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Da importância da alienação

– Deus do céu, como Eça é chato! Que aluno hoje em dia consegue ler A ilustre casa de Ramires sem bocejar um sem número de vezes? E A cidade e as serras, então? Eita historinha manjada… a oposição binária entre viver no campo ou na metrópole cheira a maniqueísmo. Ou ainda aqueles romances pouco convincentes que o Machado fez muito bem em recusar…

– Ei, “pera-lá”! Uma coisa de cada vez. Acho que essas três críticas possuem naturezas diferentes. Vamos analisá-las uma a uma.

– Para mim, todas levam a um mesmo ponto:  é preciso fazer os alunos lerem algo próximo da realidade deles e não essas coisas datadas, envelhecidas e desimportantes.

– Calma, calma. Não é enumerando adjetivações que se expressa uma ideia.

– Novamente você com esse puritanismo apolíneo. Injete um pouco de Dionísio nas veias.

– ‘Tá, daqui a pouco você continua com esses seus aforismos. Deixe-me, primeiramente, entender a questão. Você disse que o Machado recusou os romances do Eça, certo?

– Sim, ele achava a questão central d’O primo Basílio pouco convincente, tudo se resumia a um mero encaixe de acasos. Se a empregada gananciosa e invejosa não tivesse encontrado as cartas, não haveria história.

– Acho que esse resumo não toca na essência da crítica.

– Mas o Machado fez referência a esse episódio chamando-o de “defeito capital”, assim Ipsis litteris, sem tirar nem pôr.

– Sim, mas esse episódio é consequência da falta de personalidade da Luiza, eis o ponto.

– Não sei se o Machado foi tão claro em expor essa tese.

– Talvez por isso mesmo ele tenha voltado ao assunto duas semanas depois. Em todo caso, o que sabemos é que Machado estava bastante preocupado com a consciência das personagens. Talvez, mais importante do que as ações em si sejam o que as motivou. Atentemo-nos à causa, e não apenas aos efeitos.

– Meu amigo, você não percebe que com toda essa pompa argumentativa você acabou se traindo e trazendo mais razões à minha razão?

– Como assim?

– Ora, o meu intuito é desqualificar o Eça. E você está me ajudando.

– Bom, meu intuito não é defender o Eça, mas sim compreender melhor a questão que você me propôs. Em todo caso, a ressalva do Machado não elimina as qualidades do Eça, até porque ele não parou de escrever em 1878; sua literatura não se resume às primeiras obras. Do mesmo modo que não julgamos o Machado somente por aquilo que ele escreveu até este período.

– Mas de que adianta essa afirmação óbvia e redundante? Todo mundo evoluiu, nem que seja na horizontal. Mas de que adianta evoluir para chegar a uma historinha manjada como a de A cidade e as serras?

– Bom, A cidade e as serras é uma novela e não um romance propriamente dito. Assim sendo, é meio esperado que ela não tenha a densidade psicológica de um Dom Casmurro, por exemplo. Mas, por outro lado, eu concordo que as características típicas de um gênero não devam ser uma amarra ao escritor.

– Agora sim você parece me entender. O escritor deve se expandir além dos limites da expectativa.

– É que na minha opinião A cidade e as serras não é um livro tão tímido assim. Alguns críticos estão revendo o papel deste livro. Talvez haja um cinismo bastante sutil. Nunca lhe ocorreu que o narrador,  Zé Fernandes, talvez esteja tirando um barato do Jacinto o tempo todo?

– Ah, “pera-lá”! Você vai cair nessa de ler o Eça como se ele fosse o Machado?

– Bom, ainda que seja uma suposição forçada, ela traz uma nova cara ao texto. Talvez o Eça tenha escutado as dicas do Machado. No mínimo, acho que é uma discussão que vale a pena. Ela até dá mais vida ao livro.

– Uma vida que o próprio livro não tem!

– Não seja chato. Os grandes escritores merecem ser revisitados.

– E quanto a A ilustre casa de Ramires? Que aluno hoje em dia curtiria revisitar esse texto antigo, de uma época antiga, sobre pessoas antigas que não nos dizem respeito?

– Acho que é exatamente esse o ponto. A arte pode fazer com que expandamos nossos horizontes.

– A arte deveria fazer o indivíduo conhecer melhor a sua época, o seu contexto.

– Sim, mas ao mesmo tempo precisamos de outros parâmetros. O outro nos ajuda a conhecer o eu.

– Esse tipo de literatura, que nos leva a outras épocas, outros contextos, é alienante!

