Vamos ver se ele dá conta do recado.

[6]
Por enquanto, o texto apresenta uma possível causa do preconceito (harmonizando-se mais com o gancho do parágrafo anterior do que com o TF).

[7]
Esta pergunta retórica é sensacional. Afinal, num determinado sentido, todos nós julgamos algo sem compreendê-la totalmente. Até porque talvez seja impossível compreender totalmente alguma coisa. Por exemplo, eu posso ver uma peça de teatro e odiá-la (ou amá-la, tanto faz) sem perceber determinadas – e, às vezes, importantes – questões estéticas, éticas, filosóficas etc. A pergunta retórica do Dudu faz referência direta ao nosso desenvolvimento intelectual e, de certa forma, já antecipa a conclusão do seu texto: antes de julgarmos, convém conhecermos adequadamente aquilo que estamos analisando.

[8]
E aqui, neste período, vemos a tão esperada referência ao TF, completamente articulada ao texto como um todo, indicando uma boa coesão entre partes diversas do texto, garantindo a coerência de ideias ao longo do texto.

[9]
Síntese perfeitamente alinhada à discussão proposta. Um texto simples (fácil de compreender) e complexo (pois bem costurado). Como diria o Daniel: Que homem, esse Dudu! J

–>

no flat

           O texto a seguir foi produzido após uma reunião dos Estudos Narrativos, atividade destinada a alunos do Ensino Fundamental II, das quais o Luca participa como ouvinte – embora às vezes, a gente o deixe falar. As únicas instruções que lhe passei foi que usasse de modo consciente alguns dos recursos trabalhados nas reuniões (enredo, vozes [narrador, personagens], iluminação/cores, enquadramento, ritmo/velocidade, símbolos, ideias). Aqui está o resultado, ao qual inseri algumas notas de rodapé totalmente dispensáveis, mas sabe como é a vaidade, né?

Luca Fasciolo Maschião[1]

           Suspirava satisfeito ao som da suave sinfonia de sua vida, que se sustentava sublime na sua precisão matemática.[2] Na hora do almoço, sorvia a meticulosa harmonia em longos goles – já na meia idade, pensava naquele momento, como extraía de seu pulsante cotidiano essa satisfação. Suspirara novamente, sorrindo. [3]

           Contemplava a ordem perfeita que regia a cidade, sua funcionalidade, sua lógica.[4] De repente, cessaram os instrumentos.[5] Captara de relance o sentimento cru de um casal que, em explosão sonora, ruía toda aquela ordem.[6] Preenchia-o lentamente com angústia, meio no qual aquele baque ressoava estrondoso e incessante. O recipiente já não suportara mais e, naquela madrugada, rompeu-se. Agora que explodira; no flat: silêncio.[7]


[1] Como o Luca não batizou o rebento, o provisório eu que dei.

[2] O primeiro período possui bastante sonoridade. A aliteração de sons assoprados dialoga com a tal “suave sinfonia de sua vida”, indicando um toque de delicadeza. O desfecho, porém, apresenta uma expressão ambígua. A “precisão matemática” pode tanto remeter a uma sensação quase divina quanto a um rigor cujas sequelas irão aparecer cedo ou tarde.

[3] Aqui temos uma metonímia que se tornará interessante. Ao sorver “a meticulosa harmonia em longos goles”, o protagonista nos transmite um caráter alegre e vivo, bastante coerente com a aliteração do período anterior. Já na segunda metade do período, vemos uma pista bastante sutil: a satisfação era extraída do pulsante cotidiano com certo esforço. A ênfase, sem dúvida alguma é positiva, mas podemos ficar sim desconfiados que essa alegria toda dialoga com uma espécie de dor que está sendo disfarçada com muito empenho.

[4] Analisemos a personificação. Em “a ordem perfeita que regia a cidade”, é possível ver uma inversão semântica, em que as pessoas (“cidade” / substantivo concreto) são governadas por leis (“ordem” / substantivo abstrato), quando o correto deveria [?] ser o contrário. “Funcionalidade” e “lógica” parecem soar mais como marcas de uma civilização robotizada do que atributos elogiáveis.

