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Um homem

Giulia G.S.A.

      Ele via uma carranca se formando no rosto a sua frente. Os traços másculos estavam opacos por causa do sofrimento. Tanta coisa havia passado e agora ele se encontrava ali.

     Vê o sofrimento em seus olhos. Vê seu orgulho sendo ferido quando não consegue realizar o que promete. Vê que por trás desse disfarce há um homem amoroso; que apesar de tudo, não está satisfeito. É ele que está ao seu lado quando não há ninguém, quando tudo parece cair, quando não há salvação.  É ele quem acha as verdades por trás de suas mentiras, que consegue ver seu passado e suas cicatrizes. “Droga, você está parecido com seu pai!” Sua casa sendo construída sem amor e depois consumida pelo rancor. A infância solitária e dolorosa. E aqui se encontram novamente, conversando um com o outro, como se a imagem refletida pelo espelho fosse uma outra pessoa.

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Identidade plástica

Harini Abja Kanesiro

     De coloração preta, destinada à clientela masculina, feita em corte sóbrio e, devo admitir, antiquado, eu apresentava uma composição que se resumia essencialmente a policloreto de vinila. Embora o nome possa ecoar alguma nobreza, entre todas aquelas que me faziam companhia na vitrine, ele significava apenas duas coisas: meu âmago não era nada além de plástico (o que justificava meu valor inferior diante das que se diziam cabelos verdadeiros) e quem me utilizasse seria um pobre coitado inconsciente do ridículo a que estaria se submetendo. O homem que efetuou a minha compra parecia ciente da primeira. Mas julguei que, embriagado pelo desejo desesperado de ocultar a calvície, não parecia ter percebido a segunda.

       Fui vendida como promessa de jovialidade, de mudança, de uma beleza que todos sabiam ser sintética, mas que poderia trazer uma confiança maior nos campos da estética, da sedução e, por que não, nos diálogos com antigos amigos que, contrariando os efeitos da velhice, ainda conservavam uma quantidade generosa de madeixas a cobrir o topo da cabeça. A alegria de meu recém-adquirido dono parecia tão sincera, tão pura, ele me carregava na sacola com tanto cuidado, que me peguei pensando, sem medo de elevar minha presunção a um nível superior ao que me era permitido como artigo considerado frívolo e de segunda categoria, que havia sido comprada para fazê-lo feliz.

       Em casa, o velho que se tornara meu dono deixou as chaves na mesa, tirou-me da sacola e caminhou ansioso para o banheiro, onde me depositou com cuidado sobre os poucos e isolados fios que, brancos e privados do vigor da juventude, pareciam suplicar por uma rápida e indolor queda. Mas foi apenas ali, diante do espelho, que me dei conta do encaixe perfeito e da beleza precisa que se configurava. Eu me sentia completa, maravilhada por ter me tornado útil, apesar de todas as previsões malditas dos caros exemplares da loja, tomada por um sentimento afetuoso em relação àquele senhor pacato. E o melhor é que o sorriso de meu dono parecia indicar reciprocidade. Com o perdão do clichê, tínhamos sido feitos um para o outro. Por isso me surpreendi com a figura feminina que entrou em cena após alguns minutos.

       Arrancou-me da superfície calva e iniciou todo um discurso repleto de palavras desdenhosas para meu dono. Com um sorriso ferino ela zombou de suas crises capilares, de sua velhice, de sua dignidade e nos insultou como um todo. Desejei que não fosse um emaranhado de fios, mas sim algo com uma consistência mais ameaçadora que pudesse causar estrago àquela mulher. Meu dono, entretanto, abaixara o olhar e, envergonhado, cobria a cabeça com as mãos. Subitamente, enquanto eu ainda estava perdida em pensamentos vingativos, ela me jogou no chão e em seguida fui pisoteada pelo que pareciam dezenas de saltos enfurecidos para me desfazer em pedaços cada vez menos dignos.

    Eu terminava minha breve vida mutilada. Quando meu dono me colocou em meio a todos aqueles restos orgânicos, já não tinha certeza do que restara de mim. Para completar a atmosfera trágica, me dei conta de que não soubera seu nome. E aquilo me trouxe uma tristeza tão densa que nem meus fios poderiam diluir.

   Antes de fechar a tampa do lixo, ele me olhava como se compartilhasse daquela mesma dor aguda que me afligia, daquela angústia que emerge de todas as separações. Os gritos de minha algoz lhe chamando desviaram sua atenção, ele direcionou seus olhos para mim uma última vez, respirou fundo e tudo ficou escuro. Ela sequer teve a dignidade de chamá-lo pelo nome.

Essência desnecessária

Pedro Duarte Freires

Costuma-se pressupor que tudo tem uma essência e que é um dever encontrá-la por mais árdua que a busca possa ser (parece que sempre é). Assim, a vida seria uma sucessão de batalhas épicas pela integridade dessa essência e uma cirurgia plástica, um regime ou um diligente treino para a hipertrofia seriam uma terrível derrota para esse inimigo que é o padrão, que é a moda. A partir dessas premissas cria-se a idéia que interessa discutir, de que o Brasil atualmente nega sua essência ao supervalorizar seus índices econômicos.

Antes de entender por que o Brasil estaria passando por um processo de auto-negação, cabe entender por que isso seria uma derrota. Para tanto, pouco importa se existe de fato uma essência abstrata ou não; deixemos que a Fé, guardiã dos assuntos místicos, se encarregue da dúvida. No contexto da guerra épica entre essência e mundo, não é de um conjunto de características inatas que se fala, mas sim de um conjunto de necessidades concretas a serem supridas. Quando vemos alguém recorrer à cirurgia plástica ou dobrar-se aos padrões vigentes, o que devemos perguntar é se tal manobra atende às verdadeiras necessidades (econômicas, sociais, psicológicas) do indivíduo. É fácil concluir que tais necessidades não são totalmente inatas; de fato a maior parte delas é construída e deriva de escolhas que o indivíduo faz durante sua vida. Isso, no entanto, não lhes tira o valor.

Consideremos que o Brasil seja esse indivíduo buscando no sucesso de seus índices econômicos, e na manutenção deles, a cirurgia plástica perfeita. Com essa nova imagem, ele estaria pronto para seduzir grande parte dos investidores. A verdade é que esses índices econômicos não dependem necessariamente de uma reforma agrária, da criação de um país de leitores no lugar de analfabetos funcionais ou mesmo da gestão de um hospital público de qualidade com vagas para todos – essa cirurgia plástica tem um custo alto; não sobra tempo nem dinheiro para reformar tudo que é necessário. É importante perceber que esse processo é de escolha, ou seja, de construção ativa de uma nova identidade brasileira.

Até podemos dizer que o Brasil errou ao escolher esse caminho, que o silicone da prótese econômica mais cedo ou mais tarde vai estourar, intoxicando o país. Mas não raro podemos chegar à perigosa conclusão de que o Brasil está fugindo de seus verdadeiros problemas. Ainda que pareça contraditório, os índices econômicos e os sociais fazem parte de um mesmo Brasil. Do mesmo modo, uma beleza natural ou artificial pode satisfazer uma mesma pessoa. Isso prova que o país cresce, se recria. Devemos dar tempo para que a identidade se consolide sem grandes neuroses, em vez de afogá-la em dogmas e convenções.