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Chico Xavier – um ensaio sobre a tolerância

Uma pessoa que merece minha consideração pediu-me que visse o filme do Chico Xavier. E lá fomos eu e minha esposa ao Bristol hoje no começo da tarde.

Para começar, uma chateação: a fila estava muito grande – umas quinze, vinte pessoas. Mas o pior era o descaso na bilheteria: havia apenas um casal de atendentes trabalhando, sendo que apenas um de fato atendia – a moça contava dinheiro. Como faltava menos de 5 minutos para começar o filme, pareceu-me falta de bom senso da rapariga executar este trabalho justamente naquele momento. Mas quem sou eu para criticar o que ela estava fazendo? Até pensei em considerar a necessidade emergente de ela separar notas em bolinhos em vez de atender ao público, mas tive de interromper minhas divagações quando percebi que mesmo quando ela começou a atender pouca diferença fez – o rapaz era três vezes mais rápido que ela. Quando estava quase chegando a minha vez, uma simpática funcionária avisou com considerável atraso a possibilidade de comprarmos os ingressos no andar de cima.

Ora (direis) vamos ao filme, isso que importa! Ok… apressamo-nos, nem vimos aquelas propagandas sobre a qualidade do áudio ou da imagem, chegamos à sala pouco antes de começar a sessão, mas a tempo de perceber que a tela tremia um pouco – quase imperceptível a olho nu, eu diria, se as pessoas em volta, quase todas, não reclamassem do mesmo problema.

Enfim, com um ou dois parágrafos de atraso, espero enfim falar do filme propriamente dito. Não há como negar que eu estava muito ansioso para saber como o diretor (Daniel Filho) exporia um personagem, um assunto tão polêmico. Meu receio era ver uma palhaçada como aquela em Avatar, quando a moribunda doutora, símbolo do cetismo científico, vê a deusa da floresta e joga na cara de todos os ateus como estes são paranoicos em não acreditar nas forças espirituais. Não tenho paciência para obras moralistas, que tentam impor sua crença de forma imperativa como se o público fosse imbecil. Para minha felicidade, porém, o filme brasileiro mostrou-se muito mais inteligente e dialético que o americano.

Chico Xavier é retratado desde o início como uma pessoa tolerante, que busca respostas para harmonizar o convívio humano. A amizade dele com o padre Scarzelo (Pedro Paulo Rangel) é tocante tanto no plano material (as broncas afetivas, o abraço de despedida) quanto ideológico (a tolerância e a compreensão, de ambas as partes, de que a religião é menos importante do que aquilo a que ela etimologicamente nos liga). Sua família é apresentada tanto pelos defeitos (a violenta madrinha, o ganancioso pai) quanto pelas virtudes (o amor do irmão e o afeto da madrasta), o que lhe dá um caráter mais humano e verdadeiro do que se ela fosse animalizada ou idealizada. E, falando em defeitos, o próprio Chico não escapa a eles: era vaidoso a ponto de usar peruca e sentia medo da morte (o episódio do avião é engraçadíssimo). Mas, claro, suas virtudes é que são ressaltadas.

Surpreendeu-me a coragem de Daniel Filho em trazer às telas até mesmo uma insinuação à pretensa homossexualidade do biografado. Logo quando o programa de TV começa, o assistente de edição (será isso mesmo?) parodia uma antiga marchinha carnavalesca: “Chico Xavier, será que ele é?”. Posso estar imaginando coisas, mas quando o famoso médium pergunta “seria o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas?” , parece-me sugerir um nível de tolerância raramente encontrado nos discursos de outros líderes religiosos. Numa sociedade machista como a nossa, em que basta alguém respeitar os gays para ser visto como um, tal postura é digna de admiração. O mesmo não se pode dizer do roqueiro-carioca-amigo-do-Jô que criou uma música cujo refrão é nada mais nada menos que uma invasão à intimidade de Chico Xavier e de outra personalidade brasileira – a alguém que se pretende tão rebelde, sua postura lembra um Big Brother às avessas.

