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Leia menos

      Leia menos – é com esse pedido quase suicida que Gerson Santos apresenta seu ambicioso livro de ensaios. Aposta arriscada, visto que livros assim (haverá outros?) pedem textos rápidos e ligeiros que não se percam na pressa ou na superficialidade. A quem o vê pronunciar frases como “muitas vezes gastamos tempo demais com a leitura” e sente uma vontade danada de enforcá-lo, ele pede um pouco de paciência e reflexão. Seria justamente esse o problema: lemos muito, pensamos pouco. Precisamos de tempo para digerir, assimilar, regurgitar se for o caso. A leitura não pode ser passiva. Quando lemos, o advérbio importa mais que o objeto.
     Não por acaso, o livro se divide em dois ensaios curtos. Não por acaso, em Leia mais, a proposta é a mesma. Um bom livro nos exige intimidade; carinho e malícia. Um livro só é bom se lido mais de um vez. Por isso, não espanta saber que a divisão dos ensaios seja quase invisível – não há índice indicando onde termina um e começa o outro. No entanto, a grande sacada estrutural está no insistente uso dos aforismos. Suas frases curtas e provocantes, que ora situam, ora jogam tudo para o alto, forçam-nos a uma leitura atenta e incisiva. Ainda que haja um quê de lugar-comum, é uma leitura prazerosa – eis a vantagem dos livros curtos.

Dos prazeres momentâneos

    Se só existe o presente, passado e futuro seriam meramente recapitulações e projeções – esse é o senso comum pós-moderno que Joca Vieira pretende desafiar. No prefácio de seu livro de estreia, Amendoado, ele propõe que o presente, sem suas descontínuas recaptulações e projeções, tenderia à infértil tautologia chão-chão. Só a abstração nos salva de ser quem fomos, só ela nos permite ser quem seremos.
    A ideia não é nova. Mas Vieira não a pretende original – a originalidade seria um mero deleite estético, tão belo e infrutífero quanto o amor homossexual, para usarmos uma de suas complicadas imagens. O ponto de partida é o pseudo pragmatismo dos livros de auto-ajuda que nas duas últimas décadas parecem ocupar o quinhão de espiritualidade a que precisamos recorrer quando o sucesso não nos quer agarrar. “Antigamente rezávamos em busca de inquietação, agora pedimos conforto e segurança” – diz o poeta, aparentemente acreditando no que diz.
    Quem viu sua entrevista ao Jô, quando se travestiu de vanguardista, exibindo  humor de baixo calão e trocadilhos infames, tomaria um susto ao folhear os poemas. É difícil vislumbrar qualquer preocupação em dialogar com os livros de auto-ajuda – justamente porque os leitores de auto-ajuda não estão acostumados a construções que beiram o surreal – ou o subreal, como ele gosta de dizer. Nesse sentido, o livro surpreende ao oferecer momentos quase aforísticos como “Na coleira do destino” (Mas eu não vi quem o domava) ou em um ou outro epigrama (quase o vi passar/ quando/ o vi voltar).
   Mas por outro lado, Amendoado é uma bela tentativa de deleite estético – não é o fruto que justifica o gozo. Talvez seu jogo seja justamente este: dar as bases para sua própria recusa, como se quisesse nos ensinar a dizer não. Como se o único jeito de conquistar nossa paixão fosse abrindo mão do nosso amor.
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Só,  na sacada vã
em que os pensamentos fingem habitar,
sentia o conforto amplo e passageiro
de ser o que se está; pois é só isso que somos.
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Da importância da alienação

– Deus do céu, como Eça é chato! Que aluno hoje em dia consegue ler A ilustre casa de Ramires sem bocejar um sem número de vezes? E A cidade e as serras, então? Eita historinha manjada… a oposição binária entre viver no campo ou na metrópole cheira a maniqueísmo. Ou ainda aqueles romances pouco convincentes que o Machado fez muito bem em recusar…

– Ei, “pera-lá”! Uma coisa de cada vez. Acho que essas três críticas possuem naturezas diferentes. Vamos analisá-las uma a uma.

– Para mim, todas levam a um mesmo ponto:  é preciso fazer os alunos lerem algo próximo da realidade deles e não essas coisas datadas, envelhecidas e desimportantes.

– Calma, calma. Não é enumerando adjetivações que se expressa uma ideia.

– Novamente você com esse puritanismo apolíneo. Injete um pouco de Dionísio nas veias.

– ‘Tá, daqui a pouco você continua com esses seus aforismos. Deixe-me, primeiramente, entender a questão. Você disse que o Machado recusou os romances do Eça, certo?

– Sim, ele achava a questão central d’O primo Basílio pouco convincente, tudo se resumia a um mero encaixe de acasos. Se a empregada gananciosa e invejosa não tivesse encontrado as cartas, não haveria história.

– Acho que esse resumo não toca na essência da crítica.

– Mas o Machado fez referência a esse episódio chamando-o de “defeito capital”, assim Ipsis litteris, sem tirar nem pôr.

