Arquivo de Tag | culinária

Aforismos culinários e outro

Prostituta e fast food: quando a fome vence o paladar.

Ah, se todo vinho contivesse o sabor da língua do enólogo.

O estômago é o segundo sexo; para alguns, o único.

Algumas saladas sonham ser a massa; outras anseiam por um paladar sofisticado.

Agonóstico: [adjetivo ou substantivo] 1. crente envergonhado. 2. ateu envergonhado.

Anúncios

Falta de classe

 Era sábado à noite… eu e minha esposa caminhávamos pela avenida em busca de um lugar apetitoso em Ubatuba. Deparamo-nos com um restaurante português que oferecia uma inusitada feijoada com frutos do mar. Eu , que adoro feijão preto e adoro frutos do mar – mas sempre tivera o bom senso de não misturar essas iguarias – ,  consegui convencer minha consorte a aventurar-se comigo na culinária lusitana.

 Entrando no restaura, peguei logo o cardápio e tive duas grandes decepções: a feijoada era feita com feijão branco, e além disso ela continha linguiça (eu não como carne de porco). Pedi licença ao garçon e dei no pé. Ele, por algum motivo, desconfiou que a real razão da minha fuga fora o preço do prato (mais salgado que bacalhau, literal e conotativamente: quase cem pilas). Quando eu estava quase saindo, ouvi-o entoar um aforismo que me acompanhará pelo resto da vida: Jamais espere classe de um corintiano!

 Enfim, fomos continuar nossa aventura gastronômica no restaurante do lado que nem era tão mais barato assim. Pedimos tainha grelhada coberta com camarões, cogumelos e alcaparras, acompanhada por batata sauté (grafada como “sote”) e arroz à grega (sem a crase). Não me ache chato, caro leitor, concordo que na culinária é a língua concreta e não a abstrata que deve prevelecer.

 Enfim, como disse, pagamos por um prato sofisticado (ou, caso o leitor tenha tendência a exatidões matemáticas, por um prato 90% sofisticado). Logo na entrada, porém, a minha primeira decepção: a manteiga estava vencida em um mês. Um mês! Um mês atrás ainda me gabava de ter um ano a menos que agora, um mês atrás o Armando Nogueira estava vivo.

 Quando minha esposa me viu regurgitando o pão amanteigado, ela confessou que sua primeira decepção fora a faca suja que ela educadamente trocou com a mesa ao lado. Sendo eu uma pessoa mais grosseira, avisei o problema ao simpático e sisudo garçon assim que ele veio perguntar se tudo estava certo.

 Não demorou muito para chegar a comida. Como estávamos num lugar 90% fino, ele gentilmente pôs-se a nos servir, mas – oh! dez por cento faltantes! – derrubou arroz sobre a mesa, saindo de fininho sem se desculpar e sem se oferecer para eliminar os grãos (eufemismo para colherada) que estavam sobre a mesa.

A comida, porém… sim, a comida, afinal, não se julga um livro pela capa, do mesmo modo que não se julgam as misses pela beleza. A tainha grelhada estava apetitosa: seca nas laterais, levemente temperada pelas alcaparras, combinava bem com a batata insossa que nos serviram; os camarões estavam igualmente ótimos. Tudo muito bom, mas bom dentro daquilo que se previa: tainha grelhada, por definição, fica mesmo deliciosamente seca nas laterais; alcaparras acompanhando peixe, todo paulistano sabe, é uma combinação banal; o peixe e os camarões estavam bons por serem frescos, pescados-capturados ali mesmo naquela cidade.

 Algo (talvez os cogumelos que não apareceram no prato) me dizia que o sabor não era exatamente mérito do restaurante. Sim, reclamar disso já é ser chato em demasia. Vou então para a última: a quantidade de comida que nos serviram alimentariam quatro pessoas educadas ou três famintas. Um restaurante 90% chique não deve ter como meta estufar a pança dos seus clientes, mas sim estimular-lhes o paladar com combinações precisas.

 Quando outro garçon trouxe a conta, perguntou sorrindo o que havíamos achado. Reclamei discretamente do excesso de comida (que seria mandado ou para o lixo ou para a confecção de bolinhos de arroz), mas fui tão discreto que ele não entendeu (ou fingiu não entender) a reclamação:

 – É, aqui a gente capricha mesmo!

 Não ria de mim, de acordo com a teoria do primeiro garçon, aquele do primeiro restaurante, tudo se justificaria pelo brasão do Corinthians na parede – mas não havia nenhum brasão.