07 – Os dois cérebros de Anita

          Anita sempre teve medo de se tornar acomodada. “Quando deixamos de desconfiar” – uma professora lhe havia dito – “o senso comum se apodera de nós”. E se tinha uma pessoa em quem Anita confiava, era nessa professora. Foi seguindo seu conselho que ela começou a modelar sua forma de pensar.

         Era como se Anita tivesse dois cérebros: além do primeiro, igual a todo e qualquer cérebro, satisfatoriamente hábil para analisar e julgar o que quer que fosse, havia um outro, dos mais rigorosos, sempre revisando e questionando as decisões do primeiro. Se um gostava de determinado  doce, o segundo tentava captar o que havia de banal em seu sabor, aroma, textura. Se um se incomodava com determinado filme ou peça de teatro, o outro tentava ver que ideias ou linguagens inovadoras estava deixando passar desapercebidas. Demorava até eles entrarem em acordo, era extenuante, mas Anita se sentia feliz por ter considerado cada minúcia antes de chegar a um veredito.

         Ela foi ficando cada vez mais esperta e articulada. Sempre que os amigos queriam opinião sobre algo, a procuravam. Até mesmo alguns professores deixavam a vaidade de lado para saber como ela organizava seus argumentos sobre isto ou aquilo. Era cansativo; Anita nunca respondia de imediato. Se hoje lhe faziam uma pergunta que ela já havia respondido uma semana atrás, ela novamente punha-se a medir, um a um, cada ponto de vista, tentando evitar qualquer erro bobo que pudesse afastá-la da melhor análise. Não era questão de vaidade ou orgulho, o que ela queria era sempre dar a seu interlocutor uma resposta honesta. Como ser diferente? Agora que ela era um ponto de referência, sua responsabilidade aumentou. Não podia se dar ao luxo de pensar numa resposta qualquer. Eles, os seus amigos, mereciam o melhor que ela pudesse dar.

          Seria divertido se pudéssemos ver o que acontece dentro da cabeça de Anita. Se ela continuar treinando seus cérebros desse modo, eles se tornarão ainda mais sagazes, fazendo com que a disputa fique acirrada a ponto de ser quase impossível identificar qual argumento superará o outro. Será mais ou menos como se seus dois cérebros ganhassem vida própria, duelando ferozmente em busca da lucidez.

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