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Morangos Silvestres – análise do sonho

[Atividade realizada com alunos do Ensino Fundamental II durante reunião dos Estudos Narrativos]

Trecho de Morangos Silvestres, de Ingmar Vergman:

     O protagonista, um professor aposentado, tem um sonho/pesadelo. Ele está numa rua desconhecida da cidade em que mora. Aparentemente, isso lhe dá um misto de medo e esperança. Afinal, ele não sabe onde está, mas ele imagina estar perto de um lugar seguro.  De diversas formas, ele busca alguma resposta (inclusive pedindo auxílio a um homem que se desintegra à sua frente, o que realça seu isolamento):

    a) Ao olhar ao redor buscando saber onde está;

    b) Consulta o relógio público, mas ele está sem ponteiros. Depois, consulta o próprio relógio de pulso, mas este também está sem ponteiros. No relógio público, dois olhos o encaram (ele não é apenas o agente, mas também o assunto do sonho). Simbolicamente, isso parece sugerir uma supressão do tempo, como se ele estivesse numa espécie de eternidade. Mas não;

    c) Ainda que o relógio esteja sem ponteiros, ouvimos o barulho do tique-taque, vindo do coração do protagonista. Ainda que não percebamos, o tempo continua a passar. E o que é o tempo? O nosso tempo é a nossa própria vida;

   d) Como o tique-taque se combina com os batimentos cardíacos, poderíamos pensar que o tempo independe da nossa vontade. Afinal, não dominamos nossos batimentos cardíacos. Uma hipótese interessante, mas que o filme irá negar logo na sequência;

   e) Agora o barulho que remete ao tique-taque não é mais produzido pelo coração, mas pelo passos do protagonista. Isso sugere que nosso tempo, nossa vida, sejam determinados não pelo acaso, mas por nossas escolhas;

   f) E para confirmar essa nova hipótese, logo em seguida ouvimos sinos da igreja. Sabemos que os sinos sempre tocam numa determinada hora específica. Ou seja, finalmente, o sonho lhe sugere que – depois de tantas perguntas – alguma resposta está por vir. Mas ao mesmo tempo sabemos que a igreja simboliza julgamento. O protagonista não parece perceber essas dicas, mas elas serão confirmadas logo na sequência;

   g) Surge um carro-fúnebre – na verdade, uma carroça-fúnebre – puxada por cavalos, sem que ninguém os guie. A carroça se enrosca num poste de metal, mas os cavalos – sem se importarem com o defunto – apenas se preocupam em seguir seu caminho. O caixão tomba no chão. O protagonista se aproxima e vê que ali dentro está seu próprio corpo, o qual tenta segurar-lhe a mão, tenta de algum modo lhe transmitir algum recado. Memento mori (lembre-se de que vai morrer)?

   h) Ao acordar, o barulho do relógio soa insistente, como se quisesse confirmar o assunto do sonho: pode não parecer, mas o tempo passada. E o tempo, como símbolo da nossa vida, é responsabilidade nossa. Em algum momento seremos julgados (ou talvez estejamos sendo julgados o tempo todo), logo – sabendo que o tempo é finito – é preciso corrigir nossos erros mais relevantes.

    Sim, em quatro minutos, o filme conta tudo isso sem usar praticamente nenhuma informação verbal.

Achados

“No fundo, vivo permanentemente no meu sonho e faço visitas à realidade” – Ingmar Bergman, Imagens, p. 22.

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Mais alguns ao modo de Henry Wotton:

Quem não dá a  mínima para a aparência é quem mais se preocupa com ela.

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A mentira tem um charme que escapa à verdade.

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O intelecto fede. Por isso só conseguimos suportar o nosso.

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Os doces pecados da nossa estirpe perdem todo o sabor quando praticados por qualquer um que não nós mesmos.

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Ingmar Bergman x Corinthians

Serei breve, mais sintético do que fui da outra vez, quando comparei um jogo da Libertadores com filmes do John Ford.

Ingmar Bergman, o diretor sueco, é famoso por seus filmes densos em que a angústia e o silêncio argumentam fundo à nossa alma. Corinthians, o time paulista, é famoso por iludir e entristecer seus sofridos torcedores. Nas obras do sueco, a felicidade surge, nos acena e, por fim, ri da nossa cara de bobo. Nas campanhas do alvinegro, às vezes há superação, heroísmo e, como se tudo isso fosse um requinte da ironia, derrotas.

No primeiro, a certeza de uma angústia que eleva [?] o intelecto. No segundo, a esperança por uma alegria improvável. É como se fosse o mesmo filme, porém o público somente sabe [ou assume saber] o final do primeiro.

A qual assistir? Cada um escolha sua dor.

P.S.: Por um capricho de deuses que riem da nossa cara, perco o sinal da internet pouco antes de conseguir postar esse texto. Mal sinal.