[5] Há aqui uma mudança de plano sensacional. O foco narrativo apontava para fora, para a cidade como um todo; agora, num piscar de olhos, estamos de volta ao apartamento com o protagonista. Um processo sutil, mas de muita tensão.

[6] Assim como acontece em Alphaville, filme de Jean-Luc Godard, também aqui o amor (ou a paixão ou o contato humano, use o nome que lhe seja conveniente) se encarrega de ruir a distopia até então tão bem disfarçada pelos artifícios narrativos do Luca. “Sentimento cru” parece remeter à cena inicial de Hiroshima mon amour, de Alain Resnais, em que os corpos de Emmanuelle Riva e Eiji Okada se unem num abraço capaz de fundir o sólido mais duro. O importante aqui não é inquirir se esse diálogo é feito de modo proposital ou não, mas sim perceber uma sensibilidade muito próxima de duas obras que emocionaram inúmeros fãs. E caso tenha sido mesmo uma apropriação, eis um motivo a mais para consumirmos culturas.

[7] Releia o texto sem minha interferência. Usufrua por conta própria. Eu sei que você vai gostar.

Um som na praia

 Stella A. N.

A brisa entrava pela janela e soprava as fotos na parede branca, o quarto ficou fresco e pode-se escutar as ondas quebrando nas pedras de calcário. As águas brilhantes e cristalinas transmitiam calma e serenidade, podia me perder naquela paisagem com o meus pés afundados na areia fofa e branca.[1]

Eu caminhei um pouco pela praia; meu vestido era tocado levemente pelo vento que cheirava a mar salgado. O vestido vermelho se destacava na praia deserta, nem uma pessoa à vista ou outro som além do mar e das gaivotas que sobrevoavam o lugar.[2]

Depois de algum tempo escolhendo conchas trazidas pela maré, com a barra de meu vestido molhada, ouvi um som bem fraco. Segui o som e cheguei a um lugar que se parecia com uma pequena casa de praia. A porta estava aberta; então, entrei.[3]

A casa tinha uma decoração simples e o chão era forrado com madeira. Andei pela casa e cheguei à fonte do som: um senhor já grisalho e bronzeado pelo sol forte do verão que então tocava um violão gasto e desbotado. Ele tocava uma melodia triste, movendo lentamente seus dedos entre as cordas do violão.[4]

-Que música é essa, senhor? – Ele nada me respondeu, continuou tocando a música até o final.

-Esta música foi escrita para alguém que eu amei e que se perdeu nesta praia deserta. Ela era como você, jovem e bela, com cabelos negros e um belo sorriso. – disse o senhor, com uma voz suave, nada desgastada pelo tempo.[5]

O senhor começou a tocar novamente e eu parti. Me pus a pensar se aquele senhor era conhecido, pois era muito hábil. Bem, se ele não tinha fãs, eu me tornara a primeira.

Ainda penso naquela triste canção, tão suave e tão forte. Nunca mais encontrei aquele senhor; espero que ele tenha achado o que buscava.


[1] O texto começa com a personificação da brisa, a qual serve como elo entre os ambientes (quarto – praia). As breves descrições sugerem que há algum tipo de memória nesta casa (Seriam fotos da narradora ou ela está imersa em um santuário de recordações alheias? A se conferir na sequência do texto), ao mesmo tempo ficamos sabendo que esse quarto transmite certo incômodo (ele só fica fresco quando a brisa entra). Metonimicamente, a brisa sugere o lado de fora, onde além da brisa há calma e tranquilidade, retratadas pelos elementos da natureza (novamente vem a questão: ali, dentro daquela casa, há calma e tranquilidade?).

[2] O diálogo com a natureza continua. A narradora expressa uma espécie de necessidade de entrar em contato com alguém – ou mesmo com algo. A visão que ela faz de si mesma como se estivesse num quadro (o vestido vermelho se destacando na praia deserta) sugere uma sensação de incompletude. E, no caso, a cor do vestido é significativa, indicando desejo, sensualidade.

[3] A verossimilhança deste trecho é algo que merece ser analisado. De modo geral, o simples fato de a porta de uma casa desconhecida estar aberta não é motivo para que entremos. Aqui não. Neste ambiente meio que mágico, meio que onírico, a porta aberta (símbolo da possibilidade de comunicação com um outro ser) parece ser razão mais do que suficiente para que a narradora adentre-se naquela casa.

