Tarefa 1: comentários.

Tarefa 1: comentários.

Caros alunos, primeiramente, muito obrigado a todos que me enviaram a tarefa dentro do prazo combinado (Marcos, W, Ikeda, W. Emanuel, Tiago V., Xie Fu, Mel, Thiago Y, André, Vítor, Nazivon, Ricardo, Vitória, Pedro Amaral e Francisco). Faz parte da transparência do trabalho, reconhecer o mérito alheio; é isso que estou fazendo.

 Uma dica de leitura: será que todos perceberam quantas perguntas eu deixei de tarefa? Ora, professor, foram três perguntas. Tem certeza? Tenho. Vamos olhar mais de perto então:

1)     Explique o sentido simbólico da história dos três porquinhos, indicando o que simboliza cada porquinho, indicando o que simboliza o lobo mal.

Creio que aqui há quatro perguntas. Os alunos deveria explicar o sentido simbólico de cada porquinho e também o sentido simbólico do lobo mal (3+1=4).

2)     Explique o sentido simbólico da história da cigarra e da formiga, indicando o que simboliza cada personagem.

Usando o mesmo raciocínio, temos aqui duas perguntas.

3)     Qual a diferença básica entre essas duas histórias? Eticamente, você gosta mais de qual delas? Justifique.

E aqui, mais duas – sendo que uma precisaria ser justificada.

Pode parecer bobagem, mas é muito importante que vocês cultivem uma leitura mais atenta. Mais para frente vocês vão ver que detalhes aparentemente dispensáveis fazem muita diferença para que uma história seja boa ou apenas “legalzinha”.

De modo geral, as respostas foram bastante parecidas (isso motivou-me a lhes apresentar mais uma palavrinha de extrema importância, do mesmo naipe que antítese, gradação, analogia). Vamos analisar as respostas que vocês me enviaram:

O que representam os (ou “as”) personagens da primeira história?

1º porco (casa de palha): o mais preguiçoso, o menos evoluído, preocupa-se apenas com o presente, com o momentâneo. Por isso, ele é marcado por forte instabilidade;

2º porco (casa de madeira): ocupa uma posição intermediária em relação aos outros dois porcos;

3º porco (casa de tijolos): o mais evoluído, em diversos sentidos, pois além de construir a casa mais segura (símbolo da estabilidade; ele é quem mais se preocupa com o futuro) ele é altruísta o suficiente para ajudar seus irmãos.

Lobo: a crueldade do mundo, o “destino” cruel do qual só escaparemos com muito empenho (entenda que, nessa frase, o destino é algo que o indivíduo constrói – o aluno que sugeriu essa hipótese talvez tenha se lembrado da nossa primeira aula do ano). O lobo seria uma espécie de síntese dos problemas que, dia após dia, testam nossa capacidade de superá-los.

Comentário: acho que vocês fizeram uma leitura bastante apurada e atenta, conseguindo captar interessantes elementos simbólicos por trás dessa história. O conceito de estabilidade x instabilidade ecoa um texto muito famoso de um dos principais estudiosos brasileiros: Sérgio Buarque de Holanda (pai do Chico Buarque). Em “trabalho e aventura” (in Raízes do Brasil), Sérgio Buarque conta que é possível dividir as pessoas em dois grupos, o trabalhador e o aventureiro. O trabalhador é como o terceiro porco: ele “trabalha”, ele se preocupa com o futuro, ele faz planejamentos, ele pensa em criar raízes, ele busca estabilidade. O trabalhador é como o agricultor, que cuida da terra, planta e depois de certo tempo colhe os frutos do seu trabalho. O aventureiro, por sua vez, acha o trabalho uma coisa muito monótona. Ele gosta de ter horários livres, ele gosta de se divertir, ele sabe que a vida é curta, então prefere aproveitar o presente. Como ele não curte planejamentos, ele precisa ter jogo de cintura, ele precisa ser maleável, flexível, ele precisa saber improvisar, visto que ele é caracterizado pela instabilidade. O aventureiro é como o caçador que vai atrás da presa (que não pertence a ele) sempre quando tem fome, ou como o sujeito que pega o fruto de uma árvore que outra pessoa plantou. O Sérgio Buarque, homem muito inteligente, observa que todo muito tem um quê de trabalhador e aventureiro, porém o comum é que uma dessas tendências se destaque mais que a outra.

Houve também uma análise bastante inusitada que, dependendo a versão da história que vocês leram, faz bastante sentido: os porquinhos preguiçosos, que vivem fazendo festas, sem se preocuparem com os problemas do mundo (representados pelo lobo) seriam uma elite econômica que, sempre quando a coisa aperta, usa a massa, os trabalhadores (no caso, o Prático), como escudo. Repito: essa análise não bate com as versões que eu conheço, mas consigo imaginar pequenas adaptações que fariam a interpretação acima ficar bastante coerente e convincente (Aliás, um futuro exercício que eu pedirei a vocês é justamente a elaboração de um texto simbólico, mas deixemos isso mais para frente). A mesma pessoa que trouxe esse olhar diferenciado também observou (numa outra leitura) que o Prático simboliza o estudioso, mas não o CDF bitolado que apenas decora regras e fórmulas. Prático é o estudioso capaz de ver a essência daquilo que ele estuda. Por isso ele se chama Prático e não Teórico.

