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… não era uma narração

 Era uma vez um garoto que não morava numa casa de campo, não conversava com sapos e não tinha um velho baú com cartas esquecidas no sótão. Sua casa sequer tinha sótão, ele sequer tinha um bichinho de estimação, mas ele morava numa casa pequena, onde de vez em quando parava para pensar nas coisas.

O quintal, cimentado, não tinha tocas de tatu, vasos de plantas ou tijolos à mostra; nada que revelasse ou desse margem para um devaneio – e como ele gostava dessa palavra. Antes mesmo de conhecer seu signficado, ele a sussurava com deleite, bem baixinho, quase que só pensando, para que ninguém a ouvisse, como se a quisesse só para si. De-va-nei-o…

Ele não ouviu essa palavra de uma garota bonita nem de um garoto amigável, nem de um velho tio-avô desconhecido, nem de um jovem primo aventureiro. Mas mesmo assim ele gostava, como gostava, de sentir aquela palavra. Nunca ninguém lhe explicou o que ela significava. Pouco tempo depois de conhecê-la, ele sentiu que ela lhe era íntima, quase que uma cúmplice, abraçou-se a ela e ficaram amigos.

Como sua casa não tinha bichos, jardim, sótão ou qualquer outra misteriosidade, às vezes ele se deitava no quintal e fica olhando para as nuvens passeando no céu. O curioso é que ele nunca se preocupou em decifrar se as nuvens tinham formato de pessoas ou bichos; satisfazia-se apreciando as texturas, as cores e os contrastes, ora harmônicos ora desarmônicos, que se formavam. Às vezes, escutava o barulho das nuvens (não confunda com o barulho do vento) e se sentia realizado. Certa vez a chuva caiu sobre ele. Foi um dia muito gostoso.

Revisitações idealizadas

[exercício redacional: dissertação básica]

A casa dos avôs, o pátio da escola, as festas com a família, até mesmo o gosto das frutas parecia diferente. Conforme se folheiam as fotos do velho álbum, diversas lembranças vão sendo retomadas – reconstruídas? – na memória. Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Isso, porém, talvez não seja resultado da vivência de épocas deslumbrantes, mas sim do contrário.

O presente, só este ínfimo e fugaz espaço de tempo, nos pertence. O resto é abstração, é aquilo que já nos pertenceu ou que irá talvez nos pertencer. Em todo caso, no presente do indicativo de nossa vida, só temos mesmo esse instante, e é a ele que devemos devotar nossas preocupações e empenho.

Muitos indivíduos, porém, parecem viver no passado. A distância temporal parece fazer com que eles não mais percebam nitidamente que aquela época também tinha seus desagrados. Mas o pior de tudo é saber que, por melhor que ela tenha sido, ela já foi, não existe mais. Se o indivíduo quiser retomar aqueles prazeres, se quiser reviver aquelas situações, é imperativo que ele volte a focar seus interesses no presente. Só assim, e não esperando um milagre divino, ele poderá viver o tempo que de fato ele possui.

É verdade que as abstrações são importantes, que a memória deve ser preservada. No entanto, o que não pode acontecer é um fetiche pleno das lembranças. No final da vida, provavelmente, elas serão nosso bem mais precioso, mas até lá o melhor a fazer é garantir que nossas boas recordações não venham apenas de um pequeno intervalo de nossa vida.

A casa do meu avô.

[exercício redacional: relato]

Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Não digo da infância toda; ir obrigatoriamente às aulas de catecismo, ficar de castigo, perder a tampa do dedão jogando bola na rua são, de fato, experiências que não gostaríamos de reviver. No entanto, mesmo os desprazeres, vistos agora de grande distância, parecem ter seu colorido, seu encanto.

Foi na casa do meu avô, por exemplo, que tive o primeiro contato com outras formas de vida: lembro-me de ficar olhando diversas folhas contra o sol – aquilo que lhes parecia veias a lhes carregar a seiva sugeria-me mesmo um percurso, uma espécie de mapa rodoviário que eu já começava a folhear com interesse. Foi lá também, na casa do meu avô, que pela primeira vez vi – e que brinquei com – gatos e cachorros. Talvez tenha sido ali que eu percebi que uma criança pode ser ruim com os mais fracos. Não tenho orgulho dessa lembrança, mas acho que esse episódio me ajudou a corrigir uns defeitos.

Naquela época eu sempre jogava bola no campo à tarde. Às vezes estávamos apenas eu e um amigo. A gente ficava batendo falta, chutando a bola um contra o outro. Do lado do campo, havia um riozinho do qual nunca conseguíamos tirar peixe algum. À noite, porém, a diversão era garantida. Como havia muitas árvores e alguns terrenos baldios perto de casa, os meninos gostavam de brincar de esconde-esconde.

Hoje talvez o campinho não exista mais. Algumas árvores podem ter caído, brotos podem ter sido plantados, casas podem ter sido erguidas naqueles terrenos. Ou talvez não. Pouco importa. A infância não são os lugares onde a gente viveu, mas sim as situações, o contexto todo. Talvez a casa de meu avô ainda exista. Mas ele não está mais lá, e aquele menino que o visitava não é mais o mesmo.