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dos instantes

– A função dos instantes é negar sua natureza fugidia
ser em vez de ter sido
permanecer em vez de perecer
mas mesmo assim eles vão.

– A função dos instantes é ser fugidio
a essência que se esvai não deixa de ser essencial
pois é nos deixando que fica em nós a sua irretratável lição.

De um aforismo, o tempo.

O tempo: a negação do eterno.
Daí, portanto, a importância de fruí-lo enquanto.
Pois, sim, o advérbio existe e restringe,
o cruel advérbio inespecificado,
o doce advérbio que nos abriga,
que nos sufoca, sendo nosso oxigênio.
O que é o tempo?

***

O eterno: a negação do tempo.
Daí, portanto, a negação da vida.
A doce e cruel ilusão de se ter quando se perde.
Tal qual o amor
racionalizado em vez de fruído,
aprisionado em vez de fluído.

O eterno
eufemismo do vazio.

Reformulando-me

Envelhecer faz bem. Engraçado, pois quinze dias atrás eu sentia justamente o contrário, agustiado com algo aqui, algo acolá. Mas ali, a meia hora de ônibus da minha casa, senti que velhice do último lustro me fez enxergar melhor o que naquela época já me estava próximo às mãos.

Por ora, sem dar crédito a quem o merece, soltarei apenas dois aforismos gerados neste exato instante – logo abaixo, deixarei um outro, mais antigo, que talvez lhe tenha parentesco inda que distante:

Até a estética sem ética possui seu êthos.

Aos símbolos como complementos ao concreto, não aos substituidores, aniquiladores do real.

***

Por trás de toda regra há um ideal, uma premissa que lhe seja a razão de ser. Às vezes, sempre em nome desse ideal, é lícito infringirmos a regra. A regra que não se rende a seu ideal, na verdade, possui outras premissas.

Aforismos de outono

O melhor modo de iludir o indivíduo é fazer com ele acredite passivamente na sua autonomia.

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A solidão de quem procura mensagens na pasta de spam.

Formas ligeiras

“A bom entendedor, meia palavra: bos-” (José Paulo Paes, Cambronniana)

Quando entrei no blog da Paula e li “Um bom diálogo só ocorre quando o interlocutor completa as reticências da“, tive de me lembrar do poeta de, enfim, duas pernas. Além dos aforismos, ele também cultivava divertidos [?]epigramas como “Para quem pediu sempre tão pouco / o nada é positivamente um exagero” (Auto-epitáfio nº 2). O gosto pela síntese, que aparece em forma e conteúdo na sua curta Poética (“conciso? com siso /prolixo? pro lixo”), ispira-nos às formas curtas, breves, ligeiras.

 Quando a Paula desviou levou os olhos ao vergel em busca de ramos para um bonsai, talvez ela tenha pensado no assunto ou sentido-lhe a presença; enfim, saber a resposta importa menos que apreciar o galho em solitária formação. Dos haikais que ela produziu, um chamou-me rapidamente a atenção pela leveza com que ela toca o tema, distorcendo o lugar-comum de nossas expectativas, levando-nos a um inusitado jogo semântico. Explicar, além disso, me parece algo como querer endireitar o tronco da pequena árvore, profanar o koan. Buscar entendê-lo é melhor que banalisar seus sentidos:

Uma vida que
de repente acaba é
sorte, não é morte.