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Introduzindo-se

Estou compartilhando três introduções feitas por minhas alunas (havia outros bons exemplos, mas me limitei a uma amostra de apenas três mesmo). Inseri umas notas de rodapé para o caso de algum aluno tentar entender o que eu vi de bom em cada um desses textos. Usufrua como lhe aprouver.

Tema: a relação entre piada e preconceito.

Caroline C.

Estamos sempre ouvindo piadas de vários tipos. Seja na internet ou em conversas entre amigos, muitas pessoas estão se aproveitando de mal-entendidos e trocadilhos, formando um texto humorístico com a finalidade de produzir risadas.[1] No entanto,[2] é importante compreender a diferença entre a piada e o preconceito, pois há uma fina linha[3] entre a brincadeira e a ofensa a um grupo específico de pessoas.

Nádia I.

A relação entre a piada e o preconceito é um assunto bastante polêmico e que vale a pena ser discutido.[4] Muitas pesquisas[5] dizem que as piadas atualmente[6] estão ficando cada vez mais preconceituosas e rudes, zombando de estereótipos e de problema físicos. No entanto, se analisarmos melhor,[7] vemos que esse tipo de pensamento possui algumas falhas que podem causar sérios danos à sociedade.[8]

Melissa K.

Imagine duas crianças, rindo e contando piadas para passar o tempo.[9] Em sua inocência, acabam repetindo todas aquelas histórias contadas sobre loiras e portugueses. Desde pequenos, estamos acostumados a ouvir esse tipo de coisa e achar graça. A repetição da personagem[10] nos faz lembrar de outras piadas que ouvimos anteriormente e que nos fazem rir. Até certo ponto, acaba realmente sendo engraçado.[11] Mas chega uma hora em que isso se torna preconceito.[12] [13]

 


[1] Ambientação eficiente. O primeiro período, curto, leva o leitor com rapidez ao assunto (piada). O segundo período, valendo-se de um pequeno desdobramento, contribui para que o leitor entre no clima.

[2] O terceiro período começa com uma problematização: a piada, fonte de humor e risadas, pode ser usada para fins não elogiáveis. O trecho explicativo (iniciado pelo “pois”) parece antecipar uma das discussões que serão desenvolvidas no decorrer do texto.

[3] Sugestão do meu amigo Thiago, professor de matemática (é isso mesmo): se trocarmos “fina linha” por “linha tênue”, a imagem pretendida pela autora (que já era boa) se torna ainda mais adequada, pois intensifica a dificuldade de percebermos se a brincadeira é somente isso, uma brincadeira, ou se ela se tornou uma espécie de agressão.

[4] O primeiro período é dos mais incisivos. Além de apresentar o tema (relação entre piada e preconceito), utiliza-se de mecanismos linguísticos para atrair a atenção e o interesse do leitor (o adjetivo “polêmico” indica que o texto precisará analisar um determinado debate; a expressão “vale a pena ser discutido” parece inferir ao tema um tom de urgência – obviamente, no decorrer do texto, será preciso cumprir com a expectativa gerada).

[5] Há um tom meio vago em “Muitas pesquisas”. O ideal seria indicar, de modo específico, que pesquisas são essas. Em todo caso, não está ruim.

[6] A locução verbal “estão ficando” torna o advérbio “atualmente” desnecessário.

[7] Outra expressão escolhida a dedo para impressionar o leitor.

[8] A estrutura lógica deste texto é muito parecida com a do primeiro. A grande virtude, de ambos os textos, talvez seja o pragmatismo: eles não só nos apresentam, de modo claro, o tema, como também inserem questões nas nossas cabeças. No texto da Caroline, a partir de que ponto uma brincadeira se torna uma ofensa? No texto da Nádia, a perspectiva da discussão se inverte. De acordo com ela, talvez haja críticas exageradas aos humoristas. Uma introdução corajosa, sem dúvida alguma, pois uma mão pouco habilidosa poderia ser conivente com um grave problema social. É isso que ela deve evitar ao desenvolver o texto.

[9] Na versão inicial, o primeiro período tinha apenas as três primeiras palavras do texto (troquei o ponto pela vírgula por uma questão gramatical). A sensação imediata que me ocorreu foi “ela sabe o que está fazendo”. De modo geral, períodos curtos podem sugerir ideias superficiais, mas no caso não. Ficou claro para mim que se tratava de uma questão de ritmo. O periférico partiria de um resgate da memória; o texto nos convida a assumir a perspectiva de duas crianças ingênuas, divertindo-se com as piadas que ouviam os adultos contar – sim, sabemos que essa é uma das formas de interação social mais comuns, não só naquele período da vida. O texto consegue nos conduzir ao assunto com uma segurança fora do comum.

[10] Expressão pouco clara. Sinto dificuldades em compreender a ideia que o texto tentou expressar aqui.

