T3 – 06

Aluno responsável pela tarefa: MARCOS.

É possível ver, na canção “A banda”, de Chico Buarque, uma crítica à sociedade da época. Explique.

A BANDA (Chico Buarque)

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor…

OBSERVAÇÃO INICIAL:
Até agora, coloquei apenas as respostas dos alunos já devidamente revisadas. Desta vez, porém, resolvi colocar o passo-a-passo da construção intelectual da resposta. Quero que vocês percebam o esforço do Marcos para transformar sua, correta, intuição numa resposta analiticamente bem construída. Nem sempre temos empenho e modéstia o suficiente para tentarmos melhorar nossas ideias. Felizmente, o Marcão teve. Por isso, julgo que detalhar como ele conseguiu chegar aonde chegou é de extrema valia para que todos percebamos como o esfoço pode nos trazer frutos melhores do que os que temos em mãos.

1ª RESPOSTA DO ALUNO:
Como muitas outras músicas do Chico Buarque, “A Banda” faz uma crítica à ditadura militar, que impunha limites diversos à sociedade. Isso impossibilitava-os de ser felizes, de se expressarem (como vemos em vários versos da música).

1º COMENTÁRIO DO PROFESSOR:
Marcos, para validar sua resposta, cite trechos da música (será que tem mesmo alguma referência à ditadura ou será que o alvo é um pouco diferente?). Não tenha pressa, mas procure responder com mais precisão.

2ª RESPOSTA DO ALUNO:
Então, essa música se refere a uma sociedade triste, diz o quanto doloroso era viver naquela época. Mas a banda trazia a alegria, a beleza, ou seja, o que aquela sociedade não tinha. O refrão explica bem o que quero dizer :

“A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”

Entrou uma certa idéia na minha cabeça de que a banda, que seria uma banda MILITAR, tinha certa autoridade sobre as pessoas, as quais iam lá ver a banda não porque elas tinham vontade, mas sim porque eram obrigadas. Elas não eram livres, e acho que o eu lírico fala coisas assim da banda (ou seja, dos militares), porque ele tinha medo de encará-los.
Não tenho certeza disso, nem sei se essa música faz referência à ditadura militar. Mas acho que ele se referia ao sofrimento.

2º COMENTÁRIO DO PROFESSOR:
Marcos, se a banda era dos militares, por que “a minha gente sofrida despediu-se da dor para ver a banda passar”?
Na sua opinião, esta banda ajuda as pessoas a terem senso-crítico ou ela serve para alienar (ou seja: para distrair)?
Você está pertíssimo de uma resposta de alto nível.

3ª RESPOSTA DO ALUNO:
Eu acho que a banda serve somente para alienar. Por que depois que a banda passa, as coisas voltam ao normal, ninguém parou e refletiu.
Por outro lado a critica a sociedade pode estar no fato de ninguém ter refletido sobre o que a banda disse.
E as “coisas de amor” que a banda fala, são palavras contra a ditadura, mas ninguém presta atenção.
Passou pela minha cabeça uma outra ideia de que as pessoas refletiram, mas quando a banda, toda a força que tinham, foi embora, eles ficaram com medo de encarar a tristeza (ditadura).
Tudo bem?

3º COMENTÁRIO DO PROFESSOR:
Beleza, Marcão! Viu só como valeu à pena ficar pegando no seu pé?
Vou editar sua resposta e colocar no blog daqui a pouco.
Obrigado pela paciência e dedicação.
🙂

COMENTÁRIO FINAL:
Como toda obra artística de alto nível, “A banda” possibilita análises diversas. Como eu induzi uma interpretação que se focasse numa determinada crítica social, a expectativa era de que o aluno (no caso, o Marcos) não se deixasse enganar pelo ritmo alegre da canção. E ele fez bem. O trecho que ele escolheu “a minha gente sofrida despediu-se da dor”, lido solitariamente, poderia representar algo de positivo, como “existe uma música que serve de alento, uma música que serve para dar esperanças ao povo” (André, aqui está uma dica para a sua tarefa!), no entanto concordo com o Marcos quando ele diz que a ênfase é outra. Essa música alegre, que procura dar alento e esperança ao povo, funciona como mera distração, visto que quando ela acaba cada qual volta para onde estava, como se a música só servisse para ocupar o tempo, nada mais do que isso (“Mas para meu desencanto / O que era doce acabou / Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou”.)
Como vocês, povo esperto, já devem ter percebido, há uma convergência em muito das coisas que eu digo:

1 – A partir desta tarefa especificamente: nós não podemos fazer um projeto que apenas sirva para alegrar. Nosso trabalho precisa ter um senso crítico, precisa ter consciência da mensagem que queremos compartilhar;
2 – A partir daquele haikai ilustrado do Millôr (que eu comentei apenas na 59): não precisamos fazer um projeto com perfeição formal. A ênfase deve ser o conteúdo. A forma deve ser boa o suficiente para servir ao conteúdo, nem sempre será necessário que ela seja algo além disso;
3 – Ainda sobre os traços “rústicos” do Millôr: é a mesma coisa;
4 – A respeito da necessidade de vocês serem participativos durante a aula: se cultivarmos nossa inteligência, conseguimos analisar com qualidade aquilo que os outros descartam numa primeira olhada.
5 – Notem também que essas “dicas” todas não servem apenas para vocês do grupo, mas para todo mundo que participa ativamente da aula, como o Vítor Tsuda, as moças da 58, a Sandra (às vezes é possível participar ativamente sem manifestação oral, como nos comprova nosso esperto e tímido amigo).

Bom, é isso. Quem participa provavelmente está evoluindo.

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