Não é só no aspecto ideológico, digamos assim, que o filme me agradou. Duas ou três imagens, especialmente, alegraram minhas retinas. A primeira quando o Chico-criança corre em direção à igreja: o sol, a 45º, projeta uma sombra que a grua focaliza nitidamente, como se fosse um duplo do garoto correndo a seu lado. A segunda é quando a câmera desce, e pelas frestas do telhado da casa vemos a luz laranja da vela que iluminava a leitura do menino. A cena aérea da casa surgindo atrás do morro, a corrida por entre as árvores, talvez sejam outras a serem lembradas. A única coisa que me incomodou foi o grão grosso de muitas cenas que fez a imagem se assimilar à de um DVD pirata (mas talvez isso tenha sido um problema da sala em que eu estava, visto que – como disse lá atrás – a tela tremia).

Sim, o filme me agradou. E você, leitor, desde que você não veja o espiritismo como uma seita demoníaca, talvez goste também. Só não recomendo ir à mesma sala que eu fui, a não ser que você seja super-dotado em tolerância.

***

P.S.: O único momento em que eu temi uma “derrapada” foi quando um espírito disse que ele, Chico, era a pessoa mais especial do mundo – tive de aceitar, afinal era sua mãe que lhe falava (e você sabe como são as mães…).

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Sobre “Benjamin Button”

 

“A vida é breve” – Há mais de dois mil anos, Hipócrates já havia percebido o óbvio: um dia deixaremos de existir. Nosso corpo, nossos gestos, nosso olhar, tudo aquilo que hoje é nosso, amanhã só restará em retratos e lembranças. Estamos sempre ao alcance da ameaçadora sombra da morte; não há o que fazer. “No fim, todos vamos para o mesmo lugar, apenas pegamos caminhos diferentes para chegar lá” ouve-se em certo momento de O curioso caso de Benjamin Button, este sutil filme sobre os caminhos da vida.

 

A sinopse é simples: Benjamin é um sujeito que nasce velho e, à medida que o tempo passa, começa a rejuvenescer. Com esse esquete, seria possível fazer uma comédia tosca como De repente 30 e coisa do tipo, mas felizmente não foi isso que aconteceu. O filme começa em meados de 2005 num hospital de New Orleans, onde uma velha senhora (Dayse) sabe estar vivendo seus últimos momentos. A data e o lugar não foram escolhidos por acaso; há um evidente paralelismo semântico: enquanto Dayse aguarda a iminência da morte, todos os demais vivem a expectativa do Katrina, furacão que destruiu parte da cidade naquela época – seria a primeira de muitas associações envolvendo morte e mar.

 

A personificação, por si só, diriam alguns, é mero enfeite, chavão, arremedo de poesia. De fato assim seria se a metáfora se perdesse do todo, o que felizmente não acontece. É importante lembrar que a personificação dá corpo a substantivos abstratos: os ventos são a respiração ofegante da morte; a umidade, sua pesada sombra. Evidência flagrante de que a analogia não fora escolhida ao acaso se encontra na cena seguinte, em que se narra a história de um relojoeiro cego que, desolado com a morte do filho na Primeira Guerra Mundial, constrói um relógio cujos ponteiros caminham no sentido anti-horário – símbolo não só de sua revolta contra a violência desumana das batalhas, mas também de seu lamento diante da implacável e irrevogável força do tempo. Tendo perdido seu norte, desorientado em seus ponteiros, Mr. Cake, o relojoeiro, aponta a bússola para o grande e misterioso mar, onde desaparece.

 

A vida é breve, vamos todos para o mesmo lugar. A cabeça da criança envelhecida, a quem desde sempre foi dito que viveria pouco, deveria se inundar do mais profundo e pesado pessimismo. Se ela tivesse lido Sêneca, este lhe diria que “não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela”.[i] Como Sêneca não aparece no filme, é com outras pessoas que Benjamin começa a aprender a lição. Com a velha de cujo nome ele não se recorda, aprendeu que, mais importante que tocar bem o piano, é sentir a música que está tocando; com Mr. Oti, um pigmeu africano que entre inúmeras outras aventuras se fingia macaco assustando crianças brancas num zoológico, aprendeu que o mundo não se restringia à casa de velhos em que morava; com o capitão Mike, ele aprendeu que deveria ir em busca de seus sonhos. Em suma, o recado do pensador romano, de um jeito ou de outro, o alcançou; Benjamin percebeu que, sendo a vida incerta, o melhor seria saboreá-la da melhor maneira possível.

