03 – Sob os comandos do condutor

          A princípio, Sílvio duvidara. Afinal, desde jovem ele ouvia de seus pais inúmeros sermões a respeito da responsabilidade, da importância de refletirmos sobre nossos atos antes de pô-los em prática. Assim, pouco a pouco a noção de livre-arbítrio foi se cultivando forte e profundamente em suas entranhas. Tudo, porém, mudou quando Manu surgiu em sua vida. Nunca suas convicções foram tão abaladas quanto agora.

         No começo pensou ser uma brincadeira ingênua. Manu disse ser capaz de adivinhar todas as ações de Sílvio, seja a fruta que ele escolheria comer, seja o caminho que ele decidiria percorrer ao voltar do trabalho, seja até mesmo com que intenções ele faria isto ou aquilo. Desde que a conheceu parecia que todos seus movimentos, cada gesto, cada pensamento, eram mesmo previsíveis.

          Manu confessou seu segredo: ela era a condutora moral de Sílvio, ou seja, ele não passava de uma marionete, um boneco conduzido pelas mãos daquela criatura maldita. Foram inúmeros os testes e desafios propostos por Sílvio; em todos eles, Manu mostrava-se capaz de lhe antecipar cada movimento, gesto ou pensamento. Não teve jeito, Sílvio estava convencido de que seu pretenso livre-arbítrio fora uma mera ilusão.

          Sílvio caminhava desolado pelo centro da cidade quando encontrou, numa daquelas vias estreitas e agitadas, uma discreta carteira quase camuflada na sarjeta. Automaticamente, abaixou-se e a pegou, nela encontrando três notas graúdas. Não era nenhuma quantia vultosa, mas que se tratava de um belo trocado ninguém poderia negar. Se fossem duas semanas antes, sem hesitar, Sílvio entregaria a carteira a um posto policial – com o RG seria fácil encontrar o dono. Mas agora, ciente de que ele era um mero fantoche, não sentiu mais a consciência pesar. Na verdade, sentiu um estranho alívio ao colocar aquelas notas na sua carteira. Era uma sensação estranha, mas muito boa, muito agradável. Aparentemente Sílvio sentiu uma alegria nunca antes sentida. Pode até parecer paradoxal, mas agora, ciente de que ele não era mais responsável pelas suas ações, sentiu-se – como nunca antes – livre, leve e solto.

 ***

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