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Duas músicas

Dos diversos filmes que vi semana passada, duas cenas musicais ficaram em minha memória.

Em Pierrot, le fou, há o contraponto entre Marianne e Ferdinand, ambos imersos no clima existencialista, mas cada qual a seu modo. Ela, sonhadora, desejosa de aproveitar a vida, pois esta é breve; ele, pragmático, pois esta é breve: 

Em Dancer in the dark, de Lars Von Trier, encontramos uma protagonista cuja vida vai se tornando mais e mais miserável. Para amenizar sua dor, ela devaneia, sonhando com musicais – que em vez de dar tranquilidade, sublinham uma tensão cada vez maior:

P.S.: Infeliz de quem traduziu “Dancer in the dark” para “Dançando no escuro”, tirando a ênfase da protagonista para dá-la à ação.

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Conversa de botequim

[…]

 – E Pierrot, le fou, de Godard?

– Há nele algo de anárquico. Pensemos, por exemplo, naquela festa burguesa logo no início. As conversas dos convidados são pura propaganda.

– É uma caricatura cujo grotesco é realçado a ponto de suprimir o indivíduo.

– Personagens destituídos de toda e qualquer complexidade, reduzidos ao símbolo.

– Os cavalheiros propagandeiam carros; as damas, desodorantes.

– Por isso é ainda mais surreal o encontro metalinguístico com Samuel Fuller. Ferdinand lhe pergunta o que é o cinema?

– E ele responde: Em poucas palavras, é a emoção.

– Godard ecoaria essa resposta?

– Acho difícil. Parece-me que ele encarna o estereótipo do intelectual francês: racionalista, frio, blassé.

– Enquanto que o cinema norte-americano seria emotivo e grandiloquente? É um tremendo reducionismo.

– Mas ele é incentivado pelo próprio filme. Ferndinand lê um ensaio sobre Velásquez à filha como se fosse uma cantiga de ninar.

– “Velásquez é o pintor da noite…” Como se desde cedo as crianças francesas recebecem uma educação saturnina.

– Por isso a ideia de anarquia. O filme parece uma imensa brincadeira. As cenas da fuga não são nem um pouco verossímeis.


– Nem pretendem ser. A influência do cinema B é muito forte em Godard.

– Discordo. Parece-me não ser o caso de uma relação passiva. Ele se apropria de características do cinema B norte-americano. Isso é diferente de ser influenciado. Se formos pensar nessa relação de mestre-aprendiz, acho que podemos citar Monty Python. Você viu Em busca do cálice sagrado?

– Sim. Uma divertida paródia do Rei Arthur e seus cruzados.


– Também aqui temos um espírito aventureiro. Aparentemente, foi necessário muito jogo de cintura para terminar esse filme.

– Os cavalos improvisados, as animações para economizar cenários…

– Mas isso em si não seria digno de nota se não houvesse uma coerência maior por trás de tudo. O filme é tão iconoclasta que tira sarro de si próprio.

– Mas em Pierrot, le fou, o espírito aventureiro tem outra razão de ser. A aventura é o tema do filme. Aliás, ela é sua essência. Por isso aceitamos as atuações lastimáveis em algumas cenas. É como se o diretor nos dissesse: “deixe de ser careta, curta a vida!”.

– Não sei se ele é tão positivo a esse ponto. Parece-me que ele quer uma montagem coerente com o espírito das personagens. Mas isso não significa que ele, Godard, esteja elogiando esse espírito aventureiro. Nos filmes que os Beatles fizeram na mesma época, acho que isso é mais presente.

– Curioso como esses filmes todos são non sense. Mas você tem razão. Help! e Yellow Submarine são muito mais solares.


– Há algo de provocador em Pierrot, le fou. Quando o vejo, fico com vontade de pegar uma câmera e fazer um filme.

– Como assim?

– A sensação que eu tenho é de que é possível fazer um bom filme sem gastar muito, sem se preocupar muito com certos detalhes.

– Viva o tosco?

– Espere. Eu disse que é possível pegar uma boa ideia e, sem muitos recursos técnicos, fazer um bom filme. Mas uma ideia ruim, por mais que tenha um bom produtor, não se transforma num bom filme. Pode até se tornar um filme lucrativo, mas não um bom filme.

– Então você gostou muito mesmo desse flme, não?

– Na verdade… É estranho dizer isso. Não o considero um filme tão bom, mas ao mesmo tempo ele me toca de uma maneira tão profunda que eu não lhe posso tirar o valor. É como se ele me sussurasse: faça algo melhor, faça algo melhor…

– Então o filme é um grilo falante?

– Isso, um grilo falante.

– O filme é uma espécie de daimón, então.

– Precisa ser mais que isso?

A dupla de ataque da França

 Ontem no Frei Caneca, assisti a Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, documentário que retrata a relação dos dois maiores nomes da Nouvelle Vague francesa.

 O filme começa atiçando nossa memória afetiva, com a bela e marcante cena final de Os incompreendidos, evocando aquela sensação dúbia de coragem e insegurança, de convite a essa coisa ambígua e volúvel que é o amadurecimento. Não duvido que isso seja uma estratégia para cativar o expectador.

 Na sequência, é traçado um interessante perfil dos “jovens turcos” (simplesmente “rebeldes”, na legenda): Truffaut, mais animado e passional; Godard, mais intelectual e esnobe.    Este mais politizado, aquele mais ligado ao entretenimento; um preocupado em se comunicar, o outro enfatizando sua forma ímpar de se expressar[1].  Sim, ambos foram extremistas e afetados (os elogios desproporcionais que Truffaut rendeu a seu, então, amigo; a fingida recusa de Godard em satisfazer o púlico[2]), mas sinto que, nesse dualismo cultural, o filme favoreceu Truffaut. Sua autoironia mostra-se mais atraente que as provocações baratas de Godard. Obviamente, você pode discordar, dizendo que Godard elitizou seu cinema como forma de recusa ao populismo a que se rendeu Truffaut. Bom, para resolver essa questão, teremos de assistir ou reassistir a seus filmes e depois, abastecidos de um bom café, continuarmos o papo. Ora, se um filme é capaz de estimular esse tipo de contato, ele tem méritos de sobra. 

 De modo geral, o filme é bastante claro e didático, talvez esquemático e simplista – mas isso eu não tenho condições de apurar. Em todo caso, imagino que irei revê-lo daqui a algum tempo quando eu tiver amadurecido melhor minha cultura cinematográfica. Como os bons vinhos, ele aguarda e merece um paladar mais apurado.

 

 


[1] Sei que o dualismo cultural é extremamente perigoso e, ironicamente, massificador. Basta lembrar de Machado x Eça; Mário x Oswald; regional x universal; engajamento x estética e outras versões menos conhecidas desse agitado e monótono fla-flu.

[2] Isso me lembra a proposta do Teatro Oficina que tenta escandalizar o público com cenas de sexualidade às quais o público já está acostumado.