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Um homem

Giulia G.S.A.

      Ele via uma carranca se formando no rosto a sua frente. Os traços másculos estavam opacos por causa do sofrimento. Tanta coisa havia passado e agora ele se encontrava ali.

     Vê o sofrimento em seus olhos. Vê seu orgulho sendo ferido quando não consegue realizar o que promete. Vê que por trás desse disfarce há um homem amoroso; que apesar de tudo, não está satisfeito. É ele que está ao seu lado quando não há ninguém, quando tudo parece cair, quando não há salvação.  É ele quem acha as verdades por trás de suas mentiras, que consegue ver seu passado e suas cicatrizes. “Droga, você está parecido com seu pai!” Sua casa sendo construída sem amor e depois consumida pelo rancor. A infância solitária e dolorosa. E aqui se encontram novamente, conversando um com o outro, como se a imagem refletida pelo espelho fosse uma outra pessoa.

Outro dia

Deixaram outro dia aqui no blog anonimamente o seguinte poema:

Outro Dia

Nasço dos restos da última aurora,
Sinto o seu aroma leve e macio…
Talvez com um pouco de novo brio,
Quiçá tendo a languidez ido embora…

Vivo bebendo perfumes agora;
Sentindo calor no mais rijo frio,
Ou volvendo a ser lúgubre e sombrio
Como tanto já fui, porém outrora.

Morro de minha alma envenenado…
Sendo triste, ou com assaz alegria;
Em nada crendo, ou sonhando num fado…

Mas não morri, vivo mais que vivia,
E renasço com sombras no passado,
E renasço na aurora de outro dia.

***
Demorou um pouco, mas consegui um tempinho para lê-lo com a devida atenção. Meus comentários encontram-se logo abaixo:
***
Caro anônimo [Paulo?] Pantaleão,
 
Começarei por uma análise formal do seu poema:
 
Outro Dia

1 – Nas/ço/ dos/ res/tos/ da/ úl(7)/ti/ma au/ro(10)/ra,
2 – Sin/to o/ seu/ a/ro/ma/ le(7)/ve e/ ma/ci(10)/o…
3 – Tal/vez/ com/ um/ pou(5)/co/ de/ no/vo/ bri(10)/o,*
4 – Qui/çá/ ten/do a/ lan/gui/dez(7)/ i/do em/bo(10)/ra…

5 – Vi/vo/ be/ben/do/ per/fu(7)/mes/ a/go(10)/ra;
6 – Sen/tin/do/ ca/lor/ no/ mais(7)/ ri/jo/ fri(10)/o,
7 – Ou/ vol/ven/do a/ ser/ (6)/gu/bre e/ som/bri(10)/o
8 – Co/mo/ tan/to/ (5)/ fui/, po/rém(8)/ ou/tro(10)/ra.

9 – Mo/rro/ de/ mi/nha al(5)/ma/ en(7)/ve/ne/na(10)/do…*
10 – Sen/do/ tris/te, ou/ com/ a/ssaz(7)/ a/le/gri(10)/a;
11 – Em/ na/da/ cren/do, ou/ so/nhan(7)/do/ num/ fa(10)/do…

12 – Mas/ não/ mo/rri/, vi/vo/ mais(7)/ que/ vi/vi(10)/a,
13 – E/ re/nas/ço/ com/ som(6)/bras/ no/ pa/ssa(10)/do,
14 – E/ re/nas/ço/ na au/ro(6)/ra/ de ou/tro/ di(10)/a
.
 
Imagino que você buscou decassílabos com pés predominantes na sétima sílaba (não digo sáficos, pois não houve posição fixa para a primeira cesão). No entanto, em seis versos não vejo esse ritmo – num outro (o nono) a sétima sílaba está numa, chamemos assim, pretônica (saída esta de que eu gosto). Deixemos minha hipótese rítmica de lado.
 
Com ou sem pé, é claro notar a busca pelos decassílabos. Acho, porém, que dois versos ficaram meio forçados. No terceiro, a pronúncia sugere-me uma elisão a mais:
 
Tal/vez/ com um/ pou/co/ de/ no/vo/ bri(9)/o,* > com um = “cum”
  
Mas nós dois sabemos que nem todo poeta faz uso disso. Vamos ao outro verso, então, no qual também vejo a necessidade de uma elisão a mais:
  
Mo/rro/ de/ mi/nha al/ma en/ve/ne/na(9)/do…*
  
Quanto ao ritmo, o que tenho a dizer é isso e isto: é bom ver sua preocupação métrica (quem se arrisca num soneto não é, em hipótese alguma, uma pessoa acomodada). Mas acho que você poderá evoluir bastante sendo ainda mais rigoroso com a sonoridade. Gostaria de ver um poema seu com pés rígidos. Será que essa proposta lhe agrada? Não a veja como ofensa ou desfeita, por favor. Estou escrevendo o comentário com o carinho atencioso de quem imagina que o autor deseja muito uma análise rigorosa em vez de afago na cabeça.
  
Agora vou ao sentido:
  
A primeira estrofe indica elementos de transição (nasço, aurora, novo brio, ido embora) trabalhados com um interessante tom dramático (restos, última), lembrando certos poemas simbolistas que privilegiam substantivos abstratos (aroma, brio, languidez) e aqueles concretos que não conseguimos tocar (aurora); a efemeridade faz-se ver. E vê-se também uma transformação sendo sugerida – daí a importância do “talvez” e do “quiçá” – sem eles a segunda estrofe não seria muito convincente.
 
Falando nela, a segunda começa trazendo duas personalidades marcando o eu lírico: de um lado as cores fortes e vivas de quem bebe perfumes e sente calor no mais rijo frio (recado a meus alunos do sexto ano que por ventura estão lendo essa análise: esse tipo de idealização ou exagero serve para indicar que a personagem possui uma força interior maior do que aquelas do universo no qual ela está inserida; trata-se de um forte e belo apelo à capacidade individual), do outro o tom sombrio que ameaça voltar (outro recado a meus mais jovens alunos: já aqui vemos o contrário. O universo ao redor da personagem é extremamente forte e ameaçador, quase uma personificação das sombras.)
 
A terceira estrofe começa com uma forte tensão: a força negativa que ameaça a “saúde” do eu lírico é chamada de sua própria “alma”. Qual será a natureza humana, se é que temos uma? Deixando Sartre de lado, por ora, acompanhemos o desenvolvimento da questão: o dois versos seguintes esticam a antítese anunciada no parágrafo anterior. Ao leitor fica a pergunta: quem vencerá? O corpo, que está sendo envenenado, ou a alma, que envenena?
 
O desfecho, no parágrafo final, evita com sabedoria uma conclusão simplista e homogênea. O eu mostra-se vivo, mas estar vivo não significa aquela coisa de final de novela ou conto de fadas, em que todos ficam felizes para sempre, perfeitos, prontos, engessados. O renascer, o dia de amanhã, é marcado tanto por nossas sombras quanto por nossas luzes. “A penumbra guarda um estético segredo…”
p.s.: esqueci-me de comentar as rimas:  fico feliz por ver que você tenha evitado o uso de rimas pobres, de mesma classe gramatical.