– Houve uma época em que o nosso contexto era a placenta. De acordo com seus termos, nascer é uma forma de alienação. Então, viva a alienação!

* * *

O diálogo acima se baseia, entre outras coisas, no seguinte trecho de Gorazde, de Joe Sacco:

Desconexões

Sábado, 23 de Outubro. Aproveitei as poucas horas de folga que teria no final de semana para passear com minha esposa pela região oeste da Paulista, ali onde os cinemas costumam oferecer opções além dos juvenilizantes.

 Jovens, envelheçam! – Nelson Rodrigues.

 Ela havia acabado de assistir a uma entusiasmante palestra no MASP (Adolescência Hoje), e se aproveitou da minha presença para decantar as inúmeras ideias que o psicanalista Joel Birman compartilhou naquela tarde. O compromisso do indivíduo com si próprio, as etapas do amadurecimento, o amadurecimento em si, isso soa tão conservador e ultrapassado que já não causa mais tanta surpresa ver inversões de valores sendo consideradas meros atos de rebeldia e liberdade.

 O próprio MASP, erguido sei lá quantos metros acima do nível da rua, deveria simbolizar uma alternativa ao vulgar. No entanto, mais de uma vez, tivemos de compartilhar orquestras de câmara, exposições e palestras com pessoas que deveriam ter ficado em casa assistindo à Zorra Total.  Há algo de egocêntrico e infantil naqueles que insistem em ir a uma palestra (ou a um cinema) para balbuciar com a pessoa ao lado em vez de permitir que o público possa curtir o evento. Se pensarmos que isso voltou a se repetir numa palestra sobre o comportamento insistentemente imaturo da sociedade moderna, até fica engraçado. Teria sido proposital?

 Há criaturas que chegam aos cinqüenta sem nunca passar dos quinze. – Machado de Assis.

O curioso é notar a quantidade de alternativas de que o jovem dispõe atualmente para amadurecer mais rapidamente. É inevitável pensarmos na internet, monumento das contradições, onde exibicionismo e anonimato, solidão e companhia, quase chegam a se fundir. É outro, porém, o par antitético que me interessa: a internet também é lugar de cultura e dissipação. Se nos lembrarmos de que cultura é também uma forma de dissipação (o indivíduo precisa sair de onde está para conhecer outros lugares), a condução do problema afligirá menos. A questão, como sempre, é reconhecer a existência de infinitos meios-termos, mas não se contentar passivamente com um lugar qualquer entre os dois pólos. Como fazer isso? Como saber se o ponto em que estamos denota conhecimento adquirido ou estagnação mental? Exatamente assim. Questionando-se. O amadurecimento não é uma fórmula pré-fabricada.

Quando leio um livro, fico 5% mais inteligente e 95% mais ignorante. – Millor Fernandes.
(citado de memória – ou de esquecimento)

Das Matizes

 

A penumbra guarda um estético segredo […]

 

Madeira, fúcsia, cinza ardósia, azul furtivo… não importa. Se você enxergasse todas as coisas num mesmo tom de qualquer cor, você seria cego. Qualquer um de nós seria. A elucidação, das cores e das idéias, se dá por contraste.

 

Antes de pôr qualquer idéia ou sentimento hipotéticos no papel, o indivíduo deveria se questionar da relevância de fazê-lo; o tato analisaria os altos e baixos relevos. Afinal, por que gastarei meu tempo escrevendo a importância de uma árvore? Isso só fará sentido num universo em que as árvores forem desprezíveis. Talvez até sejam, mas nunca é demais elucidar o leitor a respeito desse contexto, já que ninguém garante que ele está por dentro daquilo que pretendemos esmiuçar. Mas e se estivermos num contexto em que as árvores já são valorizadas? Se já tiverem regido loas e loas a seus frutos e sombra? Restará ao escritor atento uma infinidade subjetiva de motivos: a consistência de suas raízes, a retidão ou obliqüidade de seu tronco, o ímpeto de seus galhos, o balançar preciso e delicado de suas folhas: as analogias e as representações simbólicas que uma árvore encerra sem jamais se encerrarem. Motivos não faltam a olhos aventureiros.

 

Há, certamente, moléstias a serem combatidas. A miopia pode ser ofuscante a ponto de o indivíduo só focalizar aquilo que está dentro de si, enxergando não com os olhos, mas com o cérebro – o que pode ser um convite para o preconceito. Alberto Caeiro, heterônimo e mestre de Fernando Pessoa, concordaria com a importância de experimentar a vida, saborear os dias, usufruir dos instantes. Reconhecer os sentidos deveria ser a educação primária de todo connaiseur. Ao contrário de nos acomodarmos com o mundo umbilical em que imaginamos viverem as crianças pequenas, devemos tocar a terra, deixar o rosto à chuva, respirar o vento. O indivíduo não se distingue se não olhar para além dos seus limites.

