Escrevendo com a borracha – versão 1

    

        Ao contrário do que o nome sugeria, Felício talvez não estivesse indo muito bem. Na verdade até atrapalhava. Quantas não foram as vezes em que os amigos diziam sorridentes que quando tudo ia mal só mesmo ele, Felício, era capaz de sorrir. E ele, para não chamar a atenção, consentia. Outras vezes, por causa do gato Félix da TV, diziam que ele faria o maior sucesso com as mulheres, caso não tivesse bafo de peixe. Não que houvesse alguma maldade nesse comentário; seu hálito nunca fora alvo de suspeitas desonrosas, seu suposto sucesso com as mulheres nunca fora notado. A bem da verdade, ele cultivou sim alguns relacionamentos, parece. Ninguém sabia muito da sua vida íntima. Deve-se respeitar a vida privada – principalmente daqueles que quase não apareciam no happy hour. Mas dizendo assim dá a impressão de que ele sempre fora isolado, o que não é verdade. Ele até que falava, falava bastante até, embora fosse raro vê-lo conversando com mais de duas pessoas ao mesmo tempo. E quando alguém falava dele, quase nunca se escapava dos eloquentes “ele é assim mesmo, é o jeito dele”.

        Certa vez recebemos um e-mail informando que o celular que ele usava estaria sendo desabilitado em 24 horas. Não sei se alguém lhe enviou alguma mensagem de despedida, mas alguns riram do gerundismo. Depois consta que seu e-mail também havia sido desativado. O primeiro a saber foi um funcionário do RH, o mesmo que veio nos contar – com duas semanas de atraso – que Felício não mais trabalhava na empresa. Essas coisas acontecem, a rotatividade é intensa, a fila anda, onde vamos almoçar?

        A maioria só achou estranho quando ele encerrou sua conta no Facebook.

        O pior de tudo é que ao procurar seu nome no Google, só foi possível encontrar informações genéricas de oito anos atrás. Talvez Felício esteja reescrevendo sua vida, ainda que à custa de borracha em vez de grafite.

        É o que espero.

*

Recebi uma carta

Cintia Mayumi

   Recebi uma carta… Estou distante de mim mesma, ela dizia. Parte de mim aqui, escrevendo. A outra parte, em algum lugar, por aí. Talvez por isso ao olhar-me no espelho me deparo com uma imagem borrada, como se o espelho estivesse sempre embaçado, a despeito do meu capricho em limpá-lo. Uma imagem sem contornos refletindo um eu sem contornos.

  Onde será que se encontram as minhas linhas? Minhas definições? Minhas luzes e sombras? Em algum lugar, por aí.   Busco ao meu redor, vejo muitas pessoas, formas nítidas que andam e circulam e correm e pulam à minha volta, saltam aos meus olhos com os seus contornos e cores marcantes… Nenhuma delas sou eu.

  Certa vez observei uma moça elegante, de cabelo preto e vestido vermelho. Queria tanto ser como ela… Então peguei uma caneta nanquim e um guache vermelho e desenhei-me, como ela.  Contornos pretos, grossos, davam dimensão à minha forma, enquanto o guache me preenchia de cor, me tornava atraente, marcante. Por algum tempo desfilei assim pelas ruas, pensando ter resolvido o meu problema, encontrado a minha forma.

  Um dia, enquanto passeava alegre e despreocupada, começou a chover muito forte… e pouco a pouco meus contornos foram escorrendo, minhas cores, se esvaindo. Voltei para casa correndo e chorando. Olhei-me no espelho e vi a mesma imagem borrada de antes, sem linhas, sem cores, sem sombras; triste por ter deixado de ser quem eu nunca fui. Procuro incansavelmente por mim mesma desde então.

  Já revirei o mundo nessa busca, sem sucesso. Só havia um lugar no mundo em que eu ainda não havia procurado. Um lugar escuro, de profundidade desconhecida, um lugar que ninguém nunca havia explorado, habitado por sei lá que tipos de sentimentos – eu mesma. Eis que agora busco por mim dentro de mim mesma. Vasculhando às cegas, cada escombro que tiro do lugar causa um ruído que ecoa e gera um certo desconforto. Mas prometi a mim mesma que não desistiria. Até agora, tudo o que encontrei foram alguns rastros, traços que me compõem e cores que me preenchem. Está tudo bem, estou no caminho certo.

