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Limitação cultural

Marina Mayashida Zoega (mahayashida@hotmail.com)

“Cultura não se herda, conquista-se”. Trata-se de uma frase do pensador francês André Malraux acerca do conjunto de manifestações artísticas, intelectuais e comportamentais de um coletivo. Mesmo diante de um contexto em que cresce o acesso mundial a livros, tecnologias e informações, percebe-se que a sociedade, no geral, tende a se afastar cada vez mais de uma formação ampla, de uma cultura extensa, seja pela falta de oportunidades ou pelo desinteresse.

Já é senso comum a idéia de que a globalização é um fenômeno intenso e que atinge diversas partes do planeta. Com a crescente melhoria dos setores de comunicação, bem como a consolidação de vias de entroncamento informacionais, o acesso à cultura torna-se algo relativamente simples. Contudo, pode-se notar um suposto paradoxo: cresce a popularização da cultura e, concomitantemente, o desprezo por ela.

Há, de fato, maior disponibilidade e maior acesso aos conhecimentos mundanos, mas quem realmente está apto a absorvê-los? Analisando por meio desse prisma, destaca-se que não é somente o contato com informações que faz o homem adquiri-las. Muito menos, como bem percebeu André Malraux, se herda conhecimentos. Somente com certa base educacional é que se adquirem interesse e maior capacidade de assimilação. Dessa forma, num mundo em que a educação ainda é restrita e onde nem todos que sabem ler são, de fato, leitores, o real alcance da cultura geral não se mostra tão amplo.

Somado ao fator educacional, há de se observar o desprezo por parte de uma crescente parcela da população mundial, a qual se acomodou perante as atitudes mais fáceis e rápidas que o contexto globalizado exige. Mesmo com os conhecimentos gerais e irrestritos estando em toda parte, os homens visam cada vez mais à economia de tempo e a uma formulação extremamente especializada, mas limitada a um específico campo de atuação. Sendo assim, o paradoxo acerca do maior acesso e menor interesse à cultura vai se desfazendo, na medida em que se analisa o contexto geral no qual o ser humano hoje se insere: é a cultura do mundo simples, fácil e rápido sobrepondo-se à cultura histórica que a tradição foi construindo ao longo dos anos.

Em suma, o desenvolvimento das redes informacionais com o fenômeno da globalização permite que a população mundial tenha teoricamente maior acesso à chamada cultura geral. No entanto, da mesma forma que cresce sua disponibilidade, revela-se um certo desinteresse por conhecimentos que remontam ao passado ou a uma amplitude maior. Isso se dá tanto por razões de oportunidades como por novos valores que priorizam a vida mais imediatista e restrita do mundo atual. Assim como constatou o pensador francês, a absorção de cultura não ocorre passivamente; é necessário que haja interesse e energia para conquistá-la.

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Observação – veja a polêmica que este texto causou:  https://mutuca.wordpress.com/2008/08/28/cultura-idealizada/.

Crescer dói

Fernando Sakamoto (fernandoysakamoto@gmail.com)

 

Na natureza, a chuva, em períodos adequados, possui um papel fundamental, auxiliando no crescimento de vegetais e na manutenção do ecossistema. Uma planta, porém, não depende apenas da água para conseguir crescer e amadurecer, necessita, também, de uma série de outros fatores, tais como a luz e a temperatura. O Brasil é como este vegetal, que encontrou um ambiente favorável para se desenvolver, mas, por algum motivo, cresce lentamente, o que o distancia de seu pretenso ápice.

 

O Brasil, desde a descoberta pelos portugueses, fora visto como um paraíso, onde os recursos abundavam e a terra era “de muito bons ares”. Talvez, por esse motivo já enraizado na mentalidade dos futuros descendentes e, provavelmente, na maioria daqueles que formarão a cultura brasileira, tenha-se criado uma situação de acomodamento. O país, como um todo, nunca precisou batalhar pela sua própria sobrevivência, já que os recursos necessários estiveram sempre à mão, não adquirindo uma experiência básica ao amadurecimento.

 

Ainda no retrospecto brasileiro, percebe-se que o país nunca foi totalmente independente, pois quando teve a oportunidade de adotar uma postura sensata, preferiu o epifitismo, sempre precisando de um apoio. Um símbolo capital desse distúrbio foi nossa independência ter sido declarada pelo imperador da própria metrópole. E, mesmo depois de desvencilharem-se os laços portugueses, vieram os ingleses e, posteriormente, os estadunidenses; “apoio” que perdura até hoje. Por não saber se conduzir por si só, o Brasil aceitou passivamente se submeter a desmandos alheios.