 

Não cabe aqui detalhar o enredo do filme, no entanto alguns pormenores merecem destaque. Capitão Mike, por exemplo, tem tatuado no peito a imagem de um beija-flor. O filme nos entrega de lambuja um significado importante: de acordo com o homem do mar, o pássaro morre assim que se vê impedido de bater suas asas, simbolizando a importância da liberdade à nossa natureza. No entanto, não é só isso. As pequenas asas daquele pássaro minúsculo descrevem no ar o oito deitado; uma pequena metonímia ecoando a mensagem: nos mínimos detalhes, podemos encontrar o infinito. Ainda que soe a breguice, o problema é atual e constante: quantos de nós não deixamos de lado o mundo real e concreto para nos evadirmos num devaneio que nada de proveitoso nos traz? Nas palavras do poeta Bruno Tolentino “o mal do pensamento é abandonar o efêmero, trocá-lo pelos ossos do Ideal”.[ii] Como bem notou o crítico Luiz Carlos Merten, a famosa cena em que Benjamin e Dayse se miram no espelho, no exato e único momento em que ambos estão com a mesma idade, também remete à importância da concretude, de curtir o momento presente, sem que as abstrações (sejam disfarçadas de saudades, sejam disfarçadas de planejamento) nos raptem.

 

Estaríamos aqui no segundo terço do filme. Muito mais poderia ser dito, mas – ora bolas! – deixe este texto de lado e vá ao cinema. Nenhum manual substitui o próprio paladar.


[i] Sobre a Brevidade da Vida (tradução de Lúcia Sá Rebelo). São Paulo: L&PM, p.26.

[ii] O Mundo como Idéia. São Paulo: Globo, p. 393:

Porque pertence ao instinto natural

desejar, cortejar o passageiro,

o coração em busca do real

é como um perdigueiro atrás do cheiro

 

fugitivo da vida, um perdigueiro

imaginando a presa. Mas o mal

do pensamento é abandonar o efêmero,

trocá-lo pelos ossos do Ideal,

 

 e o pobre perdigueiro pouco a pouco

desiste da aventura da caçada

e desenterra um ossuário. Rouco

 

de ladrar noite adentro contra o nada,

no coração há um perdigueiro louco:

o que Uccello soltou contra a alvorada.

 

Visões de Liberdade

Ensaio do filme: Sociedade dos poetas mortos[1]

Relendo este antigo ensaio, noto nele a repetição de certas estruturas lógicas. Por um lado isso evidencia pressa e descuido, por outro a tentativa de esmiuçar um raciocínio coerente. Não importa. A essência permanecerá a mesma. [04/06/08]

John Keating 

Não é raro vermos o professor John Keating, protagonistado filme Sociedade dos Poetas Mortos, associado a um louvável modelo de educador: aquele que possui bagagem intelectual de respeito e, mesmo assim, não se furta a estimular a capacidade individual de seus alunos. Talvez tenha sido desse modo que sua imagem tenha se solidificado de 1989, ano da produção do filme, para . O que é certo, porém, é que essa imagem– idealizada, sem dúvida alguma – acaba nos ofuscando um grave problema da conduta didática, para não dizer ideológica, do personagem interpretado por Robin Williams.

