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Madrugada errante

O filme começa com o protagonista, quieto e solitário, caminhando pela mata. É madrugada, que simbolicamente sugere a expectativa de um novo dia, a alvorada – luzes iluminando a penumbra. Então ouvimos sua voz: ele começa a rezar. Monólogo individualista ou sagrado diálogo interior, a distinção pouco a pouco se reduz; a antítese esvai-se conforme crescem os questionamentos – alguém me escuta? Estou falando sozinho? Se Deus existe e se de fato ele nos deu livre-arbítrio, é sensato que ele se cale, que ele nos permita sofrer e enfrentar nossos próprios problemas mundanos. Mas por que nos colocar em situações em que a força do indivíduo pode tão pouco? Por que conceder uma liberdade de que quase não podemos usufruir?

 Só agora percebo: Jean Gentil ecoa os mesmos conflitos desenvolvidos por Dostoievski em “O Grande Inquisidor”. Em ambos os casos, mais do que aqui, a angústia soube se expressar.

Jean Gentil

A história de Jean Remy Gentil: após o terremoto no Haiti, o contador poliglota começa a sua errante aventura pela República Dominicana em busca de trabalho. Sem dinheiro, sem amigos, só lhe resta isto: ir em busca de.

 Há nessa pequena sinopse um grave problema individual decorrente, em parte, de uma tragédia coletiva. Justamente por saber equacionar o conflito, os diretores (Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas) escaparam de fazer um filme determinista, o que já seria motivo de elogio. No entanto, se considerarmos que escapar do maniqueísmo deve ser considerado mais uma premissa que um mérito, devemos procurar outros atributos. E o filme os tem.

 Como toda história de busca, Jean Gentil possui um quê de Ulisses, seja pela determinação individual, seja pelos obstáculos que precisa enfrentar.  Mas Jean Gentil, interpretando a si próprio no filme, também é um homem de nosso tempo, cheio de conflitos e pormenores. Ao juntar o elemento mítico com o documental, os diretores revisaram o primeiro e elevaram o segundo. O resultado foi promissor: aqui, a Ilíada é qualquer coisa, menos a terra natal, o almejado porto seguro é a miragem que aparece cada vez menos nítida; o herói poliglota (versão atualizada do Ulisses que dominava as linguagens verbais e não verbais) passa a maior parte do tempo calado, trocando um ou outro elemento fático; a caminhada catártica o leva não só às profundezas do ser, mas também aos cafundós da República Dominicana. A um homem de cultivados conhecimentos, nada seria mais irônico.

 Sem dúvida alguma, as forças da natureza (o terremoto) e da civilização (o desemprego) tiveram grande influência na tragédia de Jean Gentil, mas é importante notar que elas foram justamente isso: catalisadoras. A insegurança do protagonista e seu descompasso frente à sociedade são anteriores aos problemas coletivos que o pegaram de jeito. Como escrevi lá em cima, o filme equaciona a tragédia coletiva com o problema individual, mas não dá respostas taxativas, não se apega a um didatismo simplista – afinal, estamos diante de um homem, não de uma marionete.