 

Já a moléstia diametral, se assim podemos dizer, é menos uma nêmesis que outra face da mesma moeda. No universo simbólico, pelo menos, miopia e hipermetropia muitas vezes sugerem saídas quando são, na verdade, espécies de um mesmo gênero de enfermidade. O hipermetrope enxerga – e critica – aparentemente bem o que está distante, mas não possui nitidez exata do que lhe está mais próximo (e o que lhe seria mais próximo que o próprio eu?). Sem diagnosticar esse problema, sua leitura de mundo obviamente torna-se imprecisa, pois ele tenderá a acreditar numa objetividade pura, numa racionalidade às cegas, e – por mais paradoxal que isso possa parecer – a crença numa objetividade totalizante e plena é a mais curiosa e irônica das subjetividades.

 

Assim como há diversos exercícios de focalização, há diversos métodos investigativos. Uma racionalidade tosca e distorcida seria aquela que se julga onipotente. Se do positivismo é possível retirar boas lições (a busca por métodos mais rigorosos, a sede por fórmulas mais precisas), é de seu contraexemplo que devemos tirar um aprendizado dos mais valiosos: o ceticismo não prescinde da intuição. Mesmo um cientista ateu como Albert Einstein sabia que o indivíduo não se resume a um amontoado de conhecimentos e informações. É a seleção, a ordenação e a releitura – muitas vezes imprevisível e improvável – desses dados que faz com que o pesquisador vislumbre uma centelha daimônica, uma faísca da tocha de Prometeu – ou, mitologias de lado – uma idéia.

Astigmatismo, hipermetropia, miopia, cegueira. A simbologia óptica abarca um mundaréu de entraves concretos. De análises mal feitas à preguiça analítica, passando por preconceitos e subjetivismos, todos esses problemas passam pelo descuido tátil ao qual é fácil nos acostumarmos. Escapar é possível? O percurso é obscuro, talvez imensurável. Certamente não é fácil conduzir o caminhar, mas – feliz e infelizmente – sabemos que ele se dá sempre por contraste com a inércia.

Cultura idealizada?

O diálogo que se segue foi motivado pelo texto Limitação Cultural.

 

Fonseca: Li o texto. Achei normal. Achei “Passagem da vida” e “Crescer dói” mais impactantes e bem escritos.  Esse texto novo está normal. Para mim não há nada que salte muito aos olhos e, até mesmo, achei tendencioso. Mas tem um porém aí: Minha capacidade analítica não é lá muito boa. A cada aula de leitura e interpretação de textos eu vejo isso. Às vezes, eu tenho dificuldades até em achar os movimentos do texto, oras!

Então, é melhor perguntar: Que méritos você viu no texto? Você disse antes que colocaria em seu blog textos que lhe agradassem em um ou outro aspecto. Falando desse especificamente, qual foi o diferencial? O que o motivou a escolhê-lo?

João das Flores: Tendencioso em que sentido? O texto trabalhou bem o conflito. Ele é linear, pois vale-se de uma lógica bastante racional, quase matemática. Nos outros havia mais poesia, não discordo.

Infelizmente, agora não posso colorir o texto acentuando as oposições.

Fonseca: Assumindo que adjetivo é uma palavra que caracteriza, eu achei o texto tendencioso por que, na hora de trabalhar o conflito, as palavras usadas para quem busca a cultura são positivas e para as pessoas que não buscam a cultura, pejorativas.

Aqueles que não buscam a cultura estão classificados como imediatistas, simplistas, acomodados etc.

Foi isso.

João das Flores: Wall, cultura vem de cultivo, logo, impossível não associá-la ao inverso de rapidez, imediatismo etc.

Você confunde ter opinião com ser tendencioso. Na opinião de quem escreveu o texto, a cultura é algo positivo, por isso a seleção dos vocábulos adequados a expressar essa idéia.

Dizer que o comunismo foi uma catástrofe não é, necessariamente, ser tendencioso. Seria se o indivíduo, para isso, idealizasse o capitalismo, escondendo os defeitos deste.

Fonseca: Seu exemplo do comunismo e a etimologia esclarecem um pouco.

O que me fazia achar o texto tendencioso era uma reação antagônica que eu via nele. A cultura como boa e o imediatismo como ruim. Sem que este tivesse méritos nem aquela defeitos.

