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A noite já havia começado há horas…

Tiago M. F. (aluno do 9ºEF)

   A noite já havia começado há horas. Era uma noite como qualquer outra, de qualquer dia, de qualquer estação do ano, a frieza da escuridão tornava aquele pequeno cemitério no mio do campo uma fonte de medo e desespero. Terras já conhecidas e desfrutadas por mim havia muitas décadas, tudo parecia ocorrer natural e instintivamente, como a Mãe Natureza diria que deveria ser. Eu não poderia dizer, já que minha natureza se resumia àquele cemitério. Mas os anos apontaram que o planeta em que vivemos é uma esfera imensa, muito além do pouco que sei. Eu posso citar com clareza qualquer coisa que já havia acontecido naquele medonho parque mortífero, porém justamente nessa fria e desconfortável noite de outono, ocorreu algo de que com certeza não me esquecerei: um jovem, aparentemente um estudante bem sucedido, contradizia sua aparência respeitável pulando a cerca metálica do cemitério, logo ao meu lado, sem muita dificuldade. Ele se aproximou de um pequeno e insignificante túmulo que apenas apresentava uma lápide. Vi que seu estado emocional se modificou ao ler atento e silenciosamente o que estava escrito na sepultura da pessoa enterrada. Ele caiu em lágrimas, se agarrando à terra como se aquilo fosse trazer a morta (talvez sua amada) de volta à vida.

   Enquanto aquele jovem se ajoelhava no meio de tantos mortos, fiquei naquele intervalo de tempo ponderando o porquê daquela situação. Pessoas de sua idade eram menos frequentes em visitas rotineiras, o que me sugeriu que perdera uma pessoa amada em hora que, de certa forma, julgara incorreta. Apesar de a cena já ter sido, inicialmente, incomum, o que se seguiu foi ainda mais surpreendente do que uma visita noturna não permitida: o garoto retirou uma pequena pá de sua mochila e energicamente começou a cavar aquela terra fertilizada pelos restos dos mortos. Como se houvesse entrado em uma estória de terror, o vento violento que levantava as folhas que cobriam o gramado cessou subitamente, ao mesmo tempo em que o homem havia agora atingido o caixão que impulsivamente procurava.

   Em um reflexo quase involuntário, ele tirou o caixão do buraco com um movimento uniforme, pulando para fora logo em seguida. Mesmo com a minha experiência, nunca tive certeza do porquê de as pessoas enterrarem seus falecidos amados. Porém, de qualquer forma entendia que a fé era um superpoder oculto nas vidas humanas, o que as leva a fazer qualquer coisa.

   Voltando a atenção para o que se passava entre os dois corpos, separados um do outro pelo mesmo laço que separa a vida da morte, notei que o rapaz já não chorava nem parecia expressar sentimento algum. Lentamente, ele chegou à sua mochila e retirou um pequeno frasco de líquido cintilante. Eu não sabia suas intensões, mas imaginei que ele, a esta altura, apenas roubaria o corpo e fugiria dali sem deixar rastros; e a terra deixaria de aprisionar mais um ser infeliz, capturado pela madrasta morte.

   Apesar de isso fazer sentido segundo meu raciocínio, o que se passou foi diferente: o jovem devolveu cuidadosamente o corpo par ao caixão, devolvendo-o à cova. Mas ele não fechou a cova, nem o caixão. Para minha surpresa, entrou no caixão e ao lado de sua suposta amada, começou a enterrar o que pôde novamente de dentro da caixa funerária. Após isso acontecer, veio o grito que cessou o silêncio mórbido da noite. Compreendia o que acabara de ocorrer. Senti pena e ódio, ao mesmo tempo, daquele que acabava de acabar com a própria vida. Jamais saberia sua história e nunca entenderei sua missão na Terra. Mesmo porque, na minha condição, jamais conhecerei nenhuma história ou entenderei nenhuma vida senão as minhas próprias. O tempo me consumiria e consumiria tudo da mesma maneira como consumiu aquele rapaz. E não havia nada que eu pudesse fazer.

Sombra

Caroline Carvalho

 Neste mundo, seja aquela presença em quartos escuros, os barulhos em salas vazias, ou os súbitos movimentos ao canto dos olhos, habitam monstros. Criaturas das trevas, seus corpos nada além da vazia inexistência, que se escondem na escuridão. A essas criaturas damos o nome de Sombras.

