Arquivo de Tag | crônica

O presente

por Melissa Kimie (7ºEF)

     Bato a porta do quarto angustiada. Tive de acordar de madrugada para estudar para a prova de hoje, assisti a cinco longas aulas das matérias mais difíceis e enfrentei dois ônibus lotados. Tento relaxar fazendo o que minha mãe sempre me diz para fazer quando começo a ficar estressada; penso em como tenho sorte em ter saúde, uma família estruturada e um bom lar. Olho no calendário pendurado na parede; tenho um trabalho para sexta e… essa não! Esse domingo é Dia das Mãs!

    Me esqueci completamente! Abro a minha mochila desajeitadamente, para encontrar minha carteira quase vazia. Como vou fazr para comprar um presente se não tenho dinheiro? Essa pergunta ecoa em minha cabeça enquanto vou me acalmando. O dinheiro… “O dinheiro move o mundo”. O dinheiro foi criado para facilitar a vida das pessoas (transações financeiras, trocas…), mas junto com essa praticidade toda o dinheiro trouxe ganância, inveja, vaidades… Deixamos um pedaço de papel tomar conta do mundo. Talvez, na verdade, estejamos regredindo. Enquanto a ciência e nossos aparelhos eletrônicos progridem, nós retrocedemos. Nos preocupamos com coisas cada vez mais fúteis, há cada vez mais preocupação com a aparência, status… Parece que invertemos os valores. O dinheiro não é o mais importante. Ele pode muito bem comprar alegrias passageiras, mas não a felicidade.

    Ainda não sei o que exatamente eu vou comprar para minha mãe… Peraí! Já sei! Acho que vou fazer um bolo para ela. Um bolo caseiro, recheado de carinhos e afagos. É isso, vamos reunir a família. Vai ser um almoço muito especial!

Anúncios

Selênica caminhada

Eis a verdade, aquele finíssimo arco luminoso, de um bege meio sujo, até que tinha seu charme. Nada me parecia mais poético e dionisíaco do que ficar deitado no quintal, vislumbrando por entre os balançantes galhos das laranjeiras, aquela solitária e distante esfera cujo brilho sequer era seu. Quer metáfora melhor para o adolescente que recebia palmas pela estulta obediência, enquanto sua escondida sagacidade permanecia, assim, escondida? Cacete! Como a lua me deixa brega… Tiro os olhos dela e miro o garçom. Mais fritas?; a dieta não permite, mas deixo vir o Johnny para afagar o hálito.

Se não houvesse esses prédios, a Bela Vista até faria jus ao nome. Justamente ali, onde agora desce a Nove de Julho e seu trânsito passional, haveria um… Não, se eu continuar com essas divagações, o Gílson vai pegar no meu pé, preciso encontrar algo para ver – Isso: ver, não imaginar! O garçom com sua baby-look marrom? Não, o pessoal já está achando que eu sou viado, melhor me concentrar numa mulher – ai, que menina ridícula olhando para mim! Hum… aquela senhora é bem atraente – Puts! Ferrou, agora minha esposa que vai ficar brava por eu estar aqui xavecando essas vagabundas. Garçom, faz o Johnny pra viagem, ok?

O jeito era buscar assunto em outras bandas; aquele boteco cheio de catraca-livre até renderia uma boa crônica, mas deixemo-lo ali, com suas enferrujadas cadeiras dobráveis de metal, seus guardanapos empoeirados e sua controversa freguesia – levemos apenas o Johnny paraguaio que após a segunda tragada encontrará o bolor veranista da sarjeta. A Frei Caneca nos aguarda.