João das Flores: Qual seria o defeito da cultura?

Fonseca: Eu lhe faço a mesma pergunta de forma inversa. Seria a cultura perfeita?

Cultura extensa como citada no texto exige muito tempo e dinheiro. E vamos fugir dos extremos aqui. Veja, por exemplo, a média de estudos mesmo nos países desenvolvidos. O número de pessoas com doutorado é bem menor do que o número de bacharéis. Por que isso? Seria simples preguiça de continuar os estudos? Ou há motivos mais práticos que impediriam o progresso intelectual?

João das Flores: Se cultura é cultivo, trata-se de uma ação que visa a obtenção de um lucro futuro. Sabendo que perfeito é aquilo que já está feito, pronto, acabado (em outras palavras, perfeito é aquilo que não evolui), o indivíduo que busca aumentar sua cultura tem plena ciência de que ele próprio não é perfeito – e mais: ele sabe que a perfeição é uma noção abstrata que jamais será alcançada. Não à toa, ele deixa essa questão metafísica de lado e busca conhecer um pouco mais aquilo que de fato lhe importa.

Note que a perfeição, ou o senso de perfeição, cabe mais a mentes acomodadas, aquelas que se consideram satisfeitas – quem busca a cultura foge da saturação mecanizada e massificada; sempre há algo a aprender.

Assim como na agricultura, a aquisição cultural está sujeita a boas e más colheitas. Mas isso não significa que o indivíduo deixará de plantar. Olhar, simplesmente olhar o terreno, não traz frutos.

Acrescente a isso que a cultura não precisa ser algo oficializado. Ela não se restringe a diplomas ou títulos de louvor. O fato de o indivíduo não freqüentar mais escolas não significa que ele seja um acomodado (Alberto Caeiro está aí de prova).

Fonseca: Humm, note que a minha pergunta sobre a perfeição da cultura levou a um enunciação de suas qualidades e a questão metafísica de perfeição.

Acho que apesar de interessante a pergunta e a resposta que você deu – gostei dos exemplos – cabe ainda a pergunta: Não há defeitos práticos na cultura? Não para dizer que ela não seja perfeita, mas uma explicação mais vertical do que falta de tempo ou acomodamento para não buscá-la?

Sim, há indivíduos ilustres sem diplomas não discordo. Usei o exemplo do doutorado por que para obter um é necessário muito esforço e estudo.

Uma digressão: Saindo da esfera da perfeição da cultura e entrando na de perfeição pura e simples: Qual é a metáfora, ou qual o significado escondido no nome do tempo verbal: “Pretérito mais-que-perfeito”?

João das Flores: Pretérito perfeito: passado terminado. (Você chegou.)

Pretérito mais-que-perfeito: passado terminado antes do pretérito perfeito. (Quando você chegou, eu já comera o bolo.)

Fonseca: Perdoe a minha insistência em procurar um defeito na cultura.

Eu fiquei tão espantado com a sua pergunta: “Qual seria o defeito da cultura?” que me coloquei a matutar sobre isso. Mas qual é o defeito mesmo?

Na Filosofia nunca há consenso. Há sempre um contra argumento, um filósofo que discorde, uma briga, um debate. Então, quando eu não achei um defeito na cultura fiquei pasmo.

Agora nesse caso da cultura só consegui pensar em defeitos relativos a ela, mas não em defeitos nela em si. Por isso o meu espanto e a pergunta sobre a perfeição.

É isso. Não vejo nenhum. Quem sabe em minhas leituras isso se solidifica ou eu acabo pensando em algum?

Até mais.

Limitação cultural

Marina Mayashida Zoega (mahayashida@hotmail.com)

“Cultura não se herda, conquista-se”. Trata-se de uma frase do pensador francês André Malraux acerca do conjunto de manifestações artísticas, intelectuais e comportamentais de um coletivo. Mesmo diante de um contexto em que cresce o acesso mundial a livros, tecnologias e informações, percebe-se que a sociedade, no geral, tende a se afastar cada vez mais de uma formação ampla, de uma cultura extensa, seja pela falta de oportunidades ou pelo desinteresse.

Já é senso comum a idéia de que a globalização é um fenômeno intenso e que atinge diversas partes do planeta. Com a crescente melhoria dos setores de comunicação, bem como a consolidação de vias de entroncamento informacionais, o acesso à cultura torna-se algo relativamente simples. Contudo, pode-se notar um suposto paradoxo: cresce a popularização da cultura e, concomitantemente, o desprezo por ela.