 

Através dos anos, é possível notar um traço no caráter do brasileiro, no qual há predomínio do emocional sobre o racional. Conseqüentemente, é perceptível o gosto por privilegiar os pequenos e aparentes benefícios de curto-prazo em vez de pensar sobre a raiz dos problemas, comumente levada ao descaso. Como diria Confúcio, “pensar dói” e dá trabalho, ainda mais quando se possui uma propensão à preguiça e ao comodismo barato. A dor que agora se ameniza, entretanto, pode ocasionar uma forte enxaqueca no futuro, assim que os ventos favoráveis ao Brasil cessarem.

 

Um exemplo daqueles para os quais nem sempre os Zéfiros sopraram favoravelmente é o Japão, um pais pouco privilegiado e quase sem recursos minerais, mas que nem por isso deixou se acomodar. Adotando uma postura mais racional, trabalhadora e com uma raiz independente, gerou seus próprios ventos e já atingiu seu amadurecimento. Tal processo, porém, não se deu de maneira imediata, tendo sido necessário um longo e árduo caminho.

 

A chuva há muito tempo já precipita sobre o Brasil, permitindo o seu crescimento mas, assim como na natureza, a água em excesso não é saudável ao desenvolvimento de um vegetal; não podemos depende exclusivamente de um fator. O problema é interno, devemos ter atitude e trabalhar, semeando de maneira mais racional, removendo as raízes calcadas em velhos preceitos e instalando-se o hormônio certo do crescimento. Só assim teremos a oportunidade de ver nossa flor desabrochar e gerar bons frutos.

Homens e livros

Débora Coutinho (binhacoutinho@yahoo.com.br)

 

Integrar-se, eis uma das inúmeras buscas do indivíduo. Há entre nós a necessidade de interagirmos com o coletivo, e a principal ferramenta que utilizamos para nos interligarmos é a comunicação. Em primeira instância nos valemos do choro, e com o passar dos anos rebuscamos essa comunicação com o auxílio da fala e, por fim, da escrita. A leitura não só nos integra como participa direta ou indiretamente da nossa própria evolução individual; por isso mesmo ela se torna um pilar fundamental da nossa sociedade.

 

É notável a fragilidade desse pilar, uma vez que grande parte da população atual não se inclina à leitura, preferindo a cultura do “ágil, fácil e pronto” dos domínios da internet. Essa substituição é preocupante, pois interfere nos planos socioculturais da humanidade. A cultura massificada que não valoriza a leitura ameaça a compreensão dos mecanismos sociais nos quais estamos inseridos.

 

Ler possibilita ao indivíduo expandir sua concepção de mundo, aproximando culturas, permitindo a tolerância e o conhecimento ao que nos é estranho. Faz-nos questionar posições (e imposições), tira-nos da inércia do consumismo puro e inconsciente e nos motiva a procurar respostas.

 

Integrar-se não se resume a aceitar conceitos. Talvez provenha daí a insatisfação que assola a todos hoje em dia. Integração requer estudo, análise conhecimento, e nada disso é possível de se obter em sua totalidade sem a leitura. Esta insere o indivíduo na humanidade, tornando-o consciente de suas responsabilidades, permitindo assim as mudanças. São estas últimas, aliás, as alavancas para a evolução da sociedade, pois permitem a concretização dos erros e dos acertos que nos regem e que nos regerão.

 

Os livros nos possibilitam um amadurecimento através da “vivência” de experiências que talvez nunca nos ocorresse. Aquele que lê amadurece intelectualmente e compreende o mundo com menos dificuldade a partir do momento em que se despe de preconceitos. Só se livra dos preconceitos quem se aventura em culturas que lhe são estranhas. Afinal, está aí o principal papel do livro: apresentar os seres humanos uns aos outros.

 

Uma vez apresentados, é possível iniciar o diálogo, compreender impasses, buscar soluções. A leitura nos integra e nos permite evoluir. Para o desenrolar da nossa História, precisamos não só de homens que vivam, contestem, errem e aprendam, mas também de livros que nos recordem os feitos e que nos inspirem ações ou reações novas. Em suma, como diria Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”.