Ainda no bar, porém, calculo como sair dali, da Pamplona, em busca de um bar menos insalubre, lá na região colorida. Engraçado é que, depois dessa reviravolta toda, eu volte a virar meus olhos para aquela lua finíssima, quase ausente. Se não me engano, e certamente não me engano, a lua minguante sempre aponta para onde o Sol vai nascer, ou seja, para o leste. Como a Augusta fica a oeste da Pamplona, basta seguir o sentido oposto ao sugerido pela lua, simples assim; em cinco ou dez minutos estarei num barzinho bacana ou na fila do Espaço Unibanco. Seja como for, até lá, convém prestar atenção na caminhada, vai que rola uma crônica e o Gílson liberta um sorriso por trás do bigode. Aquele emaranhado de cabos, caindo de poste em poste, por exemplo, sugere a esperança que se renova todas as manhãs para ser corroída ao longo do dia. As semanas, os meses, inda que não a esfolem, deixam nela uma gordurosa camada de poeira que se confunde com a própria epiderme; aparência e conteúdo…

Epa! Controle-se, Baby!, pare de viajar e volte os olhos à rua, ‘tá vendo? Quase que leva um tombo! Pois é, a calçada parecia uma escada ensandecida, cujos degraus não sabiam se tombavam ou se erguiam, se gingavam para a direita ou para a esquerda. Com um pouco de esforço consegui driblá-los, mas quase que torci o tornozelo. Maldita desatenção! Ou talvez tenha sido culpa do Johnny, talvez do Gílson, que… caceta! Lá vou eu novamente me perdendo em devaneios. Chega, agora poste é poste, descida é descida, viela é viela, beco é beco… beco? Onde raios fui me meter? Dez minutos de descida e nada de Augusta, Frei Caneca ou Peixoto Gomide! Só essa ladeira pançuda e abandonada que se construiu às minhas costas. Evidente que entrara em alguma rua por engano, caso contrário não estaria aqui, mas que erro besta eu fui cometer para estar… onde será que estou? Ali, na frente, atrás da montanha de prédios tem uma torre que eu me lembro de ter visto… no início da Paulista? Então pronto: mistério resolvido, eu devia estar mais ou menos atrás do prédio da Gazeta, fui exatamente na direção contrária à qual eu tinha de ir. Eu teria ficado naquela rua pensando nos porquês, mas o barulho de passos atrás de mim fez com que eu descobrisse uma curva onde julgava haver o beco, cambaleando adentrei-me a um “bosteco” após quase destroncar os joelhos numa corrida cega morro abaixo. Longe de mim ser um covarde, mas é que bateu uma sede daquelas, desejava a seco o chá gelado de laranja com gengibre, aquele com zero calorias. Aqui não tem essas coisas de viado, não! Então traz o Johnny.

Com o Johnnynas mãos, as costas no balcão, fantasiava uma pose de quem estava à vontade no lugar. Mas quem reparasse direito notaria na hora a mão desmunhecada na cintura e as geladas gotas de suor abandonadas na testa. É, chapa, em que canto de bunda fui me meter? Atrás de mim, o garçom percebia tudo sem nada se importar; na mesa vermelha à minha esquerda, um inexplicável casal hétero trocava sorrisos sacanas quando já deveria ter se deixado levar pelo desejo obsceno que ambos tentavam esconder; aconchegada em trapos do outro lado da rua, debaixo de uma sombra, uma criatura parecia dormir. Mas os passos que é bom nem deram sinal de aparecer. Dou uma tragada, a ardência amarelada da bebida veio desacompanhada do sabor fumarento que eu, iludidamente, cogitava encontrar. Tacar o copo no chão, reclamar com o garçom, pedir uma copo d’água com açúcar? Mas que nada! O esquema era descobrir onde era a saída para dar o fora dali, discretamente, sem despertar a atenção dos malacos que vislumbrei no escuro do bar assim que pedi uma segunda dose.

– Não tenho troco para tudo isso! – disse-me baixinho o garçom, como se insinuasse os maus lençóis em que fui me abrigar. Talvez, ele se divertisse comigo, pois pegou a nota de vinte e se deslocou para o banheiro, deixando-me ali, só com meus pensamentos.