– Sim, mas esse episódio é consequência da falta de personalidade da Luiza, eis o ponto.

– Não sei se o Machado foi tão claro em expor essa tese.

– Talvez por isso mesmo ele tenha voltado ao assunto duas semanas depois. Em todo caso, o que sabemos é que Machado estava bastante preocupado com a consciência das personagens. Talvez, mais importante do que as ações em si sejam o que as motivou. Atentemo-nos à causa, e não apenas aos efeitos.

– Meu amigo, você não percebe que com toda essa pompa argumentativa você acabou se traindo e trazendo mais razões à minha razão?

– Como assim?

– Ora, o meu intuito é desqualificar o Eça. E você está me ajudando.

– Bom, meu intuito não é defender o Eça, mas sim compreender melhor a questão que você me propôs. Em todo caso, a ressalva do Machado não elimina as qualidades do Eça, até porque ele não parou de escrever em 1878; sua literatura não se resume às primeiras obras. Do mesmo modo que não julgamos o Machado somente por aquilo que ele escreveu até este período.

– Mas de que adianta essa afirmação óbvia e redundante? Todo mundo evoluiu, nem que seja na horizontal. Mas de que adianta evoluir para chegar a uma historinha manjada como a de A cidade e as serras?

– Bom, A cidade e as serras é uma novela e não um romance propriamente dito. Assim sendo, é meio esperado que ela não tenha a densidade psicológica de um Dom Casmurro, por exemplo. Mas, por outro lado, eu concordo que as características típicas de um gênero não devam ser uma amarra ao escritor.

– Agora sim você parece me entender. O escritor deve se expandir além dos limites da expectativa.

– É que na minha opinião A cidade e as serras não é um livro tão tímido assim. Alguns críticos estão revendo o papel deste livro. Talvez haja um cinismo bastante sutil. Nunca lhe ocorreu que o narrador,  Zé Fernandes, talvez esteja tirando um barato do Jacinto o tempo todo?

– Ah, “pera-lá”! Você vai cair nessa de ler o Eça como se ele fosse o Machado?

– Bom, ainda que seja uma suposição forçada, ela traz uma nova cara ao texto. Talvez o Eça tenha escutado as dicas do Machado. No mínimo, acho que é uma discussão que vale a pena. Ela até dá mais vida ao livro.

– Uma vida que o próprio livro não tem!

– Não seja chato. Os grandes escritores merecem ser revisitados.

– E quanto a A ilustre casa de Ramires? Que aluno hoje em dia curtiria revisitar esse texto antigo, de uma época antiga, sobre pessoas antigas que não nos dizem respeito?

– Acho que é exatamente esse o ponto. A arte pode fazer com que expandamos nossos horizontes.

– A arte deveria fazer o indivíduo conhecer melhor a sua época, o seu contexto.

– Sim, mas ao mesmo tempo precisamos de outros parâmetros. O outro nos ajuda a conhecer o eu.

– Esse tipo de literatura, que nos leva a outras épocas, outros contextos, é alienante!

– Houve uma época em que o nosso contexto era a placenta. De acordo com seus termos, nascer é uma forma de alienação. Então, viva a alienação!

* * *

O diálogo acima se baseia, entre outras coisas, no seguinte trecho de Gorazde, de Joe Sacco:

… não era uma narração

 Era uma vez um garoto que não morava numa casa de campo, não conversava com sapos e não tinha um velho baú com cartas esquecidas no sótão. Sua casa sequer tinha sótão, ele sequer tinha um bichinho de estimação, mas ele morava numa casa pequena, onde de vez em quando parava para pensar nas coisas.

O quintal, cimentado, não tinha tocas de tatu, vasos de plantas ou tijolos à mostra; nada que revelasse ou desse margem para um devaneio – e como ele gostava dessa palavra. Antes mesmo de conhecer seu signficado, ele a sussurava com deleite, bem baixinho, quase que só pensando, para que ninguém a ouvisse, como se a quisesse só para si. De-va-nei-o…

Ele não ouviu essa palavra de uma garota bonita nem de um garoto amigável, nem de um velho tio-avô desconhecido, nem de um jovem primo aventureiro. Mas mesmo assim ele gostava, como gostava, de sentir aquela palavra. Nunca ninguém lhe explicou o que ela significava. Pouco tempo depois de conhecê-la, ele sentiu que ela lhe era íntima, quase que uma cúmplice, abraçou-se a ela e ficaram amigos.

Como sua casa não tinha bichos, jardim, sótão ou qualquer outra misteriosidade, às vezes ele se deitava no quintal e fica olhando para as nuvens passeando no céu. O curioso é que ele nunca se preocupou em decifrar se as nuvens tinham formato de pessoas ou bichos; satisfazia-se apreciando as texturas, as cores e os contrastes, ora harmônicos ora desarmônicos, que se formavam. Às vezes, escutava o barulho das nuvens (não confunda com o barulho do vento) e se sentia realizado. Certa vez a chuva caiu sobre ele. Foi um dia muito gostoso.