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Além da promessa

Matheus Takayasu (7ºEF)

     Hoje é páscoa. Estou em casa, na sala estão vários ovos, um deles da Cacau Show, aquele que tem inúmeras camadas de recheio. Eu tinha pedido esse ovo no ano passado, mas meus pais não compraram, pois eu estava obeso e com colesterol alto. Então, nesse dia eu prometi a eles que ficaria sem comer chocolate por um ano.

    Logo, hoje vai completar um ano que eu fiz essa promessa. Foi difícil cumpri-la, mas como sofria bullying na escola eu me esforcei ao máximo e perdi mais de dez quilos.

    Quero muito comer aquele ovo de páscoa! Ele me faz lembrar o quanto eu gostava de chocolate. Ah, bem agora eu começo a gostar novamente daquele sabor, daquele aroma… mas se eu comer hoje minha promessa será quebrada! O que fazer?

    Pensando bem, eu acho que posso comê-lo hoje. Afinal, o que está por trás da promessa é me tornar mais saudável – e eu consegui isso! Embora eu quebre a promessa, eu não irei quebrar o princípio dela.

    Comentário:

    Três anos atrás, eu compus um aforismo que me enchera de orgulho (Por trás de toda regra há um ideal, uma premissa que lhe seja a razão de ser. Às vezes, sempre em nome desse ideal, é lícito infringirmos a regra. A regra que não se rende a seu ideal, na verdade, possui outras premissas.). Uma quinzena atrás, li a redação do Matheus e percebi ali, num texto de um jovem de 12 anos, algo que eu só consegui verbalizar décadas mais velho. Um leitor crítico dirá que o texto dele é dos mais medianos até chegar ao desfecho – sim, é verdade, mas nos atentemos a ele. O princípio filosófico de que ele fala, muitos adultos não conseguem compreender. A ideia de que uma regra só importa enquanto ela espelha os ideais que nos fazem obedecê-la foi um feliz achado.

    O Matheus pode treinar o ouvido, assim ele irá compor textos mais fluentes. Mas o principal é que ele continue colocando ideias em seus textos, afinal essa é a função da escrita. Quanto mais ele conseguir expressá-las, mais seus leitores ganharão.

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Sonhos e lembranças de uma pipa

 Quem conhece o blog perceberá facilmente que o texto abaixo não é meu. Tenho fé e esperanças de que ainda conseguirei escrever algo tão bom, mas enquanto esse dia não chega, o jeito é divulgar os bons textos que chegam às minhas mãos. Este especificamente foi escrito pela Aninha (Ana Bernardi), minha aluna do 7ºEF.  Isso mesmo, ele foi escrito por uma mocinha de, imagino eu, 12 anos. Prepare-se.

 ***

  Acho que sempre sonhei em ser livre.

Sentir a brisa no meu rosto – não que eu realmente tenha um –, voar o tão alto quanto eu queira e não ter ninguém para me controlar parece maravilhoso! Por isso, é óbvio que eu tenho planejado esse momento há bastante tempo.

Eu sempre fui uma pipa com dono. Eu fui montada há muito tempo atrás pelo bisavô do meu dono atual, e fui passando de mão, de pai para filho, de geração em geração. Até hoje.

Não que eu não sinta afeição pela minha “família”. Eu até já cheguei a pensar que os amava. /e sei que eles sentem algo por mim também. Mas eu acho que é besteira passar a vida em um só lugar. O mundo é gigante. E eu quero conhecer cada pedaço dele antes que uma chuva me derrube, um raio me atinja ou eu fique preso em uma árvore. Por isso eu pensei muito e eu já cheguei à minha decisão.

Eu fico guardado num quartinho muito bagunçado, porém iluminado, no andar de cima da casa, que, por sinal, fica no meio de uma grande fazenda. Eu sempre gostei de olhar os animais pela janela daquele quarto, no qual eu ficava quando o meu dono não estava brincando comigo. Apesar de ficar amarrado a uma estante, não era entediante. Aquele lugar tinha de tudo, pequenas bolinhas de gude, cartas de baralho, livros e gigantes pranchas de surfe. Tudo espalhado. As únicas coisas que saíam de lá, aliás, eram eu e as pranchas, quando a família ia para praia.

Por mais que eu tenha gostado por muito tempo desse meu estilo de vida, já está tudo planejado. Amanhã, quando meu dono me levar para passear, eu irei tentar o máximo raspar o fio, que me prende, a uma árvore para que ele se rompa e eu finalmente possa ser livre. Eu não quero magoar ninguém, porém eu quero muito isso e não vou desistir.