Bom, é isso. Dane-se a crônica! Ficar olhando esse povo só me traz apreensão, esse azulejo lavado com água suja quase não se aguenta na parede, dá até para ver uns lances de tijolos ali perto do teto… Para, para com isso! Você aqui perdido, no meio de um monte de notívagos que jamais viram a luz do dia ou a umidade de um banho, vai ficar se preocupando em descrever a cena? Até o Gílson me repreenderia. (Não, nesses casos, é preferível correr a observar!) Mas correr para onde? Essa lua nó cega que dois dias atrás sequer estava no céu veio aparecer só para me…

É isso, bugalho! A lua que me iludiu não era minguante, mas crescente. Logo, ela estava apontando não para leste, mas para oeste. Consequentemente, eu, seguindo o caminho oposto… Notei que o barman me olhada com se eu fosse um almofadinha soltando a franga e contive minha animação. Causa encontrada, faltava buscar o desfecho. Como eu faria para escapulir dali, daquele quarteirão pútreo? Não era preciso ser muito esperto para temer um furto ou mesmo um roubo ou, ai, ai…, parece que a moda do sequestro voltou. Sim, os camaradas pegam o um sujeito qualquer que nem eu e conseguem, à custa de posteriores dívidas bancárias, uns cinco, oito mil da família. Minha esposa, chateada por eu tê-la deixado em casa, assumiria a bronca? Meus pais, a quem não honro com uma ligação há três meses, mandariam algo além das condolências? Melhor não arriscar. Saio do bosteco, pego o caminho de volta e, com a coragem de quem não tem nada a perder, encaro o morro – não sem antes abandonar meu dinheiro e todos meus documentos numa faminta e escura boca-de-lobo. Agora sim, sentia-me protegido. Mas chega de papo, oito quilômetros me aguardavam até chegar em casa – o Gílson que me perdoe, mas não tive ânimo para anotar nada no meio do caminho.

 

Fios noturnos

No teto, os adesivos fosforescentes simulavam um delirante céu onde estrelas, lua e sol, dispostos de modo a ofender qualquer princípio de cosmologia, brilhavam ao mesmo tempo. Mesmo assim, era bonito. Não o que eram, mas o que simbolizavam: o carinho e a dedicação que os puseram lá, dando um ar coloquial e rústico, inda que descabidos, à nossa aconchegante alcova. Ao menos, a leve cortina branca que descia quase do teto até quase o chão, impulsionada pelo zéfiro noturno, parecia dar formas femininas a esse esquecido deus grego. Para que tudo isso? Essa decoração programada para nos atrair ao mundo de Morfeu, de tanto racionalizada, mais desperta nossa atenção do que… e esse guarda-roupa que até semana passada era coberto por um irrelevante marrom? Lixado, descolorido, pintado de branco, coberto de verniz, adquiriu manchas amareladas que lembrariam antigas pinturas japonesas, mas – que ela não me escute – lembram apenas um velho muro perdendo as escamas. Bom, felizmente, ela está dormindo, assim tenho um pouco de paz. Se há coisa pior do que ficar encarando esse tresloucado painel de absurdos, só mesmo enfrentar a minuciosa descrição do cotidiano a partir do ponto de vista de uma mulher que já conquistou seu marido. Digamos que seja uma vingança contra Adão, pois quando Eva lhe foi apresentada teve de ouvir tantas histórias sem pé nem cabeça a respeito da criação das coisas e dos seres que não é nenhum disparate saber que ela preferiu aprender a língua dos ofídios. Tá certo, tá certo… tenho de reconhecer que nunca vemos a própria olheira e que só o peido dos outros nos incomoda. Na medida em que…

Calma! Mas que coisa é essa? De onde vem esse sopro sibilino? Mais do que um respirar, menos do que um sussurro. Não é da janela que esvoaça a cortina, lançando sombras macabras no guarda-roupa descolorido como lápides de cemitério; não é da minha esposa cujas orelhas ardiam agora há pouco; não é do enorme e macio gato pedrês que se aconchegou entre nós. Nem a esposa, nem o gato, nem o vento, parecem perceber o fio sonoro que se estende pelo quarto. Quem dera fosse o bule de chá; camomila cairia bem numa hora dessas. Felizmente, porém, o barulho não vinha da cozinha; assim eu poderia permanecer na cama.

