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Formas ligeiras

“A bom entendedor, meia palavra: bos-” (José Paulo Paes, Cambronniana)

Quando entrei no blog da Paula e li “Um bom diálogo só ocorre quando o interlocutor completa as reticências da“, tive de me lembrar do poeta de, enfim, duas pernas. Além dos aforismos, ele também cultivava divertidos [?]epigramas como “Para quem pediu sempre tão pouco / o nada é positivamente um exagero” (Auto-epitáfio nº 2). O gosto pela síntese, que aparece em forma e conteúdo na sua curta Poética (“conciso? com siso /prolixo? pro lixo”), ispira-nos às formas curtas, breves, ligeiras.

 Quando a Paula desviou levou os olhos ao vergel em busca de ramos para um bonsai, talvez ela tenha pensado no assunto ou sentido-lhe a presença; enfim, saber a resposta importa menos que apreciar o galho em solitária formação. Dos haikais que ela produziu, um chamou-me rapidamente a atenção pela leveza com que ela toca o tema, distorcendo o lugar-comum de nossas expectativas, levando-nos a um inusitado jogo semântico. Explicar, além disso, me parece algo como querer endireitar o tronco da pequena árvore, profanar o koan. Buscar entendê-lo é melhor que banalisar seus sentidos:

Uma vida que
de repente acaba é
sorte, não é morte.

Coletânea de haikais

Quem acompanha sabe que vários dos meus alunos do sexto ano andam escrevendo seus haikais. Nesta semana, quase que não dei conta de ler atentamente tudo aquilo que chegou a minhas mãos. Aproveito, assim, o sábado para compartilhar um pouco dos versos que recebi.

Marcos Magalhães :

A inocente lebre
que caminha ignorante
em direção à morte.

Fogueira incandescente,
centelhas ao céu,
lampeja após cessar.

André Oliveira Soares:

As coisas noturnas
com que você sonha
de repente acordam.

Folhas amarelas
despencam no chão:
saudades do verão.

Mel Machado Coelho:

A lagarta
que sai do casulo
agora voa.

Sem a brilhante vírgula
o céu triste
fica escuro.

Sem medo, a árvore balança
majestosamente
sua copa.

Que maravilha!

 Cheguei para o Andrey Chen, lá de Valinhos, e perguntei se ele tinha algum haikai novo para me mostrar. Meio desapontado, ele negou com a cabeça. Talvez ele tenha sentido, no meu tom de voz, uma cobrança indevida – pensei. Não queria pressioná-lo; ele é uma boa pessoa, gosto dos textos dele (ambos já divulgados aqui no blog). Queria apenas saber se ele tinha algo novo em mãos. Mas, não tinha. Não naquela hora.

 Dez minutos depois, se tanto, ele chega a mim com seu pesado caderno. Leio:

Poente de junho
mata dores da beleza
as aves caídas.

Reclamei. Não fazia o menor sentido uma imagem, por mais bela que fosse, eliminar ou mesmo atenuar o assassinato dos passarinhos.

– Mas, professor. Ali, no segundo verso, é uma palavra só, “matadores”.

Humildemente, reli o poema. Percebi então uma grandeza que me escapara na primeira e equivocada leitura. Escrevi-o na lousa:

Poente de junho
matadores da beleza
as aves caídas.

Pedi ajuda à sala. Um aluno de dez anos, com agudeza surpreendente até mesmo para um adulto, percebeu a antítese no primeiro verso: trata-se de uma tarde de final de outono, começo de inverno; logo uma tarde fresca, amena. No entanto, o poente carrega cores “quentes” (amarelo, laranja e, principalmente, vermelho). Juro que não havia percebido com tanta nitidez a beleza do verso.

O haikai, como vimos, começa com um verso muito poderoso. O segundo verso traz uma questão, Quem são esses matadores?, que é respondida elipticamente no verso final.

Inevitavelmente, temos de voltar ao primeiro verso. O bom haikai, o bom texto de modo geral, sempre pede uma releitura. O primeiro verso passa a nos revelar um novo detalhe: as cores fortes que compõe a antítese com a tarde fresca remetem ao sangue das aves abatidas.

Juro que neste texto eu não fiz nenhuma intervenção. Mesmo se não considerássemos que faz apenas duas semanas que o Andrey vem praticando haikais, mesmo se não considerássemos que ele tem apenas 10 ou 11 anos, vendo a qualidade de seu texto já me sentiria surpreso. Se considerarmos, que palavra definiria meu estado que não entusiasmado?

*

Noite fria,

      o silêncio ecoa.

***

É próprio da saudade dar as caras com atraso.

***

As abstrações tomam muito tempo e esforço das pessoas, nem sempre trazendo recompensas concretas que façam valer a pena toda dedicação. Um olhar, um sorriso, qualquer pequeno e delicado gesto: são as ações que objetivamente mostram quem somos e quem queremos por perto.