05 – A moral de Clara

          Clara sempre se considerou uma pessoa cética, lúcida e sensata. Gostava de considerar, medir e refletir sobre cada questão antes de chegar a um julgamento. Por isso era tão admirável vê-la num debate. Não que ela vencesse todas as discussões. Sua grande virtude era que ela sabia exatamente quando deveria insistir nos seus ideais, procurando argumentos inovadores para defender seu ponto de vista, como também sabia reconhecer os momentos em que os argumentos contrários se mostravam mais consistentes. Para ela, a função de um debate não era vencer o oponente, mas fazer com que todo mundo (debatedores e plateia) pudesse alcançar maior esclarecimento.

         Certa vez, no entanto, Clara foi surpreendida, justamente no único assunto em que ela não gostaria de ser. “A escravidão é um erro”, ela dizia para si mesma desde que era criança. E a justificativa (“A escravidão é um erro”, pois o preconceito é um erro) lhe era mais que um aforismo, quase um mantra. No fundo Clara sentia que todo seu ser estava fundamentado nessa ideia, nessa premissa. Por isso ela precisa tanto encontrar um modo de virar o jogo.

         O dilema começou quando Edgar, um sujeito até então obscuro, chegou intimando: “Você, Clara, diz que a escravidão é um erro, certo? E sendo a escravidão um erro, quero crer que você considera que essa afirmação seja universal, ou seja, desvinculada das particularidades específicas de uma cultura ou época. Desse modo, apenas desse modo, poderíamos atribuir à sua afirmação um caráter de verdade. Ou seja, se é verdade que a escravidão é um erro, ela sempre foi e ela sempre será um erro, concorda?” Assustada como nunca ficara antes num debate (afinal, nunca antes se debateu algo que lhe tocava metaforicamente as entranhas), Clara hesitou. Edgar, aproveitando a deixa, continuou: “Mas veja bem, Clarinha, eu não estou defendendo a escravidão ou coisa do tipo. Acho que hoje ela seja um erro. A questão não é essa. O que me pergunto é se a sua afirmação se baseia de fato numa noção de verdadeiro ou falso. Talvez ela seja uma mera expressão de um gosto particular ou, se você preferir, uma crença.” Essa foi demais! Como assim, crença? Clara sentiu-se encurralada. Ela não podia admitir que toda sua vida se pautasse numa coisa tão subjetiva e abstrata. Não! Ela tinha de encontrar algum meio de vencer os argumentos de Edgar…

         Será mesmo? Clara finalmente percebeu o erro que estava cometendo… E, você, também percebeu?

***

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