Cogitei estar sonhando. Evidente que aquelas formas sombrias que a cortina imprimia no guarda-roupa não poderiam ser literais; julgo mesmo que o amarelado parecia escorrer lentamente, símbolos da evanescida consciência. Enfim olhei para o teto, prova definitiva de que, enfim, estava onde queria e deveria estar, mas nada nele parecia confirmar minha hipótese. Melhor assim, pois se há algo pior do que a insônia, só o pesadelo, mas se há algo pior do que um sonho ruim é vigília infrutífera. Até parecia que tudo isso fosse mesmo um pesadelo, daqueles que nos dão e nos tiram pistas, que sugerem e renegam, insistindo no vai e vem típico das ilusões. Confesso que vez ou outra tentei flutuar, partir-me em dois ou mesmo fundir-me ao travesseiro, mas não adiantou; a única coisa concreta era, veja só, o sopro insistente que parecia nascer debaixo da cama.

Ciente de que ele era real, tinha duas alternativas: esticar-me para o lado e inquirir ao escuro o que lá havia ou esticar-me para dentro e inquirir à imaginação o que poderia ser – nem passou pela minha cabeça acordar minha esposa e ficar exposto ao seu entusiasmo em me contar seus sonhos. Pois bem, passei as costas da mão esquerda na testa, senti um princípio de suor e reparei que já se passavam das duas – e o barulho, tão insistente, murchava, sumia, deixando-me a sós comigo mesmo; pior companhia não há. Basta! Girei para o lado esquerdo, desci – quase caindo – da cama e tateei o breu até derrubar algo líquido que não escorreu. Quanto de tempo eu teria economizado nessa empreitada se tivesse me atentado a uma pequena garrafa d’água parcamente fechada, de onde escorriam finos fios de ar? Tão finos quantos os resistentes e fugazes fios que tecem nossa farta imaginação.

A flor escondida

Hoje cedo deixei minha esposa dormindo e fui ao mercado da rua de trás. Já estava com o cestinho cheio de tudo aquilo que eu precisava ou desejava, mas mesmo assim continuava caminhando pelas prateleiras, vislumbrando aquelas cores e símbolos que tanto nos hipnotizam quando vamos às compras. Foi assim, agachado, mirando as latas de atum, que fui invadido por um cheiro suave e delicado de jasmim que remetia a algo distante, esquecido em algum fundo da memória. Quis saber de onde vinha a fragrância, levantei-me e contornei a prateleira lentamente – com medo de espantar o perfume? – encontrando uma pequena senhora olhando sei lá o quê do departamento de limpeza. Cogitei perguntar-lhe o nome do perfume, mas hesitei.

 

Sabendo então de onde vinha, tentei compreender aonde aquele cheiro me levava. Taubaté, onde vivi 18 meses, 18 anos atrás? Talvez. A primeira imagem que me veio à cabeça é daquele shopping a que fui duas ou três vezes, sempre com medo de ser assaltado ao atravessar o viaduto. Mas que boa lembrança eu guardo daquele lugar? Lembro-me de ter ido lá com os colegas de pensão, sem nunca conseguir concretizar os sonhos das vitrines ou os desejos dos hormônios. Mas o mais curioso é que eu não tenho nenhuma lembrança olfativa do local. O olfato é que levou até lá.

 

Continuei seguindo a velhinha, fingindo interesse pelos sucos em pó, chás em lata, cervejas importadas. Ela foi conversar com o açougueiro, eu fui investigar os congelados. Tentei identificar um ou outro aroma, mas o ambiente não era propício. 