O filme retrata a passagem do professor John Keating pela academia Welton, uma escola americana de elite, especializada em preparar seus alunos para as melhores universidades do país. O ambiente é propositalmente repressor e autoritário, com cheiro de escola velha e ultrapassada: o professor de ciências exige um sem-número de relatórios e trabalhos a seus alunos, o de latim insiste numa passiva tarefa de memorização (para não dizer decoreba), o de geometria mostra-se intolerantetodos, todos eles parecem ser mais dotados de poder que de conhecimento. Um prenúncio dessa realidade se dá logo na primeira cena do filme, quando vemos o detalhe de um quadro: entre dois rapazes (um loiro, o outro ruivo) que miram atentamente um ponto fixo fora do alcance de visão do telespectador um outro menino: cabelos escuros, olhos fechados, cabeça baixa. Até mesmo o cortede cabelo acentua seu desânimo: enquanto os outros dois portam um topete que lhes certo ar de otimismo e altivez, o rapaz do meio tem a franja caída na testa, misto de cansaço e submissão.

A vinda de Keating produzirá um grande contraste na vida daquelas jovens ovelhas. A calma e a segurança com que conduz suas aulas nada convencionais conquista a simpatia da maioria de seus alunos. Conquistar é o verbo. O desprendimento da sua didática, mais do que transmitida, lhes é imposta: desde o arrancar as páginas teóricas de um livro de poesia até a autodenominação que cria para atingir uma maior intimidade com os rapazes (“ó, Capitão, ó, meu capitão”), o que o professor estimula é mais a incompreensão que a liberdade.

O erro de Keating é fazer os alunos acreditarem que o acesso à cultura é antes uma submissão ao mundo dos adultos do que uma forma de amadurecimento. Ao invés disso ele poderia lhes proporcionar condições para questionarem concretamente os excessos de um sistema educacional conservador que mal compreende o que conserva; isso sim seria uma postura didática louvável. O problema da Welton, afinal, está menos no que ensina e mais no modo como o faz. Que a metodologia do doutor J. Evans Pritchard (“Understand the poetry”) seja contestável não dúvida. O grande problema é que ela não é contestada, mas sim negada, abolida sem mais nem menos, sem argumentos, sem tentar fazer os alunos compreenderem os motivos que levam Keating a desprezá-la. Ou seja, a primeira lição do “professorse baseia não no elogio da liberdade individual, mas sim na apologia de um egocentrismo obtuso e enganador.

A tática persuasiva é eficiente, não dúvida alguma. Com a promessa de transformar os alunos em livres pensadores (o que poderia ser esboçado, insisto, com um ensino que lhes fornecesse uma maior envergadura cultural), Keating acaba estimulando neles um espírito fechado a “regrasque, equivocadamente, crê pertencerem menos a toda uma cultura ocidental do que à escola em que leciona. Ou seja, ao contrário do que parece numa primeira análise, o que o professor incita é um misto de conservadorismo e conformidade. Conservadorismo por não incitar os alunos ao desafio do conhecimento, do verdadeiramente novopara eles; conformidade por fazê-los acreditar que não mal nenhum nisso. Este problema, como você deve ter notado, permanece atual.

Se por um lado a escola falha em não dar vida ao ensino, por outro Keating falha em crer que o problema seja o conteúdo. É claro que não foram as aulas de Literatura que levaram Neil Perry, seu aluno, ao suicídio(o pretenso clímax da história), mas certamente serviram de estímulo a muitos dos atos irresponsáveis de Charlie Dalton (o aluno que foi expulso). Ironicamente, é ao repreender Charlie que o professor sua melhor lição (com um atraso injustificável, diga-se): “sugar a essência da vida não significa afogar-se nela […] há hora para atrever-se e hora para ter cuidado. O sábio sabe escolher a hora apropriada”. Essa frase caberia muito bem na fala do verdadeiro educador. Esse, aliás, seria o recado de maturidade de que os alunos mais poderiam tirar proveito; saber que mais importante que uma simples contestação é arquitetar modos para que esta possa se realizar.

    Novembro de 2005.

 




[1]Sociedadedos poetasmortos(EUA, 1989)

 

Direção: Peter Weir

Produção: Steven Haft

Elenco: Robin Williams (John Keating), Robert Sean Leonard (Neil Perry), Ethan Hawke (Todd Anderson), Josh Charles(Knox Overstreet), Gale Hansen (CharlesDalton).