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Escrevendo com a borracha – versão 2

       

        Letícia nunca falava sobre seus pais, sua família. Letícia nunca comemorava natal, ano novo, seu próprio aniversário. Às vezes era vista em festas alheias, quando se comportava fingindo ser uma pessoa normal, mas sempre suspeitava de que todo mundo percebia seu artificialismo. Provavelmente ninguém dava a mínima, afinal os outros também possuem suas vidas. Letícia adorava fluxo de consciência, discurso indireto livre e simular conversas. Sua mania favorita era, após um café, um encontro ou um simples encontrão, continuar a conversa que teve. Claro, só fazia isso quando os papos lhe provocavam algum tipo de inquietação, intelectual ou emocional. Era divertido, seus colegas diziam, quando ela compartilhava com eles uma ou outra sequência. Com o passar do tempo, porém, Letícia começou a sentir dificuldades em distinguir o que era lembranças, o que era apenas imaginação. Letícia gostava muito de conversar com si mesma em silêncio. Ela vivia se questionando, se questionava tanto que se sentia meio paranoica, embora soubesse que esse exercício mental era útil contra estagnações argumentativas, ao mesmo tempo as contra-argumentações sequenciais lhe pareciam uma forma sofisticada de imobilidade. Letícia se perguntava o que era. Ouviu certa vez com bastante interesse alguém lhe contar sobre a dualidade ser – querer ser. Talvez não tenha ouvido, talvez tenha projetado esse trecho de conversa, talvez apenas tenha desejado ouvir. A realidade, Letícia, importa menos que o sentido que damos a ela. Fato é que Letícia tinha dificuldades em olhar objetivamente para si, em fazer o doloroso percurso em busca daquilo que ela de fato quer, talvez porque Letícia tenha muito medo da subtração. Letícia é medrosa, ela sabe. Ela sabe que o raciocínio às vezes a leva para um lugar cômodo, em que ela se priva de pensar objetivamente nos seus dilemas. Letícia é repetitiva. Letícia é insistente. A realidade é dura; Letícia é feita de água.

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Escrevendo com a borracha – versão 1

    

        Ao contrário do que o nome sugeria, Felício talvez não estivesse indo muito bem. Na verdade até atrapalhava. Quantas não foram as vezes em que os amigos diziam sorridentes que quando tudo ia mal só mesmo ele, Felício, era capaz de sorrir. E ele, para não chamar a atenção, consentia. Outras vezes, por causa do gato Félix da TV, diziam que ele faria o maior sucesso com as mulheres, caso não tivesse bafo de peixe. Não que houvesse alguma maldade nesse comentário; seu hálito nunca fora alvo de suspeitas desonrosas, seu suposto sucesso com as mulheres nunca fora notado. A bem da verdade, ele cultivou sim alguns relacionamentos, parece. Ninguém sabia muito da sua vida íntima. Deve-se respeitar a vida privada – principalmente daqueles que quase não apareciam no happy hour. Mas dizendo assim dá a impressão de que ele sempre fora isolado, o que não é verdade. Ele até que falava, falava bastante até, embora fosse raro vê-lo conversando com mais de duas pessoas ao mesmo tempo. E quando alguém falava dele, quase nunca se escapava dos eloquentes “ele é assim mesmo, é o jeito dele”.

        Certa vez recebemos um e-mail informando que o celular que ele usava estaria sendo desabilitado em 24 horas. Não sei se alguém lhe enviou alguma mensagem de despedida, mas alguns riram do gerundismo. Depois consta que seu e-mail também havia sido desativado. O primeiro a saber foi um funcionário do RH, o mesmo que veio nos contar – com duas semanas de atraso – que Felício não mais trabalhava na empresa. Essas coisas acontecem, a rotatividade é intensa, a fila anda, onde vamos almoçar?

        A maioria só achou estranho quando ele encerrou sua conta no Facebook.

        O pior de tudo é que ao procurar seu nome no Google, só foi possível encontrar informações genéricas de oito anos atrás. Talvez Felício esteja reescrevendo sua vida, ainda que à custa de borracha em vez de grafite.

        É o que espero.

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Aforismos depressivos

O álcool fortalece a autoestima da depressão.

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Vampiro às avessas:
aos outros cataliza,
a si dinamita.

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O pior mentiroso é o que nos escancara a verdade.

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O destino:
ter o vento
como títere.

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A depressão nunca nos deixa só.

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Acalme-se. Mesmo na derrota, podemos culpar os outros.

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Acredita no destino quem não confia em si próprio.

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Açúcar, o mais saboroso dos falsos amigos.

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A maioria das amizades não resiste a meia dúzia de verdades.

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Derrota coletiva é eufemismo para derrota individual.