 

Teve uma vez, em que estava no shopping com meus pais, numa das poucas vezes em que eles puderam me visitar em Taubaté. Estávamos flanando, olhando zoologicamente as vitrines, com o afastamento habitual dos adolescentes quando caminham com seus pais, quando noto uma garota cruzando meu caminho, deixando porém seu olhar no meu. Se era bonita, se era perfumada, não tenho a menor ideia. Talvez nem tivesse o poder de atração que eu lhe atribuo, afinal não desviei meu caminho, não fui atrás dela. Ou talvez tenha ido, diversas vezes, em meus pensamentos. Mas talvez não. Talvez ela seja apenas uma explicação racional, um esclarecimento artificioso para algo que eu não consigo compreender. Houve outros olhares, em situações que me deixaram mais lisonjeado, em momentos em que eu de fato precisava inflar minha vaidade, mas estes cumpriram seu destino de durar apenas o que duraram, deixando apenas um pequeno rastro que não leva a lugar algum.

 

A velhinha não a vejo mais. Acabo de pagar a conta, ciente de que não voltarei a vê-la (ela usava vestido ou calça? tinha óculos? sua aparência, em menos de três minutos, já se torna um enigma). Não importa. Se algum dia eu topar novamente com aquele perfume, saberei.

***

De onde tirei o título:

Falta de classe

 Era sábado à noite… eu e minha esposa caminhávamos pela avenida em busca de um lugar apetitoso em Ubatuba. Deparamo-nos com um restaurante português que oferecia uma inusitada feijoada com frutos do mar. Eu , que adoro feijão preto e adoro frutos do mar – mas sempre tivera o bom senso de não misturar essas iguarias – ,  consegui convencer minha consorte a aventurar-se comigo na culinária lusitana.

 Entrando no restaura, peguei logo o cardápio e tive duas grandes decepções: a feijoada era feita com feijão branco, e além disso ela continha linguiça (eu não como carne de porco). Pedi licença ao garçon e dei no pé. Ele, por algum motivo, desconfiou que a real razão da minha fuga fora o preço do prato (mais salgado que bacalhau, literal e conotativamente: quase cem pilas). Quando eu estava quase saindo, ouvi-o entoar um aforismo que me acompanhará pelo resto da vida: Jamais espere classe de um corintiano!

 Enfim, fomos continuar nossa aventura gastronômica no restaurante do lado que nem era tão mais barato assim. Pedimos tainha grelhada coberta com camarões, cogumelos e alcaparras, acompanhada por batata sauté (grafada como “sote”) e arroz à grega (sem a crase). Não me ache chato, caro leitor, concordo que na culinária é a língua concreta e não a abstrata que deve prevelecer.

 Enfim, como disse, pagamos por um prato sofisticado (ou, caso o leitor tenha tendência a exatidões matemáticas, por um prato 90% sofisticado). Logo na entrada, porém, a minha primeira decepção: a manteiga estava vencida em um mês. Um mês! Um mês atrás ainda me gabava de ter um ano a menos que agora, um mês atrás o Armando Nogueira estava vivo.

 Quando minha esposa me viu regurgitando o pão amanteigado, ela confessou que sua primeira decepção fora a faca suja que ela educadamente trocou com a mesa ao lado. Sendo eu uma pessoa mais grosseira, avisei o problema ao simpático e sisudo garçon assim que ele veio perguntar se tudo estava certo.

 Não demorou muito para chegar a comida. Como estávamos num lugar 90% fino, ele gentilmente pôs-se a nos servir, mas – oh! dez por cento faltantes! – derrubou arroz sobre a mesa, saindo de fininho sem se desculpar e sem se oferecer para eliminar os grãos (eufemismo para colherada) que estavam sobre a mesa.

A comida, porém… sim, a comida, afinal, não se julga um livro pela capa, do mesmo modo que não se julgam as misses pela beleza. A tainha grelhada estava apetitosa: seca nas laterais, levemente temperada pelas alcaparras, combinava bem com a batata insossa que nos serviram; os camarões estavam igualmente ótimos. Tudo muito bom, mas bom dentro daquilo que se previa: tainha grelhada, por definição, fica mesmo deliciosamente seca nas laterais; alcaparras acompanhando peixe, todo paulistano sabe, é uma combinação banal; o peixe e os camarões estavam bons por serem frescos, pescados-capturados ali mesmo naquela cidade.

