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Ética e Moralismo

 Ele aliena? Ele educa? O futebol possui um papel social? Parece-me que as próprias perguntas são por si sós evidências de que a resposta é: sim, ele aliena, ele educa, ele possui um papel social. E não venha me dizer que estou sendo contraditório, que a primeira questão anula a segunda ou superficialidades desse tipo. O futebol, como todo evento pop, possui uma abrangência que o leva de diferentes formas aos mais diferentes públicos, que o irá consumir dos mais diferentes modos.



Ricardo Trida / AE



 Um exemplo recente é o jogo de ontem envolvendo Corínthians e Cruzeiro, juntos com o Fluminense, únicos candidatos ao título brasileiro deste ano. Zero a zero até os 41 minutos do segundo tempo, quando Jorge Henrique levanta a bola na área, rumo ao peito de Ronaldo que sofre pênalti do zagueiro Gil. Desesperados (afinal a derrota poderia significar a perda do título),  jogadores e técnico cruzeirenses buscam e encontram na figura do juiz Sandro Meira Ricci o responsável pela tragédia:

a) Thiago Ribeiro, que desperdiçou inúmeras chances ao longo do jogo, inclusive num lance em que preferiu simular um pênalti em vez de tentar dar sequência ao lance, fez gestos insinuando que o juiz havia sido comprado;

b) O presidente do Cruzeiro verbalizou a opinião do seu rápido e inofensivo atacante. Obviamente, nem um nem outro trará evidências de  que as lamentações irresponsáveis dos perdedores sejam algo além disso mesmo;

c) O presidente acrescentou que “nós pedimos para não escalar esse cara” . Estranha declaração se nos lembrarmos de que Cuca havia votado no árbitro como o melhor do campeonato;

d) Estranho também o Cuca fazer tantas insinuações, sem nada conseguir comprovar. Justo ele, que em 1988 foi acusado de estupro quando o Grêmio fez uma excursão na Suíça, deveria entender como é desagradável receber acusações irresponsáveis;

e) Também é estranho ele, o Cuca, dizer que não tem dinheiro para pagar um advogado. Quer o quê? Que os torcedores, que ganham 1/20 do que ele ganha, comecem a fazer doações? Quanta demagogia…

 Os cruzeirenses sabiamente se esquecem de que no jogo do primeiro turno o Corínthians foi prejudicado contra o celeste (veja o texto do Juca Kfouri). Sabiamente também se esquecem de que foram beneficiados contra o Grêmio.

 Ser moralista sem ser ético é muito fácil. Quem do time cruzeirense reclamou abertamente dos gols desperdiçados pelos atacantes Thiago Ribeiro e Wellington Paulista?

 Juízes erram. Se o Corinthians foi prejudicado contra o Cruzeiro e contra o Guarani, também foi beneficiado contra o Santos. Se o Cruzeiro se beneficiou contra o Grêmio e contra o Corínthians, também foi prejudicado contra o São Paulo. Juízes erram. Jogadores também, ainda que poucos tenham caráter o suficiente para assumir. Por isso mesmo, vale citar a exceção.

 Talvez o futebol, sozinho, não eduque nem aliene. Talvez ele seja uma desculpa para travestirmos nosso complexo de inferioridade em violência (nem sempre verbal), basta ver os exemplos citados anteriormente. Talvez ele nos traga um exemplo de dignidade. Seu papel social, ativo ou passivo, será tão múltiplo quanto múltiplas são as pessoas que o consomem, com seus múltiplos modos de o consumir.

 

A estante do seu Luís

Certa vez numa entrevista, percebi assim meio de lado o escritor definindo o que seria a função do livro:

Abrir-se, transpor o mero papel, escapar das linhas e do mofo, arejar as idéias de seu autor, ser solto, ser livre.

Não sei se captei o que deveria captar ou se insinuei saber apenas o que me interessava. De todo modo, isso é o que menos importa. A história começa num outro tempo, mas no mesmo ritmo. Digamos que num velho sebo paulistano, daqueles bem tradicionais; fuçava eu pelas estantes bagunçadas em busca de uma velha Bíblia do padre Antônio Pereira de Figueiredo; indicação valiosa de um amigo também fotógrafo cheio de virtudes o qual lamentava ter-se fechado a oportunidade de comprá-la por módicos quinhentos reais. Como também me considero uma pessoa simples, sem complexidades éticas, resolvi ajudá-lo a pagar tal quantia.

– Duzentos? Ótimo!

A reserva feita logo às dez da manhã já me garantia um adequado lucro que ainda poderia aumentar de duas formas: encontrando um exemplar mais barato ou expandindo um pouco os quinhentos que meu ingênuo amigo considerava oportunos. Fosse uns cem, duzentos a mais, sabe ele, a porta continuaria aberta. A vaidade, talvez diga a Santa Igreja, não é um bom vício; já a sapiência que multiplica peixes e moedas deve ser uma casta virtude.

Um exemplar do Bernanos, dois do Corção, um autografado do Tolentino, cada qual por duas notas miúdas!?  O seu Luís deve ter perdido o jeito com a coisa. Mas o importante, ei-lo ali numa encadernação amadeirada, sem contraste com a estante velha, em harmonia com o bolor das paredes, o melhor dos cães comuns não o encontraria.

Meu chapa, aqui na minha mão. Fiz esforços enormes, gastei o que não devia, tive de pagar comissão, mas consegui! – Não sem um pouco de rubor imaginava-me pronunciando essas palavras. Afinal, sou uma pessoa tímida. E humilde.

Assim abaixei-me para folhear aquele pequeno arbusto de riquezas. Histórias de Caim, Judas, os irmãos de José; passeio aleatoriamente por essas elevações até que… A-ve-Ma-ri-a! (pronunciada em cinco sílabas como um palavrão de espanto, de alegria). Já foi dito que a árvore plantada junto aos riachos dá seus frutos no momento certo, e que pomo mais precioso que um catálogo legítimo e em primeira edição da famosa e desejada Leica M3? Por este sim eu daria umas notas bem gorduchas. Nem bem enquadrei o livreto, focalizei-o, adaptando-me as pupilas para absorver cada luminosidade preciosa daquelas páginas a quem rezas e mais rezas dediquei nos últimos quinze anos. Que lindo compêndio sacro! Que delicada e angelical engenharia! Imagino o feliz mensageiro incumbido de trazer o registro desta adâmica criação de ferro e carbono, implorante por ser libertada daquela saleta amontoada por criações de nível inferior; o bom livro merece melhor companhia.

Justo nesse momento, seu Luís fora atraído pelo chamado de um outro cliente que pedia informações sobre o livro que Aristóteles fez a seu filho Nicômaco, algo, aliás, que pouco me interessava naquele momento. Como as coisas são curiosas: o barulho que o afastou, a mim parecia sugerir: que falta de confiança é esta que lhe faz abrir o livro antes de tê-lo para si? Concordei com o recado, compreendi o livreto entre o velho e o novo testamento, saquei os duzentos e pu-los sobre a mesa – felicidade desmedida numa alegria disfarçada. Dali a poucos instantes, seu Luís chegaria com seu olhar míope e o sorriso safado de quem lucrou em cima de mais uma obra superfaturada. Abstenho-me de avaliar sua cretinice, mas do meu amigo a quem serão transferidos os juros sinto pena. Mas, para dizer a verdade, não muito.

A vaidade, a cobiça, meu caro… Há quem goste de desejar os vazios.