[4] O elemento sonoro, antecipado no título e no primeiro parágrafo, é retomado. Se lá o som era um atributo da natureza (o barulho das ondas), aqui ele se converte num atributo humano.

[5] Aqui temos um momento de saborosa ambiguidade. Esse senhor cuja voz resistiu à passagem do tempo seria um ser do além? Se considerarmos que voz sugere não só comunicação, troca de experiência, mas também expressão de sentimentos, acabamos de ser apresentados a um ancião cujos sentimentos, por mais antigos que sejam, ainda estão vivos, com o sabor da mocidade. Por outro lado, se analisarmos esse encontro pela perspectiva do senhor, a narradora passa a ser o elemento misterioso e simbólico. Será ela a ressurreição da saudosa amada? O interessante é perceber que em qualquer uma dessas duas hipóteses, a configuração simbólica está bem feita. Enquanto ela parece se vestir especialmente para o encontro, ele a recebe com uma canção aparentemente feita sob medida para a amada. E mesmo a natureza parece colaborar com o clima.

Introduzindo-se

Estou compartilhando três introduções feitas por minhas alunas (havia outros bons exemplos, mas me limitei a uma amostra de apenas três mesmo). Inseri umas notas de rodapé para o caso de algum aluno tentar entender o que eu vi de bom em cada um desses textos. Usufrua como lhe aprouver.

Tema: a relação entre piada e preconceito.

Caroline C.

Estamos sempre ouvindo piadas de vários tipos. Seja na internet ou em conversas entre amigos, muitas pessoas estão se aproveitando de mal-entendidos e trocadilhos, formando um texto humorístico com a finalidade de produzir risadas.[1] No entanto,[2] é importante compreender a diferença entre a piada e o preconceito, pois há uma fina linha[3] entre a brincadeira e a ofensa a um grupo específico de pessoas.

Nádia I.

A relação entre a piada e o preconceito é um assunto bastante polêmico e que vale a pena ser discutido.[4] Muitas pesquisas[5] dizem que as piadas atualmente[6] estão ficando cada vez mais preconceituosas e rudes, zombando de estereótipos e de problema físicos. No entanto, se analisarmos melhor,[7] vemos que esse tipo de pensamento possui algumas falhas que podem causar sérios danos à sociedade.[8]

Melissa K.

Imagine duas crianças, rindo e contando piadas para passar o tempo.[9] Em sua inocência, acabam repetindo todas aquelas histórias contadas sobre loiras e portugueses. Desde pequenos, estamos acostumados a ouvir esse tipo de coisa e achar graça. A repetição da personagem[10] nos faz lembrar de outras piadas que ouvimos anteriormente e que nos fazem rir. Até certo ponto, acaba realmente sendo engraçado.[11] Mas chega uma hora em que isso se torna preconceito.[12] [13]

 


[1] Ambientação eficiente. O primeiro período, curto, leva o leitor com rapidez ao assunto (piada). O segundo período, valendo-se de um pequeno desdobramento, contribui para que o leitor entre no clima.

[2] O terceiro período começa com uma problematização: a piada, fonte de humor e risadas, pode ser usada para fins não elogiáveis. O trecho explicativo (iniciado pelo “pois”) parece antecipar uma das discussões que serão desenvolvidas no decorrer do texto.

[3] Sugestão do meu amigo Thiago, professor de matemática (é isso mesmo): se trocarmos “fina linha” por “linha tênue”, a imagem pretendida pela autora (que já era boa) se torna ainda mais adequada, pois intensifica a dificuldade de percebermos se a brincadeira é somente isso, uma brincadeira, ou se ela se tornou uma espécie de agressão.

[4] O primeiro período é dos mais incisivos. Além de apresentar o tema (relação entre piada e preconceito), utiliza-se de mecanismos linguísticos para atrair a atenção e o interesse do leitor (o adjetivo “polêmico” indica que o texto precisará analisar um determinado debate; a expressão “vale a pena ser discutido” parece inferir ao tema um tom de urgência – obviamente, no decorrer do texto, será preciso cumprir com a expectativa gerada).