 Há contos que remetem ao início dos tempos, quando a luz reinava sobre o planeta. Mesmo neste começo da história, as Sombras existiam, incapazes de interferir devido à falta de um corpo físico. Por muito tempo, os seres apenas existiam, sem oportunidade de agir. Mas esta situação mudou quando uma nova criatura surgiu. Os humanos, puros e bons, possuíam o poder de atuar na realidade que as Sombras tanto invejavam. Mas os humanos eram tolos e influenciáveis. Os seres do mal, amargurados pelos séculos de exílio, se aproveitaram da condição da humanidade. Lentamente a consumindo, sussurrando o ódio e a negatividade, as Sombras moldaram um mundo no qual poderiam agir livremente, por meio das ações humanas, um mundo dominado pelo medo. Mas os humanos, em sua ignorância, não percebem que estão sendo manipulados, e continuam agindo pelo que acham que é vontade própria. Ignorando as vozes. Ignorando os movimentos incorpóreos. Sem saber que estão sendo guiados, e não seguidos.

a leve garota do salão

Carolina A.

 Adentrei àquele enorme salão observando a tudo e a todos ao meu redor. De longe avistei a garota mais graciosa que já havia visto em toda minha curta vida. Ela não aparentava ter mais de 18 anos. Era leve. De olhos fechados, parecia sentir a música jogando os braços para cima e balançando os quadris em seu ritmo. Estava tão tranquila que não sentia os olhares que atraía; muitos outros garotos também estavam ali. Famintos. Foi a única palavra que encontrei para descrever os olhares que recaiam sobre ela. Suas amigas se divertiam ao seu lado, me fazendo perceber que ela estava totalmente desligada do mundo. Muitas meninas tentavam copiar o que ela fazia, mas nenhuma conseguia. A graciosidade com que ela se movia era única. A roupa que trajava, uma discreta saia preta até um pouco acima dos joelhos, a blusa rosa larga que ultrapassava por pouco a altura dos quadris e o sapato baixo prateado a deixavam não vulgar, como as outras, mas elegante. Os longos cabelos loiros balançavam em suas costas deixando-a ainda mais singular. Eu me escondi na penumbra, observando-a de longe. Meus amigos sumiram. Todos sumiram. Eu estava só.

Um cara visivelmente bêbado se aproximou dela. Ela tentou se esquivar uma, duas, três, quatro vezes, mas ele não se deu por vencido. Eu saí de meu esconderijo, aproximando-me deles. Fiquei feliz em perceber que o malandro era quase metade do meu tamanho. “Vá” disse ela firmemente para ele. Eu cheguei mais perto e me coloquei entre os dois. Olhando para cima, ele se assustou e foi embora tropeçado em seus próprios pés.

“Obrigada”, ela sussurrou para mim. A garota começou a se afastar, mas algo em seus olhos sugeriam outras vontades. Toquei seu braço de leve e perguntei se ela não gostaria de tomar algo. Obtive um grande sorriso em resposta. Nós caminhamos até o bar e lá ficamos por algum tempo até resolvermos voltar para a pista. Pude conhecê-la um pouco melhor. Luisa era seu nome. Tinha, como pensei, 18 anos. Desta vez não só a observei como também fiz parte da graciosidade com que ela se movia. Muito tempo passamos ali até que meus amigos reapareceram, dizendo que estavam indo embora. As amigas dela chegaram, segundos depois, dizendo a mesma coisa. Fui me despedir dela com um abraço, mas acabei roçando meus lábios no seu rosto. Quase trocamos um selinho. Foi instintivo. Eu estava pronto para me afastar e pedir desculpas quando ela levou as duas mãos para o meu rosto dando continuidade aquele beijo. O primeiro de muitos. Pois eram aqueles lábios os quais eu iria beijar por toda a minha vida, e nunca iria me cansar.

O jovem apaixonado – tema de redação

Propósitos da atividade:

Escrita criativa; articulação do ponto de vista, listagem, percepção sensorial, figuras de linguagem.

História base:

Por volta das 23h45, um jovem romântico de vinte e alguns anos está no cemitério visitando a amada
recém-falecida. Você observa a cena e relatará seu ponto de vista sobre a situação. No final da história, o jovem começará a cavar a sepultura onde ela fora enterrada.

Tarefa:

Recrie a história, a partir de um ponto de vista diferente.

 

Foco Narrativo

Narrador

Especificações

Poderes / Perspectiva

Coveiro

Novato

Jovem

Convívio com a morte

Experiente

Meia idade

Estudante 

Compromissado

 

 

 O estudante teve de cortar caminho pelo cemitério para chegar à pensão no horário correto.

