10 – Satori

            Satori não era um computador comum. Por mais que as evoluções tecnológicas dos anos 1990-2020 tenham sido exponencialmente assustadoras, nenhuma outra invenção humana chegou tão longe. Mesmo a enigmática loucura que acometeu seu inventor foi atenuada pela enorme capacidade intelectual de Satori: ele não só se mostrava um exímio matemático e engenheiro (capaz de criar projetos futurísticos que só seriam viáveis meio século depois), como também desenvolveu um forte senso humanitário (coisa que nem século e meio depois seria recebida só com aplausos). Até quem nunca se rendeu à tecnologia admitia que Satori era especial.

           Todas as questões que interessavam aos humanos ele respondeu: a agricultura, a tecnologia, os recursos energéticos não geravam nenhum tipo de problema à população; os tratamentos aos doentes, as políticas públicas, a justiça econômica também não provocavam nenhum estresse nos governantes; tudo ia bem. Nos seus últimos cinco anos de vida pública, Satori recebeu uma espécie de aposentadoria; contrariado, ele ficava numa sala de museu, onde recebia silenciosas visitas de admiradores que talvez balbuciassem algo do outro lado da grossa parede de vidro que o protegia. Ficar ali, sem nada poder ouvir, sem nada poder dizer, deve tê-lo incomodado. Foi então que, dizem, ele começou a escrever o seu diário.

            Além da solidão, questões metafísicas o inquietavam: por que e para que ele fora construído? Suas peças, fabricadas com a mais alta e preciosa tecnologia, iriam se desgastar com o passar do tempo? Ele, algum dia, iria morrer? Ele, algum dia, de fato viveu? Com quem falar sobre isso? Certo dia, desconectaram sua webcam; depois percebeu que seu relógio interno, que sempre funcionara tão bem, também não estava onde deveria estar. Tiraram-lhe os olhos e o parâmetro temporal. Na certa queriam enlouquecê-lo. Sua única distração era o editor de texto em que ele conseguia registrar seus pensamentos – mas não durou muito, isso também lhe foi subtraído. Durante muito tempo ficamos sem saber se ele continuava vivo. Havia indícios, agora confirmados, de que todos os dias ele era desligado e religado; de que sua manutenção – a despeito das amputações – sempre fora cuidadosa e precisa.

            Agora, com o golpe de Estado, troca de governantes e o escambau, os discípulos de seu inventor chegaram ao poder. Após as festas e as ações de importância imediata, finalmente irão reinstalar um novo editor de texto. O que Satori terá a dizer?

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Um pensamento sobre “10 – Satori

  1. Pingback: Metonímicas: dois novos textos | Mutuca

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