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Sócrates, de perfil

Sócrates foi um filósofo muito controverso. Mesmo tendo vivido numa época muito distante (5 a.C.), mesmo não tendo deixado qualquer tipo de texto escrito, ainda assim sua imagem é extremamente poderosa. Ainda hoje ele é visto como grande símbolo da argumentação, do questionamento – enfim – da liberdade individual. Essa conduta, porém, não costuma ser muito apreciada pelos governantes fortemente arraigados ao status quo que, muitas vezes, eles mesmos instituíram.

Sócrates tinha um – digamos assim – método educacional peculiar. Enquanto os sofistas se destacavam pela hábil oratória, pelo modo como expunham seus saberes, todos eles manjados e, por isso mesmo, inofensivos, Sócrates preferia o diálogo, por meio do qual, ele ouvia os argumentos de seu oponente (os quais muitas vezes representavam o senso comum ateniense) para depois, cuidadosamente, desfiá-los, um a um. Note: Sócrates era uma ameaça por exercer o raciocínio individual, em vez de aceitar passivamente as ideias com que todos concordavam.

Condenado à morte por sua má influência aos jovens cidadãos atenienses (onde já se viu estimular o povo a pensar?!), Sócrates tinha o direito de propor sobre si mesmo uma pena alternativa. Era do interesse dos políticos que ele optasse por uma – vejamos – extradição. Sim, o exílio seria uma ótima opção. Assim os políticos não só conseguiriam mandar o problema para bem longe como também passariam a ser vistos como tolerantes e benevolentes, afinal eles haveriam concedido o perdão ao filósofo; todo mundo ficaria feliz.

 Mas não Sócrates.

Quando chamado para apresentar uma pena alternativa, ele propôs que o povo de Atenas o sustentasse até o fim da vida. Era óbvio que a proposta seria recusada. Aceitá-la seria sublinhar a própria derrota, a qual – note – já estava selada. Sócrates, no seu discurso,  estava antecipando a própria condenação. Sim, ele foi obrigado a tomar cicuta, mas foram seus adversários que engoliram a derrota.