Festeiro

Bêbado

 

 

Ebriedade; sentidos e raciocínio confusos

Corvo

 

 

Voo; visão do alto

Árvore

Carvalho [Adequação]

Jabuticabeira [Inadequação]

Memória; alimenta-se de defuntos.

Defunta

 

 

 

Abordagem

Repúdio

Distanciamento

Análise filosófica

Linguagem formal

Humor

Identificação

Proximidade

Análise social

Linguagem informal

Drama

 

 

 

 

 

Técnicas

Metonímia

Personificação

Antítese

Sinestesia

Aliteração

Metáfora

Gradação

Paradoxo

Perífrase

Assonância

Ironia

Hipérbole

Clímax

Anticlímax

Eufemismo

Discurso indireto livre

 

 

 

 

Recursos sensoriais

Olfato

Tato

Paladar

Audição

Visão

Doce, ácido, salgado, amargo, ardido, odor, aromático, balsâmico, cheirar, inspirar, inalar, sorver, exalar, emanar, essência, extrato, vapor, inodoro,
perfume, eflúvio, farejar, fedor, fartum, bafo, chulé, pútrido etc.

Apalpar, tocar, tatear, relar, ter olhos na ponta dos dedos, sentir, esfregar, quente, morno, abafado, fresco, frio, gélido, úmido, seco, ardor, comichão, coceira, tangível, intangível, seboso, oleoso, suar, bolor etc.

Doce, ácido, salgado, amargo, frutado, papila gustativa, língua, dente, céu da boca, provar, petiscar, morder, lamber, saborear, lamber os beiços, cravar os dentes, insipidez, insosso, brando, pífio, tédio, picante, defumado,
condimentado, regalo, iguaria, ranço etc.

Tímpano, martelo, caixa acústica, labirinto, fonoaudiólogo, ouvir, escutar, pressentir, dar ouvidos a, ensurdecer, audível, inaudível etc.

Ver, olhar, namorar, espreitar, examinar, inspecionar, mirar, de relance, observação, reconhecimento, espionar, campo de visão, foco, turvo, desfocado,
vista do alto, periscópio, retina, pupila, miopia, estigmatismo, hipermetropia,
cores, luz, sombra, penumbra, gradação, matizes etc.

 

 

 

 

 

 

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Periféricos caianos

Ao corrigir a tarefa de um aluno meu, o Caio, deparei-me com um periférico* muito bem trabalhado. Ele se assemelhava a um conto de fadas, mas tinha um quê meio non sense que lembrava os koans orientais. Por falta de nome melhor (periférico narrativo é muito pouco, periférico filosófico seria muito genérico), resolvi denominá-lo de periférico “caiano”. E, numa homenagem do tamanho que posso alcançar, resolvi fazer meus próprios periféricos caianos. Conseguir montar uma aula com base naquilo que meus alunos criaram / desenvolveram é certamente um dos privilégios da minha profissão.

Obs.: 

* Infelizmente, esqueci-me de tirar uma cópia do texto antes de devolver o caderno ao aluno. Caso ele me envie o texto, colocá-lo-ei aqui com todo prazer. 

* Para quem não sabe, chamamos de periférico o trecho inicial de uma introdução (de texto dissertativo), o qual se caracteriza por não remeter imediatamente ao tema. Um exemplo, em vermelho:

De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.
Travessias (Michell Lee) – [Texto completo aqui]

* Quanto mais inusitado o periférico, maior a chance de o texto se distinguir. Mas também maior será a dificuldade de mantê-lo coerente e coeso.

E agora, com vocês, os periféricos caianos:

Exemplo 1:

Como se fosse um sonho, o boneco de madeira ganha vida, movimentos, curiosidade. Passa a perambular de um lado para o outro em busca de aventuras e descobertas. Mas não, não é ele o personagem mais importante dessa famosa história. Gepeto, o velho sábio e solitário, simboliza perfeitamente as frustrações daqueles que anseiam uma vida simples ao lado de seus pares. No entanto, não há como escapar: são ímpares e complexos.

 Exemplo 2:

Depois de traçado um longo e sinuoso caminho, apagado suas pegadas, eliminado qualquer pista que revelasse seu percurso, o eremita enfim alcançava a paz. Finalmente, ele poderia descansar, sabendo que ninguém o encontraria. Ninguém poderia retirá-lo daquele esconderijo tão bem calculado. Agora ele estava só, sem ninguém para incomodá-lo, e sem ninguém para protegê-lo do maior perigo que ele poderia encontrar.

