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Sobre a dignidade

 Estou pensando em Como era verde o meu vale e No tempo das diligências , em como John Ford sabia dar dignidade a seus personagens. Os indivíduos todos daquela família galesa, sem exceção, revelam seus defeitos e suas virtudes ; às vezes mais até do que as pessoas do mundo real, eles expressam vida, ânimo. Os filhos socialistas discutem com o pai conservador, mas tanto este como aqueles desejam um mundo mais justo, ideal este sempre colocado acima de suas ocasionais ideologias.

No famoso western, bandidos, malandros e prostitutas também são vistos como seres passíveis de virtudes. Talvez vejam aqui uma filosofia determinista – o meio determina o homem – mas eu vejo algo mais sutil: o meio interfere no homem, mas não é isto que o determina. Do mesmo modo que eu não vejo com bons olhos a ideia de que a genética determine o caráter, me parece simplista demais achar que o indivíduo seja um mero ecoar do espaço em que ele reside. Talvez por isso, a relação afetiva que eu tenho com esses dois filmes seja-me tão marcante.

A dignidade merece elogios. Pensei nisso particularmente nos últimos dias, quando ouvi uma aluna dizer que apenas passar de ano já é o suficiente e quando vi outra comemorando um 5,3. Por outro lado, no mesmo ambiente, vi uma garota de dez anos dizendo que ficar de recuperação não é tão ruim assim, afinal desse modo ela poderá rever a matéria, corrigindo os erros cometidos. E também foi bastante agradável ser abordado por um jovem – que também havia tirado 5,3 – em busca de dicas para poder melhorar o desempenho.

 O desejo de evolução, a busca por novos limites a serem superados, é uma excelente conduta. Estou certo de que esses jovens também apreciariam os filmes do Ford.

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P.S.: E O jovem Lincoln, a dignidade do protagonista mostra-se mais caricatural, mais simbólica que verdadeira. É o defeito deste filme pelo qual nutro certa simpatia, mas nem de longe paixão.

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Simples, sem ser simplista

Li que uma das virtudes de Avatar seria a simplicidade com que o filme trata temas importantes como degradação ambiental, respeito à natureza, ética científica etc, tornando-o mais acessível ao grande público. Concordo com quase tudo isso: de fato James Cameron fez um filme simplista e facilitador, atingindo assim um grande público (e coincidentemente uma grande bilheteria), sem, no entanto, entrar nos complicados meandros argumentativos que poderiam incomodar o espectador (com S mesmo) mais inculto. Só não concordo que isso seja uma virtude.

 Por outro lado, isso não significa que um grande filme tenha de ser obscuro e hermético (“A clareza é a cortesia do filósofo”, Goethe). Na última semana vi dois filmes de John Ford que ilustram muito bem esta tese.

 O enredo de Como era verde o meu vale (How green was my valley), de 1939, é simples. Através das memórias infanto-juvenis do sexagenário narrador, somos levados a uma pequena cidade mineradora do País de Gales, onde assistimos a diversos episódios em torno de sua família: o trabalho na mina de carvão e o pó que se impregna para sempre na pele (uma imagem daquelas que nos acompanham a vida toda), o casamento do irmão e a descoberta ingênua do sexo oposto, a exploração do proprietário e a tentativa de greve, a chegada de um jovem pastor e o affair entre ele e a irmã, que posteriormente se vê obrigada a casar com o filho do dono da mina…

 Por meio desses e de outros episódios, vamos conhecendo os familiares. Os pais são apresentados do modo mais caricato possível: ele, o cérebro, ela, o coração. No entanto, não se vê o esquema machista de um BlackBoard Jungle que foi feito década e meia depois! Ainda que ele seja o cérebro, nem sempre suas decisões são movidas pela razão e nem tudo que ela pensa é meramente emotivo e passional. Melhor assim, as pessoas de verdade são complexas e imperfeitas.