  Descobri que não sou tão tímida e que sou um tanto ansiosa. Que gosto mesmo de cinema e que sempre quis aprender a tocar violão. Descobri também que escrevo para descobrir quem eu sou. Então, por favor, continue escrevendo, de algum lugar, por aqui.

brumático

O cheiro de barro ainda se encontrava em sua pele. O gosto telúrico, tão seu, não lhe saíra por completo da boca. Até mesmo suas mãos ressecadas guardavam ainda uma camada de pó, primeira pele. Se sentia tudo isso, se percebia a inabilidade em expressar esses sentimentos tão primordiais, não revelaria, pois padecia já do fado moderno da solidão. Cores, aromas, texturas, sons e sabores compunham então uma só coisa, gosto primevo. Gosto sem gosto, pois não compartilhado, não dito, sequer refletido.

É predominante em certa cultura masculina esse desejo, quase necessidade, de segurar o gozo como se os impulsos devessem ser freados; como se a suspensão do clímax acentuasse o prazer, como se o fremir pudesse se eternizar, como se não houvesse no prolongamento do coito outro agente, buscando não só o próprio prazer, mas também o grito alheio, o berro, o urro por todas as escolhas findadas, o alento de um quê de esperança, a vitalidade em sua desmedida unidade…

Gosto de sentir seus dedos se perderem nos meus cabelos. Gosto do modo como se atiçam sensações e lembranças. Seus dedos se multiplicam, deixam de pertencer apenas ao momento presente, ao estado concreto, tornam-se memórias e projeções. Sua substância se dissolve, verbaliza-se. Sim, é um elogio.

E de sua costela, e do oxigênio que se abrigava em seus pulmões, vieram Eva+Evo. Com ambos conheceu os contrastes e as antíteses do mundo. O gáudio derramado no chão; o fruir suspendido, mais ideia que fato. Evanescência eviterna? Infelizmente não compreendiam paradoxismos.

O prazer, quando visto como mera abstração, torna-se uma meta burocrática, desvencilhada da ação em si, como se a gestualidade fosse um mero instrumento e não um organismo já em desenvolvimento. O estar lançado às traças em nome do pode ser – daí a mecanicidade de um e a frigidez do outro.

Gosto quando você se esquece de que está aqui. Gosto do seu mero existir, irrefletido, irresponsável, egoísta sem ego, cúmplice integrado. Sem passado nem futuro, somente aqui.

Ao olhar para ela e para ele, ainda que saiba distingui-los, não consegue hierarquizá-los conforme gênero, beleza, encanto ou simpatia. Algo, uma consciência indevida talvez, lhe sugere que deve fazê-lo. Por que confiar num ser sem braços e pernas, quase que só pescoço?

Pois o gozo se associa à melancolia, o esparramar-se gera arrependimento e luto, como se após o findar não restasse nada, apenas dois indivíduos entregues à realidade da qual tentaram fugir.

Não tema, meu bem. Você acordou, mas o sonho ainda não se foi. Não tema, não pense no fim. Ainda não.

a leve garota do salão

Carolina A.

 Adentrei àquele enorme salão observando a tudo e a todos ao meu redor. De longe avistei a garota mais graciosa que já havia visto em toda minha curta vida. Ela não aparentava ter mais de 18 anos. Era leve. De olhos fechados, parecia sentir a música jogando os braços para cima e balançando os quadris em seu ritmo. Estava tão tranquila que não sentia os olhares que atraía; muitos outros garotos também estavam ali. Famintos. Foi a única palavra que encontrei para descrever os olhares que recaiam sobre ela. Suas amigas se divertiam ao seu lado, me fazendo perceber que ela estava totalmente desligada do mundo. Muitas meninas tentavam copiar o que ela fazia, mas nenhuma conseguia. A graciosidade com que ela se movia era única. A roupa que trajava, uma discreta saia preta até um pouco acima dos joelhos, a blusa rosa larga que ultrapassava por pouco a altura dos quadris e o sapato baixo prateado a deixavam não vulgar, como as outras, mas elegante. Os longos cabelos loiros balançavam em suas costas deixando-a ainda mais singular. Eu me escondi na penumbra, observando-a de longe. Meus amigos sumiram. Todos sumiram. Eu estava só.

Um cara visivelmente bêbado se aproximou dela. Ela tentou se esquivar uma, duas, três, quatro vezes, mas ele não se deu por vencido. Eu saí de meu esconderijo, aproximando-me deles. Fiquei feliz em perceber que o malandro era quase metade do meu tamanho. “Vá” disse ela firmemente para ele. Eu cheguei mais perto e me coloquei entre os dois. Olhando para cima, ele se assustou e foi embora tropeçado em seus próprios pés.