 Exemplo 3:

“Era uma vez…” um sem número de histórias encantadoras, repletas de magia, enigmas, desafios – mas todas elas com o mesmo previsível final feliz. Dizer que se trata de um clichê seria apenas outro clichê. É importante compreender que nem sempre foi assim e, acima de tudo, é fundamental entender as razões que levaram esse tipo de desfecho a fazer tanto sucesso.

[…] “E eles viveram felizes para sempre…”, pois precisávamos acreditar que esse tipo de história era possível.

Exemplo 4:

Ela olhou para o espelho e viu inúmeras pessoas, mas não conseguiu ver si própria.

 Exemplo 5:

Já há muito ele havia passado dos trinta. Uma carreira séria, sólida e congruente. Depois de uma longa reunião, foi levado a uma cafeteria sem tanto requinte, mas de bom gosto – lhe disseram. Pediu um café simples, visto que se tratava mais de um costume do que de um prazer. Mas foi só aproximar a xícara dos lábios que ele sentiu um antigo aroma invadir seu cérebro e se lembrou da infância, da época em que não precisava se esforçar para parecer uma pessoa realizada.

 Exemplo 6:

Viver é como andar de bicicleta. A regra para se evitar o tombo não é buscar um ponto de equilíbrio, algo que nos mantenha estáticos, livres de qualquer instabilidade. Os veículos incitam o movimento. E mover-se é a arte de buscar, instante após instante, um novo ponto de equilíbrio, tão efêmero quanto o anterior. Afinal, viver – assim como andar de bicicleta – é a arte de equilibrar-se em constante desequilíbrio.

***

P.S.: Como dito em sala. Caso alguém queira desenvolver qualquer um dos exemplos acima, por favor, sinta-se à vontade.

Diversão e divergências

(Antes que você se assuste, deixe-me explicar  a dissertação abaixo. Trata-se de um exercício de interpretação de texto que eu  desenvolvi para meus alunos do ensino médio.  Há aqui inúmeros erros [não necessariamente de gramática] que comprometem – e muito – a qualidade do texto. Caso você sinta curiosidade em ler um texto ruim – nem que seja apenas para descobrir os erros – que, como você já percebeu, também já começaram a aparecer aqui, nesta introdução -, por favor, sinta-se em casa e fique à vontade). Desta vez é de graça.

 

A lousa, amplamente preenchida com setas coloridas e notas de rodapé, parecia a de um físico; na sala ao lado, o professor contextualiza o final do século XVII com a precisão e o encanto de um historiador. Mas não era um físico ou um historiador. Era um historiador e um físico. Na escola interdisciplinar é assim, sem disciplinas fixas, que as aulas são dadas.

Pode parecer novidade – e é – mas não é. Na Renascença era comum encontrarmos estudiosos múltiplos e polivalentes. Da Vinci, por exemplo, foi pintor, escultor, desenhista e inventor. Michelangelo foi desenhista, escultor e pintor. William Blake foi poeta, tipógrafo e pintor. O intelectual especialista é uma criação recente – e nada romântica.

Foi com o advento da revolução industrial que se criou a necessidade de se treinarem especialistas. No começo do século XX, as linhas de montagem desenvolvidas por Henry Ford, de acordo com o filósofo Karl Marx, causaram a alienação no trabalho. Se até então o trabalho estimulava o desenvolvimento cultural, a partir dali ele passou a escravizar o homem.

A interdisciplinaridade, não à toa, possui um papel fundamental, quando pensamos no seu papel histórico. Preparar professores que consigam dialogar com competência disciplinas diversas será o grande diferencial neste início de século. Isso demandará um investimento de proporções, mas cujos resultados serão ainda mais exponenciais. A Nova Renascença está por renascer.

 

perfume que por tanto tempo acariciei…

   É errado sentir orgulho por feitos dos outros, mas – quer saber? – certo ou errado, a verdade é que eu sinto um imenso orgulho por poder compartilhar este texto da Mel, aquela criatura linda que desde o Furumbelo sempre aparece com brilho próprio nos filmes que faço com meus alunos. A conheço tanto e há tanto tempo que não teria como eu atenuar minha felicidade ao ver nascer dela esta bela narrativa que ela produziu numa oficina de texto que eu coordenei algumas semanas atrás.