Há, de fato, maior disponibilidade e maior acesso aos conhecimentos mundanos, mas quem realmente está apto a absorvê-los? Analisando por meio desse prisma, destaca-se que não é somente o contato com informações que faz o homem adquiri-las. Muito menos, como bem percebeu André Malraux, se herda conhecimentos. Somente com certa base educacional é que se adquirem interesse e maior capacidade de assimilação. Dessa forma, num mundo em que a educação ainda é restrita e onde nem todos que sabem ler são, de fato, leitores, o real alcance da cultura geral não se mostra tão amplo.

Somado ao fator educacional, há de se observar o desprezo por parte de uma crescente parcela da população mundial, a qual se acomodou perante as atitudes mais fáceis e rápidas que o contexto globalizado exige. Mesmo com os conhecimentos gerais e irrestritos estando em toda parte, os homens visam cada vez mais à economia de tempo e a uma formulação extremamente especializada, mas limitada a um específico campo de atuação. Sendo assim, o paradoxo acerca do maior acesso e menor interesse à cultura vai se desfazendo, na medida em que se analisa o contexto geral no qual o ser humano hoje se insere: é a cultura do mundo simples, fácil e rápido sobrepondo-se à cultura histórica que a tradição foi construindo ao longo dos anos.

Em suma, o desenvolvimento das redes informacionais com o fenômeno da globalização permite que a população mundial tenha teoricamente maior acesso à chamada cultura geral. No entanto, da mesma forma que cresce sua disponibilidade, revela-se um certo desinteresse por conhecimentos que remontam ao passado ou a uma amplitude maior. Isso se dá tanto por razões de oportunidades como por novos valores que priorizam a vida mais imediatista e restrita do mundo atual. Assim como constatou o pensador francês, a absorção de cultura não ocorre passivamente; é necessário que haja interesse e energia para conquistá-la.

* * *

Observação – veja a polêmica que este texto causou:  https://mutuca.wordpress.com/2008/08/28/cultura-idealizada/.

Homens e livros

Débora Coutinho (binhacoutinho@yahoo.com.br)

 

Integrar-se, eis uma das inúmeras buscas do indivíduo. Há entre nós a necessidade de interagirmos com o coletivo, e a principal ferramenta que utilizamos para nos interligarmos é a comunicação. Em primeira instância nos valemos do choro, e com o passar dos anos rebuscamos essa comunicação com o auxílio da fala e, por fim, da escrita. A leitura não só nos integra como participa direta ou indiretamente da nossa própria evolução individual; por isso mesmo ela se torna um pilar fundamental da nossa sociedade.

 

É notável a fragilidade desse pilar, uma vez que grande parte da população atual não se inclina à leitura, preferindo a cultura do “ágil, fácil e pronto” dos domínios da internet. Essa substituição é preocupante, pois interfere nos planos socioculturais da humanidade. A cultura massificada que não valoriza a leitura ameaça a compreensão dos mecanismos sociais nos quais estamos inseridos.

 

Ler possibilita ao indivíduo expandir sua concepção de mundo, aproximando culturas, permitindo a tolerância e o conhecimento ao que nos é estranho. Faz-nos questionar posições (e imposições), tira-nos da inércia do consumismo puro e inconsciente e nos motiva a procurar respostas.

 

Integrar-se não se resume a aceitar conceitos. Talvez provenha daí a insatisfação que assola a todos hoje em dia. Integração requer estudo, análise conhecimento, e nada disso é possível de se obter em sua totalidade sem a leitura. Esta insere o indivíduo na humanidade, tornando-o consciente de suas responsabilidades, permitindo assim as mudanças. São estas últimas, aliás, as alavancas para a evolução da sociedade, pois permitem a concretização dos erros e dos acertos que nos regem e que nos regerão.

 

Os livros nos possibilitam um amadurecimento através da “vivência” de experiências que talvez nunca nos ocorresse. Aquele que lê amadurece intelectualmente e compreende o mundo com menos dificuldade a partir do momento em que se despe de preconceitos. Só se livra dos preconceitos quem se aventura em culturas que lhe são estranhas. Afinal, está aí o principal papel do livro: apresentar os seres humanos uns aos outros.

 

Uma vez apresentados, é possível iniciar o diálogo, compreender impasses, buscar soluções. A leitura nos integra e nos permite evoluir. Para o desenrolar da nossa História, precisamos não só de homens que vivam, contestem, errem e aprendam, mas também de livros que nos recordem os feitos e que nos inspirem ações ou reações novas. Em suma, como diria Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”.