04 – O enigma do elefante

          Era uma aldeia isolada, longe de tudo, longe de todos. Por lá só havia as mesmas pessoas, os mesmos costumes, as mesma paisagens; era quase um ambiente atemporal – quase não fazia diferença visitá-la hoje, vinte anos atrás, trinta anos adiante. Afonso era praticamente o único que tinha pique para atravessar vales e montanhas, dias e noites, mormaços e ventanias, rumo às cidades vizinhas. Aproveitando-se disso, resolveu pregar uma peça nos seus amigos.

         Brito, Cândido e Dedéu; todos os três foram vendados e expostos a um teste tátil. Brito apalpu um cilindro comprido e musculoso, ágil e forte. Havia certa aspereza, mas mesmo assim não teve dúvidas: é uma cobra! Depois foi a vez de Cândido. Suas mãos tocaram algo que lembrava uma grossa folha de papel, mas era vivo, delicado, cartilaginoso. Aquele cheiro levemente azedo não lhe era estranho: é uma folha de bananeira, coberta pela poeira, mas úmida pelo orvalho! Dedéu, um pouco intimidado pela facilidade com que os amigos resolveram, cada qual, sua parte do enigma, esticou a mão esquerda com hesitação. Sua respiração era irregular; não queria fazer papel de bobo, ora, todo mundo havia conseguido, ele também teria de conseguir! Alongou enfim seu braço até tocar em algo que ele conhecia muito bem: puxa vida, peguei o teste mais fácil! Eu reconheceria este tronco de árvore em qualquer lugar!

          Assim que Afonso os desvendou, todos se assustaram com a surpresa; não era uma cobra, uma folha de bananeira ou um tronco de árvore! Nunca antes haviam visto um bicho como aquele.

          – Meus caros amigos, desculpem-me a brincadeira. Mas espero que vocês reconheçam o propósito e a importância da charada. Muitas vezes, nosso cérebro nos engana. Às vezes cometemos o erro de tentamos decifrar um enigma analisando apenas uma pequena parte da questão. Sem nos atermos ao todo, fatalmente chegaremos a uma resposta equivocada.

          – Mas afinal – um dos amigos perguntou – que bicho é esse?

          – Como assim que bicho é esse? Ora, vejam bem, tem quatro patas e um rabo, eu a vi dando de mamar, logo é um mamífero, é grande, possui dois chifres – nascidos fora do lugar, mas sem dúvida alguma são chifres! Pô, galera! É uma espécie de vaca!

***

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