[11] Chegamos a 80% da introdução e até agora o que vimos? O texto aborda o assunto (piadas) a partir da nossa memória afetiva, estimulando uma impressão positiva (humor, interação social, saudosismo). De certa forma, pode-se dizer que o leitor foi manipulado a criar uma expectativa favorável ao assunto. No entanto, no último período o “mas” – conjunção adversativa, com o poder de articular uma oposição, um conflito, uma problematização. E é isso que ela faz: por meio de uma frase curta, somos levados ao tema (a relação entre a piada e o preconceito) e a refletir a respeito de algo que nos é tão caro.

[12] Questão de gosto: creio que a tese foi apresentada com um pouco mais de tempero que o necessário. Pouca coisa, fácil de ajustar. Se trocarmos o “se torna” por “pode se tornar”, evitaremos uma generalização que pode prejudicar a agudez do raciocínio. Se substituirmos “preconceito” por uma expressão um pouco mais enigmática, teremos um tom maior de suspense, o que se converte em poder de atração. Vejamos: “Mas chega uma hora em que isso pode se tornar um problema muito sem graça”. Caso a sugestão seja adotada, seria importante que logo no início do segundo parágrafo, fosse usada a palavra-chave “preconceito”. Desse modo, evitaríamos um tom excessivamente vago.

[13] Apesar os – poucos – poréns, trata-se de textos com boa qualidade e ótimo potencial. Além disso vale notar (havia me esquecido de dizer…) que todas elas, a Carol, a Nádia, a Melissa, são alunas do 8ºEF. Se elas continuarem com a pegada, imagine só o ponto ao qual suas redações irão chegar. J

Luzes e afins

 Caso alguém queira escrever algo sobre o assunto, mas estava sem inspiração, o Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, vem bem a calhar. Vamos dar uma olhada num excerto – adaptado conforme minha imaginação e inconveniência:

Luz, raio, clarão, lampejo, relâmpago, claridade, lucidez, vida, velocidade, disparo, feixe, aurora, bonança, luar, brilho, neblina, cintilação, radiação, irradiar, transbordar, exceder, brilhantismo, nitidez, fogo, faísca, imaginação, desejo, sobriedade, fagulha, chispa, branco, cal, gelo, água, lago, areia, estrela, sol, incêndio, chama, fogo-fátuo, diamante, pedra, lente, óculos, olhos, olhar, câmera, diafragma, fotografia, ouro, prata, laser, halo, glória, auréola, resplendor, espelho, refração, reflexo, dispersão, alumiar, arco-íris, fogos, ano novo, noite de são joão, fogueira, vaga-lume, pirilampo, íris, raiar; mas também: escuridão, cegar, ofuscar, penumbra, sombra, noite, madrugada. E assim vai…

Metonímicas: o homem…

 

– O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe.

 

 

O homem é o lobo do homem.

– Os homens precisam se unir para que as leis e as regras não os transformem em robôs sem alma, coração e poesia.

 

– O Estado precisa ser forte para que a selvageria, o ódio e a violência não se propaguem além do que conseguimos combater.

 

Continua em https://mutuca.wordpress.com/metonimicas/13-o-homem/

Metonímicas: dois novos textos

A quem interessar:

 11 – O homem que não se enxerga.

           Como se fosse invisível, chega à padaria, dá um bom dia mecânico ao atendente, pede na chapa e sem açúcar, e fica ali, fingindo não perceber que todo mundo vê o quanto ele é escroto.

12 – O rato perfeito.

           Era uma vez um homem de muitas opulências e exageros. Ele muito viveu, consumiu prazeres e aprendizados, provou sabores e saberes. Teve muitos filhos; filhos próprios e filhos alheios – não só no mal, quanto no bom sentido. Teve tantos filhos que seus dedos e sua memória não poderiam contar. Viveu muito, sabia que ia morrer, mas não estava triste. Sem saber, no meio de tantas possibilidades, quem das suas crias era mais legítima que a outra, decidiu inventar um jogo para eleger seu herdeiro. Ele adorava jogos.

           Aquele, seja escultor ou músico, que fizesse, poeta ou malabarista, o rato perfeito, ator ou mestre-cuca, ficaria com toda a fortuna. Como cultivava a inteligência e a sagacidade, não restringiu a competição a apenas uma arte. E assim escultores e músicos, poetas e malabaristas, atores e mestres-cucas, todos eles mais os outros se dispuseram a construir o rato perfeito.

[…]

***

           E um, já meio antigo que eu me esqueci de divulgar:

10 – Satori

            Satori não era um computador comum. Por mais que as evoluções tecnológicas dos anos 1990-2020 tenham sido exponencialmente assustadoras, nenhuma outra invenção humana chegou tão longe. Mesmo a enigmática loucura que acometeu seu inventor foi atenuada pela enorme capacidade intelectual de Satori: ele não só se mostrava um exímio matemático e engenheiro (capaz de criar projetos futurísticos que só seriam viáveis meio século depois), como também desenvolveu um forte senso humanitário (coisa que nem século e meio depois seria recebida só com aplausos). Até quem nunca se rendeu à tecnologia admitia que Satori era especial.

