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Diagnóstico da Loucura

Maikon Senra (maiconsenra@gmail.com)

O Brasil padece da loucura numérica dos índices socioeconômicos. Se essa chaga apenas envolvesse o país na óptica extasiada e otimista dos algarismos não se trataria de um problema tão grave, mas ela também o mantém inerte e enfadonhamente satisfeito com a situação apresentada. Nesse estado, a visão crítica e analítica abandona o indivíduo, deixando-o à deriva na aceitação conformista da mediocridade. Dessa forma, o Estado perpetua essa ferida, maquiando ou mesmo ocultando o diagnóstico negativo da realidade.

O máximo e atual exemplo desse culto hedonista-social é o sistema nacional de cotas para o ensino público. De acordo com essa política administrativa de “inclusão”, uma maioria em constante opressão – econômica, social e moral – passa a ser favorecida no dia D dos sofridos vestibulandos – o infame vestibular – enquanto a classe média passa a ser excluída paulatinamente dos principais centros universitários públicos. Como se não bastasse, para aplicar com êxito tal abominação, é necessário tornar artificialmente manipulável a “seleção natural” dos concorrentes aos núcleos de excelência acadêmica, fato que ignora o mérito individual.

Entre os artifícios que fundamentam essa manobra, está o acréscimo de um percentual pré-estipulado às médias finais das provas. Não por coincidência, há inúmeras falhas nessa metodologia. Uma coisa é forjar dados estatísticos que simulam uma suposta integração, outra – muito mais grave e complexa – é garantir o sucesso profissional ou pessoal dos incluídos. Há inúmeros detalhes de igual importância, tal como a possível segregação dos beneficiados, Mas ainda pior que a formação de panelinhas seria o desequilíbrio caótico nos centros universitários, corroendo as bases da elite intelectual do país – a qual, ainda que seja alvo de preconceitos, não deixa de ser imprescindível para o desenvolvimento do país.

Toda essa política administrativa pode comprometer o progresso científico e tecnológico da nação. Assim, o Brasil assiste aos oprimidos despreparados tentando construir a “ponte” necessária para transpor o rio da vida, enquanto embarga a obra dos realmente capacitados. Para esse país, a doença custa-lhe a visão, e desta óptica cega, o sonho individualizante e coerente de Nietzsche – “ninguém poderá construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida, ninguém exceto tu, só tu” – não existe.