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O paradoxo das máscaras

 

Michelle Kato

 “As pessoas afivelam uma máscara, e ao cabo de alguns anos acreditam piamente que ela é o seu verdadeiro rosto. E quando a gente lhe arranca, ficam em carne viva, doridas e desesperadas”. Apesar de datar do século passado, a frase do escritor português Miguel Torga ainda mostra-se bastante atual, uma vez que tal situação continua presente no mundo contemporâneo. O que se vê, hoje, é a cada vez mais freqüente utilização de máscaras como forma de enfrentar a dificuldade de adaptação à vida em comunidade.

      Desde a constituição das primeiras civilizações, observa-se que as aparências e a moral exercem grande importância na vida dos indivíduos que compõem uma sociedade. Conseqüência disso é o surgimento da necessidade de adequar-se a determinados padrões pré-estabelecidos de acordo com o “senso comum”. O grande problema não reside na adequação, mas no modo como ela ocorre.

     As máscaras e imagens criadas e divulgadas pelo mundo, para muitas pessoas, parecem tornar necessária a anulação do eu, do ser individual e único para que esse lugar seja ocupado por um personagem criado que seja de capaz de adaptar-se a determinadas circunstâncias e situações. É aceitável que uma pessoa aja de maneira diferente no trabalho ou na escola do que agiria se estivesse sozinha ou no ambiente familiar, contudo, o agir diferente em sociedade, muitas vezes, torna-se tão forte que passa a ser soberano. É a partir desse momento que as máscaras mostram seu lado perigoso, pois levam a perda da personalidade e condenam as pessoas que as usam a viver no mundo das falsidades por elas criado.

      Apesar de seu lado negativo, as máscaras podem, se bem utilizadas, exercer um impacto positivo. A criação de um personagem, na maioria das vezes, se baseia em uma idéia de como se gostaria que uma pessoa fosse. Nesse sentido, uma máscara pode significar um ideal e no esforço para moldá-la, o indivíduo acaba conhecendo a si mesmo, (conhecendo) os seus próprios desejos e ambições. Uma vez pronta, a máscara deixa de ser um ideal e passa ser algo real e concreto que ao invés de cobrir o rosto daquele que se empenhou em sua criação, mostra-o com orgulho e satisfação pessoal. O indivíduo abandona, então, a máscara e adquire um caráter.

      É necessário, portanto, que haja um equilíbrio na concepção do que as máscaras podem significar. Devem ser vistas como instrumentos de auxílio para a formação da personalidade e não como condição de existência. É preciso saber como utilizá-las e, principalmente, quando tirá-las, para que elas não anulem a essência de quem as usa. A máscara pode se tornar uma prisão, mas pode, também, ser a chave para a liberdade que todos têm de ser.

 

 

 

 

 

 

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Essência desnecessária

Pedro Duarte Freires

Costuma-se pressupor que tudo tem uma essência e que é um dever encontrá-la por mais árdua que a busca possa ser (parece que sempre é). Assim, a vida seria uma sucessão de batalhas épicas pela integridade dessa essência e uma cirurgia plástica, um regime ou um diligente treino para a hipertrofia seriam uma terrível derrota para esse inimigo que é o padrão, que é a moda. A partir dessas premissas cria-se a idéia que interessa discutir, de que o Brasil atualmente nega sua essência ao supervalorizar seus índices econômicos.

Antes de entender por que o Brasil estaria passando por um processo de auto-negação, cabe entender por que isso seria uma derrota. Para tanto, pouco importa se existe de fato uma essência abstrata ou não; deixemos que a Fé, guardiã dos assuntos místicos, se encarregue da dúvida. No contexto da guerra épica entre essência e mundo, não é de um conjunto de características inatas que se fala, mas sim de um conjunto de necessidades concretas a serem supridas. Quando vemos alguém recorrer à cirurgia plástica ou dobrar-se aos padrões vigentes, o que devemos perguntar é se tal manobra atende às verdadeiras necessidades (econômicas, sociais, psicológicas) do indivíduo. É fácil concluir que tais necessidades não são totalmente inatas; de fato a maior parte delas é construída e deriva de escolhas que o indivíduo faz durante sua vida. Isso, no entanto, não lhes tira o valor.

Consideremos que o Brasil seja esse indivíduo buscando no sucesso de seus índices econômicos, e na manutenção deles, a cirurgia plástica perfeita. Com essa nova imagem, ele estaria pronto para seduzir grande parte dos investidores. A verdade é que esses índices econômicos não dependem necessariamente de uma reforma agrária, da criação de um país de leitores no lugar de analfabetos funcionais ou mesmo da gestão de um hospital público de qualidade com vagas para todos – essa cirurgia plástica tem um custo alto; não sobra tempo nem dinheiro para reformar tudo que é necessário. É importante perceber que esse processo é de escolha, ou seja, de construção ativa de uma nova identidade brasileira.

Até podemos dizer que o Brasil errou ao escolher esse caminho, que o silicone da prótese econômica mais cedo ou mais tarde vai estourar, intoxicando o país. Mas não raro podemos chegar à perigosa conclusão de que o Brasil está fugindo de seus verdadeiros problemas. Ainda que pareça contraditório, os índices econômicos e os sociais fazem parte de um mesmo Brasil. Do mesmo modo, uma beleza natural ou artificial pode satisfazer uma mesma pessoa. Isso prova que o país cresce, se recria. Devemos dar tempo para que a identidade se consolide sem grandes neuroses, em vez de afogá-la em dogmas e convenções.