 Deixo o texto aqui em duas versões: a limpa, o texto em si, e a suja, com algumas notas de rodapé.

 Aproveite. 🙂

 P.S.:  Como ela me entregou o texto sem título, decidi por colocar um provisório que estará aqui até ela me dar um definitivo.

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros, mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei. Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…


 

* * *

Leitura comentada:

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.[1]

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros,[2] mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.[3]

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.[4]

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei.[5] Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.[6]

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…

 


[1] O texto começa invadido por diversas nuanças de sombra e penumbra, sejam elas mais físicas (“breu”, “mármore gélido”, “sem esperança de aurora”, “cama negra”) ou psicológicas (“não conhecia”, “Solitária de mim”, “eu não sabia”). O tom é sombrio também pelos elementos que sugerem anulação (“não” [três vezes], “sem”, “negra”, “Solitária” “falta”). Essa escolha vocabular evidencia uma harmonia semântica muito importante para entendermos o porquê de o texto não possuir uma dicção narrativa fluida. Ou melhor: a fluência do texto não pode ser medida em termos de velocidade. Aqui, o intuito dessa aparente lentidão é dar um toque poético e onírico à narrativa. Exemplo dessa proposta é a expressão “solitária de mim”, a qual se localiza num meio termo entre o paradoxal e o depressivo.

[2] Assim como no texto da Natália, aqui também temos uma sinestesia muito bem escolhida. A audição cria imagens visuais no cérebro da narradora, evidenciando o poder imagético das palavras, não só no plano da história, mas também no plano da narração.

[3] Aqui ficamos sabendo que a narradora é uma defunta. Além disso sabemos que ela não se comove com as palavras que pouco a pouco chegam a seus ouvidos.

[4] O terceiro parágrafo, calculando devidamente a progressão narrativa, apresenta uma mudança de postura, ainda que essa mudança seja “justificada” por um elemento externo, a movimentação da terra ao redor da sepultura. Essa justificativa tem de ser compreendida em toda sua ambiguidade, afinal é a terra que move o coração da narradora ou é seu coração que move a terra?

[5] Temos aqui uma sinestesia de muita sensualidade e bom gosto.

[6] O “turning-point” não poderia ser mais bonito. Acredito que a maior parte dos leitores está torcendo para que a narradora deixe esse sentimento renascer. Por ora, deixarei você se deliciar sozinho com o restante do texto. Aproveite-o.

…pedras amontoadas por todo terreno escuro.

 

Natália Calciolari

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro. Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor. A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de
tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

* * *

Leitura comentada:

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro.[1] Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.[2]

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor.[3] A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.[4]

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

 

 


 

[1]
A expressão “cair em mim” não é exatamente um sinônimo de acordar. O cair, sugerindo uma espécie de tombo (imagem essa que será usada mais adiante), expressa certo desconforto (físico e mental, como também veremos a seguir). As “pedras amontoadas” também sugerem desconforto. Essa mistura de elementos concretos e abstratos sugerindo adversidades é fundamental para o clima do texto.

[2]
Temos aqui dois movimentos concomitantes. O primeiro é o da consciência tentando, mas não conseguindo, acessar a memória. Se entendermos isso como ato falho, podemos supor que o narrador tem problemas relacionados não só com a memória recente, mas também com a distante (coisa que irá se confirmar logo mais). Já o segundo movimento é a insistência de o narrador sentir-se jovem, apesar de seu corpo não dizer mais o mesmo. Considerando que ele está embriagado no momento da narração e considerando que álcool não é um alimento propício a quem quer se manter com o corpo jovem e saudável, talvez nem ele mesmo acredite na sua suposta juventude. Essa decepção com o próprio eu talvez seja uma das causas da sua embriaguez – mas certamente não será a única.

[3]
Há aqui um saboroso oximoro. Há duas formas de estarmos surdos: pelo excesso e pela ausência de sons. O tom onírico, verbalizado no último período do texto, já está sendo sugerido aqui.

[4]
Dizer que há aqui uma sinestesia é pouco. Muito pouco. Interessante será analisar o modo como ela é usada para, então, usufruirmos as notas de seu paladar delicado. Ao espreitar “gritos de lamentação”, a autora não está apenas deixando o texto bonito, mas fazendo com que o narrador crie uma identificação visual com a expressão quase animalesca do jovem apaixonado que está entrando em cena. Mais do que uma sutileza quase cinematográfica, o que temos aqui é uma passagem daquelas que a gente mesmo gostaria de ter escrito.

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