[5] Há um tom meio vago em “Muitas pesquisas”. O ideal seria indicar, de modo específico, que pesquisas são essas. Em todo caso, não está ruim.

[6] A locução verbal “estão ficando” torna o advérbio “atualmente” desnecessário.

[7] Outra expressão escolhida a dedo para impressionar o leitor.

[8] A estrutura lógica deste texto é muito parecida com a do primeiro. A grande virtude, de ambos os textos, talvez seja o pragmatismo: eles não só nos apresentam, de modo claro, o tema, como também inserem questões nas nossas cabeças. No texto da Caroline, a partir de que ponto uma brincadeira se torna uma ofensa? No texto da Nádia, a perspectiva da discussão se inverte. De acordo com ela, talvez haja críticas exageradas aos humoristas. Uma introdução corajosa, sem dúvida alguma, pois uma mão pouco habilidosa poderia ser conivente com um grave problema social. É isso que ela deve evitar ao desenvolver o texto.

[9] Na versão inicial, o primeiro período tinha apenas as três primeiras palavras do texto (troquei o ponto pela vírgula por uma questão gramatical). A sensação imediata que me ocorreu foi “ela sabe o que está fazendo”. De modo geral, períodos curtos podem sugerir ideias superficiais, mas no caso não. Ficou claro para mim que se tratava de uma questão de ritmo. O periférico partiria de um resgate da memória; o texto nos convida a assumir a perspectiva de duas crianças ingênuas, divertindo-se com as piadas que ouviam os adultos contar – sim, sabemos que essa é uma das formas de interação social mais comuns, não só naquele período da vida. O texto consegue nos conduzir ao assunto com uma segurança fora do comum.

[10] Expressão pouco clara. Sinto dificuldades em compreender a ideia que o texto tentou expressar aqui.

[11] Chegamos a 80% da introdução e até agora o que vimos? O texto aborda o assunto (piadas) a partir da nossa memória afetiva, estimulando uma impressão positiva (humor, interação social, saudosismo). De certa forma, pode-se dizer que o leitor foi manipulado a criar uma expectativa favorável ao assunto. No entanto, no último período o “mas” – conjunção adversativa, com o poder de articular uma oposição, um conflito, uma problematização. E é isso que ela faz: por meio de uma frase curta, somos levados ao tema (a relação entre a piada e o preconceito) e a refletir a respeito de algo que nos é tão caro.

[12] Questão de gosto: creio que a tese foi apresentada com um pouco mais de tempero que o necessário. Pouca coisa, fácil de ajustar. Se trocarmos o “se torna” por “pode se tornar”, evitaremos uma generalização que pode prejudicar a agudez do raciocínio. Se substituirmos “preconceito” por uma expressão um pouco mais enigmática, teremos um tom maior de suspense, o que se converte em poder de atração. Vejamos: “Mas chega uma hora em que isso pode se tornar um problema muito sem graça”. Caso a sugestão seja adotada, seria importante que logo no início do segundo parágrafo, fosse usada a palavra-chave “preconceito”. Desse modo, evitaríamos um tom excessivamente vago.

[13] Apesar os – poucos – poréns, trata-se de textos com boa qualidade e ótimo potencial. Além disso vale notar (havia me esquecido de dizer…) que todas elas, a Carol, a Nádia, a Melissa, são alunas do 8ºEF. Se elas continuarem com a pegada, imagine só o ponto ao qual suas redações irão chegar. J

uma parte da alma

Giulia G.S.A.

A cada lágrima, uma parte da alma.

As nuvens cobriam o céu deixando o dia estranhamente cinzento. O vento estava manso, tímido. A grama desgastada completando o cenário melancólico daquela tarde patética. Ao longe, os soluços e suspiros dos que ficaram eram ouvidos. Lágrimas cobriam as lápides dos entes perdidos. Flores murchavam conforme o dia envelhecia. O cheiro de decomposição era mascarado por um perfume artificial e enjoativo, como se com aquilo a morte fosse afastada e diminuísse a dor dos outros. Outros esses que choravam não por causa das memórias mas sim pela opacidade que as tomavam.