 Algo (talvez os cogumelos que não apareceram no prato) me dizia que o sabor não era exatamente mérito do restaurante. Sim, reclamar disso já é ser chato em demasia. Vou então para a última: a quantidade de comida que nos serviram alimentariam quatro pessoas educadas ou três famintas. Um restaurante 90% chique não deve ter como meta estufar a pança dos seus clientes, mas sim estimular-lhes o paladar com combinações precisas.

 Quando outro garçon trouxe a conta, perguntou sorrindo o que havíamos achado. Reclamei discretamente do excesso de comida (que seria mandado ou para o lixo ou para a confecção de bolinhos de arroz), mas fui tão discreto que ele não entendeu (ou fingiu não entender) a reclamação:

 – É, aqui a gente capricha mesmo!

 Não ria de mim, de acordo com a teoria do primeiro garçon, aquele do primeiro restaurante, tudo se justificaria pelo brasão do Corinthians na parede – mas não havia nenhum brasão.

Brincando com fogo

Tu descansas no quintal da casa da avó. Em poucos instantes, saberás dos perigos que se escondem nos vergeis. Uma borboleta, irrelevante a tudo isso, pousa na papila de uma flor. Queres tocá-la; de teus dedos, porém, ela não quer o toque. Teu hálito a espanta, algumas folhas a escondem. As mãos, curiosas, não a querem perder, e os dedos, ligeiros, serpenteiam em busca da presa. Ígnea dor na pele vermelha denuncia-se no grito: mãe, queimei a mão! A mãe, porém, não acredita. Não há fósforos ou fogo no quintal. A menina anda imaginando coisas, suspira à xícara de café. Tu, desapontada, deixas os olhos adentrarem-se nas folhas. E não é que a mãe não estava de todo enganada? Era, sim, um fogo falso, um fogo mentiroso, mas que igualmente queimava. Dizes tchau à taturana e sossegas o facho. A borboleta já não estava mais lá.

Filho da mãe

Etimologia é um negócio perigoso. Tem um aluno meu que se encantou tanto com etimologia que se tornou meio vagabundo nas outras coisas. Veja só: um pouco antes de estudar etimologia, ele falou para a mãe que queria aprender piano. Daí ela fez um esforço danado, comprou um piano de cauda – daqueles bem caros – para ele, contratou um professor particular, mas foi só começar a estudar etimologia e ele deixou tudo de lado. Obviamente, a mãe ficou muito brava. Pô, Jaime! Eu comprei o melhor piano que pude – ainda estou pagando as prestações –, deixei de trocar de carro por causa disso.

 

E passou um belo dum sabão no coitado. Falou, falou, falou até a orelha do menino começar a arder de tanto falatório.

 

bem, mãe! Vamos parar com isso. Vou considerar.

 

A mãe ficou radiante. Ele falou que ia considerar. O pessoal diz que adolescente é mal educado e tal, mas meu filho não. Meu filho ficou de pensar no assunto. Ele ficou de refletir o problema. Então, num pulo, ela foi correndo à cozinha preparar a sobremesa favorita do garoto. Ela ficou lá um tempão, quando a torta de sorvete ficou pronta já era noite. Foi quando ela notou um estranho silêncio pela casa. Ué, não era para ele estar tocando piano? Ela foi até a sala e não o viu. (Não viu o menino, pois o piano pelo menos ainda estava lá). Ela o procurou no quarto, no banheiro, na outra sala e nada! A mãe foi encontrá-lo na varanda, deitado, olhando para o céu.

 

– Seu mentiroso! Safado! Você me disse que ia tocar piano!

 

– Não disse, não.

 

– Você me falou que ia pensar no assunto!

 

– Não disse, não.

 

– Você me falou que ia considerar!

 

– E eu estou considerando.

 

– ?

 

– Mãe. Veja bem. “Considerar” vem de síder (que em grego significa astros, estrelas). Etimologicamente, “considerar” significa examinar, observar atentamente as estrelas. Como o papo estava meio chato eu vim para cá relaxar um pouco.

 

Não me pergunte o que a mãe fez com a torta de sorvete.