02 – Noites perfeitas

         Todos os dias após o trabalho Jorge voltava para casa, sempre com uma sobremesa, comprada na doceria favorita de Rita, sua esposa. Mal chegava, já encontrava a mesa posta e punha-se a devorar os aromas e os sabores daqueles pratos que até pareciam recém-saídos da cozinha do Don Angelo, o restaurante favorito do casal, que ficava ali a menos de cinco minutos a pé de onde morava.

        Durante o jantar, logo após as duas primeiras garfadas – que, segundo ele, proporcionavam um clima ímpar a qualquer ambiente – eles começavam a conversar sobre tudo, desde os eventos mais concretos até os desdobramentos filosóficos que conseguiam extirpar de cada miudeza observada ao longo do dia. Após a janta, lavavam juntos a louça enquanto decidiam o filme a que iam assistir.

        Era mesmo um cotidiano empolgante, mas havia um problema: fazia mais de cinco anos que Jorge e Rita haviam rompido. Depois da separação, encontraram-se apenas duas vezes – sempre acompanhados dos respectivos advogados. Mesmo assim, todos os dias, com um sorriso no rosto, Jorge ia para casa cumprir seu ritual. Vivia, prazerosamente, momentos que só existiam na sua cabeça.

***

Conheça a série Metonímicas, clicando aqui.

2 Comentários

2 pensamentos sobre “02 – Noites perfeitas

  1. Pingback: Metonímicas: Noites perfeitas | Mutuca

  2. Uma leitura gostosa e um exemplo muito ilustrativo do significado de “perfeito”. Confesso que fiquei com pena de Jorge, alimentando uma lembrança perfeita que, muio provavelmente, nunca acontecera.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s