Sobre os aforismos

Em primeiro lugar, leia o excerto abaixo, do jornalista Daniel Piza:

Somos criados à base de frases feitas. Há chavões universais e nacionais que os mais velhos repetem para os mais novos como se a mera repetição já fosse sinal de validade total e eterna. Na dúvida sobre o que pensar e dizer apela-se ao lugar-comum. E assim passamos a vida ouvindo que “A esperança é a última que morre”, “Pense duas vezes antes de agir”, “Falar é fácil”, “Nunca desista”, “O tempo é o melhor remédio”, “A primeira impressão é a que fica”; que é preciso ser humilde, resistir às tentações, seguir o coração, não discutir etc.

Observação:
Os chavões (e também as máximas, as frases-feitas e os provérbios) são uma espécie de muleta ao raciocínio. Em vez de pensarmos analiticamente, repetimos passivamente uma “ideia” que alguém formulou. Veja, o problema não é repetir a ideia de uma outra pessoa, mas repetir essa ideia sem analisá-la criteriosamente. O grande perigo é repetirmos algo que talvez não seja exatamente sábio.

Vamos aos exemplos. “A esperança é a última que morre” nos sugere que, por pior que seja a situação, devemos acreditar e esperar. Mas será mesmo? Vamos supor que você queira namorar uma determinada pessoa. Essa pessoa, porém, além de não lhe demonstrar qualquer tipo de simpatia, ainda fala mal de você pelas costas e possui hábitos que você detesta. Você fica uma semana, dois meses, três anos, esperando que essa pessoa mude. Será que em vez de esperar mais, não seria melhor você olhar à sua volta em busca de uma pessoa que de fato lhe interesse?

O grande perigo dos chavões (e também das máximas, das frase-feitas e dos provérbios) é esse tom taxativo, esse tom de verdade absoluta. A vida, porém, é bem mais complexa.

Continuemos a ler o Piza:

[…] talvez o melhor antídoto para esses provérbios moralistas ou conformistas sejam frases que os ponham em dúvida, antiprovérbios, mínimas em vez de máximas, adagas em vez de adágios. Os melhores aforismos […] são os que usam verbos como “ser” e formas como o imperativo de uma forma relativista, não com a pretensão de criar juízos definitivos sobre o comportamento humano.

Observação:
Os aforismos seriam uma espécie de antônimo dos chavões. Enquanto os chavões expressam ideias prontas, daquelas a que a gente simplesmente obedece, os aforismos têm a função de estimular o raciocínio, de desafiar o senso comum. O bom aforismo é aquele que não expressa uma verdade absoluta, o bom aforismo não oferece respostas, e sim questionamentos. Por exemplo, note que “Quem espera muitas vezes se cança” é um aforismo. O “muitas vezes” nos faz pensar que, em determinadas situações, esperar é bom, mas em outras essa mesma postura pode ser ruim. Como então eu faço para saber se devo esperar ou não? Você é que tem de descobrir, é sua responsabilidade pensar numa resposta. O aforismo não elimina as questões, mas as traz.
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