Explique o sentido simbólico da história da cigarra e da formiga, indicando o que simboliza cada personagem.

Cigarra: folgada, “aventureira”, alegre.

Formiga: esforçada, trabalhadora, ranzinza.

As estações do ano: símbolo da instabilidade do mundo. Numa leitura paralela, o inverno equivaleria ao lobo mal da primeira história (na verdade, eu não havia pedido para explicar isso, mas gostei da interpretação).

Comentário: se vocês notarem os adjetivos usados para caracterizar (até parece o exercício que eu passei semana passada) a cigarra e a formiga, notarão que elas são personagens antitéticas (uma é quase o oposto da outra) e, mais do que isso, é difícil dizer qual delas é “do bem” ou “do mal”. Esse é o ponto-chave. Será mesmo que podemos caracterizar os seres de modo tão simples e homogêneo? Será que uma pessoa boa é boa o tempo todo com todas as pessoas? Será que uma pessoa má é má o tempo todo com todas as pessoas? Mais para frente, retomarei o assunto. Por ora gostaria que vocês gravassem na cabeça o conceito de O DIREITO À CONTRADITORIEDADE, que nada mais é do que o direito que nós temos de ter uma ideia diferente do senso comum – e ao mesmo tempo, o direito que o outro tem de ter uma ideia diferente da nossa. Para que todos consigamos compreender direito esse termo, vou usá-lo em algumas frases, a saber:

Ex. 1: Paulo disse que o silêncio é uma forma de educação, porém Augusto defendeu que às vezes o “barulho”, a manifestação da nossa voz (lembre-se de “voz ativa”), é uma forma de educação, contradizendo o amigo.

 Ex. 2: o professor afirmou que Plínio havia acertado o exercício devido à sorte, mas Vando contradisse o mestre por acreditar que Plínio havia acertado o exercício graças a seus próprios méritos.

 Ex. 3: Odair é muito confuso, ele se contradiz o tempo todo.

 Gostaria que, por enquanto ao menos nas nossas conversas, vocês utilizassem o princípio da CONTRADITORIEDADE. Isso não significa que vocês tenham de trocar de ideia, mudarem suas crenças ou coisa do tipo. Quero apenas que vocês imaginem: se eu acho que tal coisa é boa, o que será que passa pela cabeça de quem acha que a mesma coisa é ruim? Isso vai ajudá-los a amadurecer bastante o raciocínio (entre parênteses: até mesmo uma pessoa mais velha como eu precisa exercitar isso de vez em quando; este é o princípio da tolerância).

 Qual a diferença básica entre essas duas histórias?

Houve quem visse na história dos porcos um quê de capitalista. Não sei. Parece-me que a diferença de bens se dá pela diferença de empenho. Afinal, eles são irmãos, teoricamente todos começaram do mesmo ponto. De modo geral, concordo com quem disse que a principal diferença é que o preguiçoso é castigado na segunda história, mas perdoado na primeira.

 Eticamente, você gosta mais de qual delas? Justifique.

Felizmente, houve divergências. Houve quem concordasse com a punição da formiga, afinal aquela cigarra preguiçosa não fez o que deveria ter feito. Se a gente sempre ajuda os vagabundos, eles nunca deixam de ser vagabundos. Por outro lado, houve quem defendesse o contrário, valendo-se – sem o saber – do princípio da contradição. De acordo com esse raciocínio, o porco da casa de tijolos é mais evoluído que a formiga, pois ele não vê seus irmãos como adversários, de quem precisa se vingar. A solidariedade é mais importante que a lição de moral. Porém, de acordo com o primeiro raciocínio, a justiça é mais importante que a benevolência.

 Comentário: em relação a esse impasse, eu não tenho uma solução, uma sentença que acabe com a discussão. AINDA BEM! Discussões, quando travadas com respeito ao intelecto e ao “oponente”, são sempre bem-vindas. As discussões saudáveis (também conhecidas como debates, conversas, diálogos…) estimulam nosso raciocínio e nosso desenvolvimento intelectual. Claro que, quando a discussão se transforma numa mera disputa para humilhar nosso interlocutor, ela perde sua essência e se torna uma mera demonstração de violência verbal gratuita.

 O direito à discordância, de preferência quando acompanhada de argumentos pertinentes, é algo que precisamos respeitar. Mas não confundamos isso com palpites preguiçosos e preconceituosos.

 Relendo o texto, noto que nosso diálogo é denso, complexo e até certo ponto difícil. Bom, se houver qualquer dúvida oriunda do vocabulário ou da falta de clareza no que eu escrevi, basta me mandar um e-mail que eu terei prazer em me explicar. Note que nesse diálogo eu trato vocês como pessoas inteligentes (que eu sei que são) que merecem uma conversa mais profunda. Afinal, a nossa preparação para a Exposição Cultural de 2011 já começou.

2 Comentários

2 pensamentos sobre “Tarefa 1: comentários.

  1. Professor, acho que a cigarra tem mais essência humana do que a formiga, que SÓ segue seus instintos e SÓ trabalha. Mas a cigarra é esteta, e acaba morrendo.

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