“Obrigada”, ela sussurrou para mim. A garota começou a se afastar, mas algo em seus olhos sugeriam outras vontades. Toquei seu braço de leve e perguntei se ela não gostaria de tomar algo. Obtive um grande sorriso em resposta. Nós caminhamos até o bar e lá ficamos por algum tempo até resolvermos voltar para a pista. Pude conhecê-la um pouco melhor. Luisa era seu nome. Tinha, como pensei, 18 anos. Desta vez não só a observei como também fiz parte da graciosidade com que ela se movia. Muito tempo passamos ali até que meus amigos reapareceram, dizendo que estavam indo embora. As amigas dela chegaram, segundos depois, dizendo a mesma coisa. Fui me despedir dela com um abraço, mas acabei roçando meus lábios no seu rosto. Quase trocamos um selinho. Foi instintivo. Eu estava pronto para me afastar e pedir desculpas quando ela levou as duas mãos para o meu rosto dando continuidade aquele beijo. O primeiro de muitos. Pois eram aqueles lábios os quais eu iria beijar por toda a minha vida, e nunca iria me cansar.

O jovem apaixonado – tema de redação

Propósitos da atividade:

Escrita criativa; articulação do ponto de vista, listagem, percepção sensorial, figuras de linguagem.

História base:

Por volta das 23h45, um jovem romântico de vinte e alguns anos está no cemitério visitando a amada
recém-falecida. Você observa a cena e relatará seu ponto de vista sobre a situação. No final da história, o jovem começará a cavar a sepultura onde ela fora enterrada.

Tarefa:

Recrie a história, a partir de um ponto de vista diferente.

 

Foco Narrativo

Narrador

Especificações

Poderes / Perspectiva

Coveiro

Novato

Jovem

Convívio com a morte

Experiente

Meia idade

Estudante 

Compromissado

 

 

 O estudante teve de cortar caminho pelo cemitério para chegar à pensão no horário correto.

Festeiro

Bêbado

 

 

Ebriedade; sentidos e raciocínio confusos

Corvo

 

 

Voo; visão do alto

Árvore

Carvalho [Adequação]

Jabuticabeira [Inadequação]

Memória; alimenta-se de defuntos.

Defunta

 

 

 

Abordagem

Repúdio

Distanciamento

Análise filosófica

Linguagem formal

Humor

Identificação

Proximidade

Análise social

Linguagem informal

Drama

 

 

 

 

 

Técnicas

Metonímia

Personificação

Antítese

Sinestesia

Aliteração

Metáfora

Gradação

Paradoxo

Perífrase

Assonância

Ironia

Hipérbole

Clímax

Anticlímax

Eufemismo

Discurso indireto livre

 

 

 

 

Recursos sensoriais

Olfato

Tato

Paladar

Audição

Visão

Doce, ácido, salgado, amargo, ardido, odor, aromático, balsâmico, cheirar, inspirar, inalar, sorver, exalar, emanar, essência, extrato, vapor, inodoro,
perfume, eflúvio, farejar, fedor, fartum, bafo, chulé, pútrido etc.

Apalpar, tocar, tatear, relar, ter olhos na ponta dos dedos, sentir, esfregar, quente, morno, abafado, fresco, frio, gélido, úmido, seco, ardor, comichão, coceira, tangível, intangível, seboso, oleoso, suar, bolor etc.

Doce, ácido, salgado, amargo, frutado, papila gustativa, língua, dente, céu da boca, provar, petiscar, morder, lamber, saborear, lamber os beiços, cravar os dentes, insipidez, insosso, brando, pífio, tédio, picante, defumado,
condimentado, regalo, iguaria, ranço etc.

Tímpano, martelo, caixa acústica, labirinto, fonoaudiólogo, ouvir, escutar, pressentir, dar ouvidos a, ensurdecer, audível, inaudível etc.

Ver, olhar, namorar, espreitar, examinar, inspecionar, mirar, de relance, observação, reconhecimento, espionar, campo de visão, foco, turvo, desfocado,
vista do alto, periscópio, retina, pupila, miopia, estigmatismo, hipermetropia,
cores, luz, sombra, penumbra, gradação, matizes etc.

 

 

 

 

 

 

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