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Espirre com cautela

Estou doente. E vocês sabem como a doença é algo constrangedor. É traumatizante, por exemplo, ter diarreia. Até o nome é incoveniente. Em grego, diarreia “é fluir por todos os lados” – prefiro nem imaginar como isso seria possível. Já em português, até fizeram o acordo ortográfico para lhe tirarem o acento. Mas para quê? De nada vale tirar o acento da diarreia, melhor seria tirar a diarreia do assento. Enfim… Outra enfermidade das mais incômodas é o resfriado.

 

Dia desses, estava eu num baile da terceira idade tomando meu suco de ameixa quando soou claro e imperativo um espirro daqueles. Uns tiveram pena, outros se comoveram, eu me assustei, mas sempre tem alguém educado que diz:

 

– Deus te proteja, meu filho!

 

A frase não poderia ser mais precisa. O espirro, etimologicamente, é o antônimo do sopro divino no barro adâmico. SPIR, vocês sabem, é “soprar” em latim. Deus soprou a Adão seu espírito, o espirro nada mais é do que um sopro escandaloso.

 

É difícil acreditar, mas tem gente que faz faculdade de espirro. Quero dizer: de sopro. Peraí, deixe-me explicar. Não disse que tem gente que faz cursinho, presta vestibular e, entre uma cerveja e uma festa, estuda a filosofia do espirro – imaginem como não seria a tese entitulada O feudalismo em Branca de Neve e os sete anões pela perspectiva do anão Atchim ou O resfriado na Idade Média: assim começou a inquisição. Nada disso. Lembrem-se: como é sopro em grego? Psyque. Psicologia é, em primeira instância, o estudo do sopro divino, o estudo do espírito, o estudo da alma. Sem mistérios, certo? Se algum dia, na fila do pão ou no ponto de táxi, alguém lhe perguntar sobre com que nomes o livro de Aristóteles Peri Psykhês foi traduzido, você certamente saberia identificá-lo como o De Anima, na tradução latina, ou o Da Alma, na tradução portuguesa. E isso sem que ninguém precise lhe soprar a resposta.