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Sobre o ser e o não ser

Cintia Mayumi

Sou o que sou mais a soma de tudo aquilo que gostaria de ser.
Abranjo o infinito de todas as coisas que quero e não quero.
O que me define?
A intensa vontade de ser.
O que me restringe?
A instantaneidade do tempo.
O que me aflige?
A vida que poderia ser e não foi.
Não.
A vida que poderia ser e não é.
Não.
As vidas que nunca serão.

O tempo passa, cada instante contém mil possiblidades.
Ser ou não ser, dois caminhos.
Ser tudo, ser o que sou e não sou.
Ser todo um universo.
Ser uma possibilidade.

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Da ponta do lápis

Algo em minhas fibras me diz que não sou daqui. Uma sensação de falta, certa ausência em meus contornos, como se eu tivesse sido amputado de algo maior; algum galho, quem sabe um tronco.

Bobagem minha talvez. Será essa forma diminuta, cilíndrica, que em nada se parece com uma cerejeira ou eucalipto, a dimensão do meu ser, o corpo da minha psique? Terei sido outra coisa antes de ser eu mesmo? Até quando serei o que sou? Se tirassem de mim a grafita, ainda assim permaneceria? Ou será ela o núcleo da minha consciência?

Quando me apontaram pela primeira vez, temi, sem saber ao certo o que temia. Gastaram-me a grafita, apontaram-me mais uma vez. E outra e outra vez. Sofri, mas resisti, sendo se não mais o mesmo, mas ainda assim de algum modo ainda eu.

Por sofisticação ou desleito, apontaram-me a outra extremidade, causando-me o mesmo incômodo, mas uma nova preocupação: eu, que já não era galho ou tronco, já não era mais o mesmo de uma, duas semanas. Mas ainda era algo ciente ou pretensamente ciente do que era. Se continuarem me gastando a grafita, se continuarem me apontando, e sim farão isso, até quando permanecerei? Haverá uma nova consciência, um saber das raspas; de algum modo ainda serei?

A dialética da existência

Vitor Henrique

A existência é deveras uma dialética. Fundamentalmente ela é ser e sua negação, portanto, em um sentido mais amplo, se viver é sua afirmação, a morte é sua negação. Entretanto, não há vida sem morte nem morte sem vida, então viver cada minuto é morrer cada minuto e desejar a vida em sua maior plenitude é saborear a morte em toda sua grandeza.

Se vivemos cada minuto, morremos cada minuto; ambos os fenômenos são a alma, a grande essência da existência. A afixação humana pelo desconhecido da morte, porém, lhe causa tanto temor que não percebemos sua representação em todos os momentos. O oxigênio, necessário para gerar energia em nossas células, também causa o envelhecimento e a morte das mesmas. Quando um animal foge desesperadamente de seu predador, seu apego à vida e à manutenção da mesma aumenta proporcionalmente à diminuição da distância entre ele e seu carrasco. Portanto, a vida em toda sua plenitude é nada mais que sua própria negação. Não é para menos que nas filosofias e costumes orientais aqueles que detêm maior experiência de vida são os idosos, aqueles que estão mais próximos da morte. E aqueles que possuem e atingem essa plenitude mais cedo padecem, também, prematuramente.

A morte é ensinada como nossa única certeza e nosso maior mistério. Porém, não há mistério algum. Provamos dela a cada respiração, a cada momento que desgasta o corpo e a cada pensamento que desgasta a mente, ou seja, tudo que fazemos implica a criação de algo em detrimento de outro – é como se a vida fosse nosso crédito e a morte a nossa fatura. Logo, se para toda atividade há um desgaste, é necessário um período de inanimação, esse período é o sono, que se configura como uma morte momentânea. Portanto é com muito acerto que se afirma que a morte é o descanso eterno. Então configura-se como uma estupidez dizer que da morte nada se saber, pois ela nos acompanha todas as noites – já aqueles que não dormem, não abdicando de si mesmos momentaneamente, quebram a ordem natural das coisas e são devastados pela loucura. Só não vê a morte no mundo aquele que não quer ver, só não relaciona sua intimidade com a vida aquele que é tolo, e aquele que a vê como um castigo é escravo do próprio medo.

Portanto, vida e morte são duas irmãs que andam de mãos dadas na mais perfeita sincronia. E a existência é deveras uma fênix que precisa negar-se para nascer mais reluzente. Aqueles, entretanto, que só enxergam na fênix sua luz, não a entendem, pois para entendê-la devem enxergá-la como a mais perfeita metáfora da existência.