            Todas as questões que interessavam aos humanos ele respondeu: a agricultura, a tecnologia, os recursos energéticos não geravam nenhum tipo de problema à população; os tratamentos aos doentes, as políticas públicas, a justiça econômica também não provocavam nenhum estresse nos governantes; tudo ia bem. Nos seus últimos cinco anos de vida pública, Satori recebeu uma espécie de aposentadoria; contrariado, ele ficava numa sala de museu, onde recebia silenciosas visitas de admiradores que talvez balbuciassem algo do outro lado da grossa parede de vidro que o protegia. Ficar ali, sem nada poder ouvir, sem nada poder dizer, deve tê-lo incomodado. Foi então que, dizem, ele começou a escrever o seu diário.

[…]

O camelô e a cidadania

         Semana passada, pedi a meus alunos que fizessem dois textos: uma carta de reclamação, cujo alvo seriam os camelôs; e uma carta-resposta, apresentando o ponto de vista daquele que é acusado. Em ambos os textos, o aluno deveria usar noções de cidadania. A ideia do exercício era trabalhar não só a capacidade imaginativa, mas principalmente fazer com que eles se dessem conta de que certas ideias não devem ser compreendidas como formas estanques, mas sim problematizadas.

         É com alegria que compartilho com vocês estes dois textos da Carolina M. S. A.:

 *          *          *

         São Paulo, 15 de Março de 2013.

          Prezado responsável pelo setor de cartas do jornal O Estado de São Paulo,

          Sou uma estudante de Direito, e gostaria de falar sobre os camelôs que tomam as calçadas da nossa cidade.

        Na frente da minha faculdade, suas barracas tomam a calçada, fazendo com que alguns estudantes andem pela rua, devido ao grande número de pessoas. Os estudantes que andam pela rua se expõem a um risco enorme, maior do que o normal, de serem atropelados.

          Os camelôs podem estar vendendo produtos piratas e as autoridades não fazem nada a respeito.

          Eu gostaria de uma atitude já. Isso não pode continuar.

          Grata pela atenção,

          Maria Clara Alves

 *          *          *

          São Paulo, 18 de Março de 2013.

          Prezado responsável pelo setor de cartas do jornal O Estado de São Paulo,

          Sou um dos camelôs que ficam na frente da escola da senhora Maria Clara, que escreveu uma carta no dia 15 de março, e estou aqui para me defender e também para defender meus colegas.

          Ela disse sobre os riscos de vida que os estudantes correm ao sair na rua, mas não pensou que estou ali para sustentar minha mulher e meu filho. E ela também disse que nós tomamos toda a calçada, o que não é verdade.

          Nossas barracas ocupam um pequeno espaço. O volume de pessoas que é muito grande. Será um crime fazer um bom trabalho e conseguir, dia após dia, uma clientela fiel e satisfeita? Se não me engano, meus clientes também têm o direito de ocupar a rua.

          E por último ela disse que nossos produtos são piratas e as autoridades não fazem nada sobre isso. Então tenho duas perguntas: a senhora já reparou no que nós vendemos? Não são produtos piratas, são pulseiras, colares, anéis, brincos que nós mesmos fazemos. E o que as autoridades poderiam fazer sobre isso? Nada. Não vendemos nada falsificado.

          Ao jornal, obrigado pela atenção.

          João da Silva.

Metonímicas: a experiência de Júlia

          É óbvio que se trata de uma mentira, um exagero. Uma música, principalmente música popular, não é capaz de fazer “o espírito querer escapar do nosso corpo”. Mas, mesmo assim, Júlia decidiu acompanhar seu amigo e ambos foram à acanhada casa noturna que mais parecia um sobrado sem paredes internas. Chegando lá, aceitou, desconfiada, um coquetel de “la fruit de la passion“, acomodou-se numa poltrona de três lugares enquanto uma banda ensaiava uma música agradável, mas nada além disso. Fingiu prestar atenção na música, enquanto matutava o porquê de Flávio tê-la levado àquele lugar. Foi quando o rapaz lhe deu um leve cutucão: entrava em cena um senhor negro, alto e esguio, segurando algum instrumento de sopro. Algo que Júlia não conseguia compreender fez com que o silêncio também se adentrasse no local. As primeiras notas, aguardadas com entusiasmo, pareciam desafinadas, fora de tom, sem harmonia. Mas o curioso é que mesmo assim elas não soavam mal; geravam sim certo incômodo, mas – como dizer? – um incômodo bem-vindo, convidativo, quase sedutor.

Texto completo aqui.