Crac, crac. Era o barulho da maçaneta da porta se abrindo. Eu devia ter adormecido enquanto pensava, pois um novo lindo dia raiava e não havia nuvens no céu. O que me lembrou que era hora de pôr meu plano em ação. Meu pequeno dono me desamarrou da minha morada, mal sabendo que seria a última vez.

Ao chegar lá fora, eu quase mudei de ideia. Ora, eu devia mesmo fazer isso? Iria me arrepender? Porém, já havia refletido muito e abandonei esses pensamentos.

A primeira árvore que eu vi era muito alta, e já tentei roçar minha fita nela. Porém, não tive sucesso. Tentei isso em várias outras, apesar da insistência do meu dono em me manter longe delas. Mas meu coração disparou quando eu finalmente ouvi uma ruptura. Olhei para baixo e só vi meu dono tentando me pegar, pulando e pulando.

Eu o amava, mas de uma coisa eu tenho certeza:

Eu não vou me arrepender.

Da importância da alienação

– Deus do céu, como Eça é chato! Que aluno hoje em dia consegue ler A ilustre casa de Ramires sem bocejar um sem número de vezes? E A cidade e as serras, então? Eita historinha manjada… a oposição binária entre viver no campo ou na metrópole cheira a maniqueísmo. Ou ainda aqueles romances pouco convincentes que o Machado fez muito bem em recusar…

– Ei, “pera-lá”! Uma coisa de cada vez. Acho que essas três críticas possuem naturezas diferentes. Vamos analisá-las uma a uma.

– Para mim, todas levam a um mesmo ponto:  é preciso fazer os alunos lerem algo próximo da realidade deles e não essas coisas datadas, envelhecidas e desimportantes.

– Calma, calma. Não é enumerando adjetivações que se expressa uma ideia.

– Novamente você com esse puritanismo apolíneo. Injete um pouco de Dionísio nas veias.

– ‘Tá, daqui a pouco você continua com esses seus aforismos. Deixe-me, primeiramente, entender a questão. Você disse que o Machado recusou os romances do Eça, certo?

– Sim, ele achava a questão central d’O primo Basílio pouco convincente, tudo se resumia a um mero encaixe de acasos. Se a empregada gananciosa e invejosa não tivesse encontrado as cartas, não haveria história.

– Acho que esse resumo não toca na essência da crítica.

– Mas o Machado fez referência a esse episódio chamando-o de “defeito capital”, assim Ipsis litteris, sem tirar nem pôr.

– Sim, mas esse episódio é consequência da falta de personalidade da Luiza, eis o ponto.

– Não sei se o Machado foi tão claro em expor essa tese.

– Talvez por isso mesmo ele tenha voltado ao assunto duas semanas depois. Em todo caso, o que sabemos é que Machado estava bastante preocupado com a consciência das personagens. Talvez, mais importante do que as ações em si sejam o que as motivou. Atentemo-nos à causa, e não apenas aos efeitos.

– Meu amigo, você não percebe que com toda essa pompa argumentativa você acabou se traindo e trazendo mais razões à minha razão?

– Como assim?

– Ora, o meu intuito é desqualificar o Eça. E você está me ajudando.

– Bom, meu intuito não é defender o Eça, mas sim compreender melhor a questão que você me propôs. Em todo caso, a ressalva do Machado não elimina as qualidades do Eça, até porque ele não parou de escrever em 1878; sua literatura não se resume às primeiras obras. Do mesmo modo que não julgamos o Machado somente por aquilo que ele escreveu até este período.

– Mas de que adianta essa afirmação óbvia e redundante? Todo mundo evoluiu, nem que seja na horizontal. Mas de que adianta evoluir para chegar a uma historinha manjada como a de A cidade e as serras?

– Bom, A cidade e as serras é uma novela e não um romance propriamente dito. Assim sendo, é meio esperado que ela não tenha a densidade psicológica de um Dom Casmurro, por exemplo. Mas, por outro lado, eu concordo que as características típicas de um gênero não devam ser uma amarra ao escritor.

– Agora sim você parece me entender. O escritor deve se expandir além dos limites da expectativa.

– É que na minha opinião A cidade e as serras não é um livro tão tímido assim. Alguns críticos estão revendo o papel deste livro. Talvez haja um cinismo bastante sutil. Nunca lhe ocorreu que o narrador,  Zé Fernandes, talvez esteja tirando um barato do Jacinto o tempo todo?

– Ah, “pera-lá”! Você vai cair nessa de ler o Eça como se ele fosse o Machado?

