01 – As identidades de Lúcio

         Já havia tempos que Lúcio aguardava ansioso pela viagem. O procedimento era mais do que conhecido: ele entraria na cabine emissora, localizada em São Paulo, seu corpo seria clonado e enviado para a cabine receptora no Rio de Janeiro, onde ele seria reconstruído e, pronto, tudo dentro dos conformes! Pode até parecer repulsivo – ainda mais por sabermos que o corpo original será destruído tão logo o processo de clonagem seja finalizado -, mas na verdade se trata apenas de um simples teletransportador. Sim, isso mesmo, o sonho de inúmeras gerações finalmente se concretizou! Agora é possível ir do Oiapoque ao Chuí num piscar de olhos. Diversos amigos de Lúcio experimentaram e aprovaram a tecnologia. O medo inicial, de que o “indivíduo clone” não guardasse as memórias, opiniões e sentimentos do “indivíduo clonado”, mostrou-se infundado. Inúmeros testes foram realizados e não se constatou nenhuma diferença entre aquele que entrava na primeira cabine e aquele que saía pela segunda.

        Ciente de que tudo daria certo, Lúcio se adentrou na cabine. Em poucos segundos, o scanner fez uma cópia perfeita do seu corpo, transportando-o para a alegre capital fluminense, onde ele pretendia aproveitar todas aquelas praias famosas e fazer muitas amizades. Porém, algo estranho aconteceu. Ao sair da cabine, ele se viu no mesmo lugar onde estava, num prédio de cuja janela ele podia ver a Ladeira da Memória, ali na região do Anhangabaú. O técnico em teletransporte apareceu com um largo sorriso no rosto.

         – A operação foi um sucesso! Venha cá ver!

         Preocupado e curioso, Lúcio se aproximou de um monitor onde uma imagem começava a se distinguir: era ele, ele mesmo, não em São Paulo, mas lá no Rio de Janeiro, em Copacabana, lugar que ele só conhecia por imagens.

         – Viu só? Nós o clonamos e o teletransportamos, mas – confesso: por curiosidade – antes de eliminar seu corpo original, resolvemos lhe apresentar a sua cópia. Veja como você está lidando com os cariocas, tem uma câmera escondida seguindo seus passos.

         As cenas que se seguiram deixaram Lúcio desgostoso. Por um lado, ele se reconhecia naquele sujeito acanhado que não conseguia puxar papo com as pessoas que encontrava na praia. Por outro, ver aquilo lhe provocou um estranhamento, como se estivesse observando uma caricatura de si mesmo. Não, eu não sou tão ridículo assim – pensou.

         – Senhor Lúcio, tive uma ideia. Vou trazer sua cópia para cá agora mesmo. Quero dizer, vou fazer uma nova cópia a partir da sua versão que foi reconstruída no Rio de Janeiro. Será divertido ver vocês dois conversando. Que tal?

***

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2 Comentários

2 pensamentos sobre “01 – As identidades de Lúcio

  1. Pingback: Metonímicas: As identidades de Lúcio | Mutuca

  2. [Visão de Lúcio, pensamentos sobre sua clonagem]
    Aquele frio na barriga já permanece inquieto faz mais de cinco segundos, desde que vi a escultura de meu corpo, com movimentos e até pensamentos iguais aos meus. Esses cinco segudos que pareceram horas, dias quase. Sinto medo.

    Agora sou uma peça comum nesse tabuleiro? Tenho valor qualquer quase nulo? Há uma pessoa igual a mim, em todos os pontos, literalmente um clone. Sou desnecessário, tirar minha essência, a vida, a alma, não resulta em algo bom ou ruim, é simplesmente indiferente. Já pensam em “eliminar meu corpo original”. Sou apenas mais uma experiência para esses desgraçados! Essa máquina. Clonar alguém e tratá-lo como nada, até mesmo em pensamentos e sentimentos. Eu não serei a primeira experiência, se deu certo comigo, por que nao dará com outras pessoas? Todos nos tornaremos, sem perceber, ferramentas. Humanos virarem ferramentas dos próprios humanos, para onde caminhamos?

    Uma criança inteligente sendo clonada para melhorar o ensino, resultando em hegemonia de pensamentos regionais. Um trabalhador quase escravo, sendo copiado; um exército deles, agora não é mais necessária a vida de inúteis mendigos nas ruas, só precisam de poucas pessoas fortes, saudáveis, inteligentes, trabalhando em suas contruções ou projetos. Todas essas imagens passando lentamente, como fotografias em fitas avermelhadas de cameras antigas, onde EU vou parar? Morto.

    O que impede esses manipuladores de alterar nossos pensamentos? Ou os pensamentos dos “novos”, os criados a partir da matéria já existente, os clones. Mesmo tendo uma legião de iguais, uma simples alteração mental enquanto são criados pode mudar o mundo. “Sou uma ferramenta, preciso servir como uma ferramenta. Devo aos maiores”. Pronto, criou-se um exército de escravos inconscientes, capaz de criar uma hegemonia clonada de apenas um original. E esse que antes permanecera único no mundo? Seus pensamentos, sentimentos, precisam ser desconstruídos. Ele precisa ser morto.

    Éramos originais, agora somos apenas a matéria-prima. Prefiro tirar a minha própria vida, deixar que clonem a própria morte daqui pra frente. Sim, agora eles nunca mais poderão criar mais ninguém como eu, apenas outro sem alma, sem batimentos.

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