 Do mesmo modo, articula-se o debate entre pai e filhos, estes influenciados por um pensamento comunista, de luta em prol do oprimido; aquele conservador, crente em valores antigos como dignidade e correção. A briga familiar só se resolve quando o pastor recebe a palavra e propõe aos trabalhadores uma luta – argumentativa e honesta – pelos seus direitos. Eis a síntese! John Ford recusa a hipocrisia conservadora de muitos religiosos, sem abrir mão dos princípios cristãos, John Ford recusa a violência esquerdista, sem abrir mão dos princípios de justiça e respeito ao indivíduo. Acho que li em algum lugar que John Ford (ou teria sido Clint Eastwood?) seria o mais democrata dos republicanos. Bobagem (não importa a quem a frase se dirige). Não dá para caracterizá-lo[s] com um adjetivo simplista ou binário. Ainda bem.

 Quem vir o filme perceberá que à medida que há um distanciamento entre as personagens e o narrador, elas são mais estereotipadas. Longe de ser um defeito, trata-se da coisa mais sensata do mundo. Como o garoto poderia recriar profundamente a psicologia de quem ele mal conheceu? Os estranhos sempre nos são uma caricatura, oras!

 Falarei pouco de A mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln), 1941. Trata-se de outro filme que nos conquista pelo afeto (seria possível não se apaixonar pela atmosfera fordiana?). Pode-se dizer que ele seja esquemático, previsível, mas ao contrário de Avatar parece-me que ele defende ideais absolutos, o que tornaria o didatismo não só perdoável como digno de elogio – lembremos de que o filme foi feito sete décadas atrás.

 Luiz Carlos Merten, num livro que eu não canso de reler, afirma que o diretor se preocupa menos com a verdade histórica do que com o papel simbólico que a história pode desempenhar. Ford seria então um criador de mitos, um Homero. Por isso talvez sua grande capacidade de criar imagens que nos ficam no coração sem nos ofender o cérebro. Simples assim.

Adjetivações

Por ocasião de uma brincadeira que fiz sobre uma propaganda da revista Veja, um leitor apressado chamou-me de petista. Bom, se ele fosse menos preguiçoso, teria lido melhor o blog e visto textos em que eu elogio filmes que de modo algum espelham o viés sociológico tão querido das esquerdas (caso de Sherlock Holmes e Benjamin Button) ou outros em que eu critico abertamente a massificação perigosamente disfarçada de coletivismo (caso de A onda e Ninguém escreve ao coronel) ou ainda um em que eu repudio a propaganda homofóbica da Marta. Mas nem era preciso tanto esforço. Se ele fosse honesto, teria visto no mesmo post elogios a dois articulistas da mesma revista, o que evidencia que a crítica era específica, e não genérica como ele conseguiu entender.

Já falei demais do Moacir, coitado. Na verdade, ele, como indivíduo, caso o seja, pouco me interessa. Mas convém discorrer sobre sua curiosa postura. É típico das cabeças que não conseguem articular um raciocínio satisfatório, valer-se de adjetivações simplistas, estereótipos sem os quais não se consegue fingir um mínimo de inteligência. Por isso, mas não só por isso, é interessante ver e rever alguns filmes de John Ford, como As vinhas da ira ou Como era verde o meu vale. Pode-se discutir a noite toda sobre a postura ideológica do diretor: trata-se de um cristão ou de um comunista? – perguntam-se os escravos dos adjetivos soltos. Ora, em ambos os filmes, o que vemos é um forte senso ético, que não se submete nem à hipocrisia de muitos cristãos nem às falsas promessas de muitos – todos? – socialistas. Querer reduzir o caráter de um homem a um adjetivo que esteja na moda é furtar-se da condição de ser racional.

Ao contrário do que já saiu publicado na Veja, existe sim muita diferença entre ter cultura e apenas disfarçar a sujeira com verniz, ainda que pessoas como o Moacir não consigam perceber.