– Bom, ainda que seja uma suposição forçada, ela traz uma nova cara ao texto. Talvez o Eça tenha escutado as dicas do Machado. No mínimo, acho que é uma discussão que vale a pena. Ela até dá mais vida ao livro.

– Uma vida que o próprio livro não tem!

– Não seja chato. Os grandes escritores merecem ser revisitados.

– E quanto a A ilustre casa de Ramires? Que aluno hoje em dia curtiria revisitar esse texto antigo, de uma época antiga, sobre pessoas antigas que não nos dizem respeito?

– Acho que é exatamente esse o ponto. A arte pode fazer com que expandamos nossos horizontes.

– A arte deveria fazer o indivíduo conhecer melhor a sua época, o seu contexto.

– Sim, mas ao mesmo tempo precisamos de outros parâmetros. O outro nos ajuda a conhecer o eu.

– Esse tipo de literatura, que nos leva a outras épocas, outros contextos, é alienante!

– Houve uma época em que o nosso contexto era a placenta. De acordo com seus termos, nascer é uma forma de alienação. Então, viva a alienação!

* * *

O diálogo acima se baseia, entre outras coisas, no seguinte trecho de Gorazde, de Joe Sacco:

aos libros

O que é ser fiel a um livro?
 
Lê-lo de cabo a rabo irresolutas vezes
como se quiséssemos nos apropriar de cada vírgula ou locução verbal?
 
Lê-lo além de suas páginas
querendo cada fonte, cada foz, seus inúmeros deltas encontrar?
 
Lê-lo demoradamente,
fruindo cada página como se querendo saber o gosto que delas se extrai
não só ano após ano mas em todo e cada instante?
 
Lê-lo não só a ele, mas a seus pares e ímpares,
pois só tridimensionalmente conseguiremos vislumbrar sua meândrica face?
 
Pois um livro, ainda que não peça, merece fidelidade.
E ser fiel, às vezes, é livrar-se de laços.

O paradoxo das máscaras

 

Michelle Kato

 “As pessoas afivelam uma máscara, e ao cabo de alguns anos acreditam piamente que ela é o seu verdadeiro rosto. E quando a gente lhe arranca, ficam em carne viva, doridas e desesperadas”. Apesar de datar do século passado, a frase do escritor português Miguel Torga ainda mostra-se bastante atual, uma vez que tal situação continua presente no mundo contemporâneo. O que se vê, hoje, é a cada vez mais freqüente utilização de máscaras como forma de enfrentar a dificuldade de adaptação à vida em comunidade.

      Desde a constituição das primeiras civilizações, observa-se que as aparências e a moral exercem grande importância na vida dos indivíduos que compõem uma sociedade. Conseqüência disso é o surgimento da necessidade de adequar-se a determinados padrões pré-estabelecidos de acordo com o “senso comum”. O grande problema não reside na adequação, mas no modo como ela ocorre.

     As máscaras e imagens criadas e divulgadas pelo mundo, para muitas pessoas, parecem tornar necessária a anulação do eu, do ser individual e único para que esse lugar seja ocupado por um personagem criado que seja de capaz de adaptar-se a determinadas circunstâncias e situações. É aceitável que uma pessoa aja de maneira diferente no trabalho ou na escola do que agiria se estivesse sozinha ou no ambiente familiar, contudo, o agir diferente em sociedade, muitas vezes, torna-se tão forte que passa a ser soberano. É a partir desse momento que as máscaras mostram seu lado perigoso, pois levam a perda da personalidade e condenam as pessoas que as usam a viver no mundo das falsidades por elas criado.

      Apesar de seu lado negativo, as máscaras podem, se bem utilizadas, exercer um impacto positivo. A criação de um personagem, na maioria das vezes, se baseia em uma idéia de como se gostaria que uma pessoa fosse. Nesse sentido, uma máscara pode significar um ideal e no esforço para moldá-la, o indivíduo acaba conhecendo a si mesmo, (conhecendo) os seus próprios desejos e ambições. Uma vez pronta, a máscara deixa de ser um ideal e passa ser algo real e concreto que ao invés de cobrir o rosto daquele que se empenhou em sua criação, mostra-o com orgulho e satisfação pessoal. O indivíduo abandona, então, a máscara e adquire um caráter.

      É necessário, portanto, que haja um equilíbrio na concepção do que as máscaras podem significar. Devem ser vistas como instrumentos de auxílio para a formação da personalidade e não como condição de existência. É preciso saber como utilizá-las e, principalmente, quando tirá-las, para que elas não anulem a essência de quem as usa. A máscara pode se tornar uma prisão, mas pode, também, ser a chave para a liberdade que todos têm de ser.