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Idealizações e ideais

“Meus jovens alemães, após um ano, tenho a oportunidade de dar-lhes as boas vindas. Aqueles que estão aqui no estádio são um pequeno seguimento da massa que está lá fora por toda a Alemanha. Desejamos que vocês, rapazes alemães e garotas, absorvam tudo que nós esperamos da Alemanha para um novo tempo. Queremos ser uma nação unida, e vocês, meus jovens, formarão esta nação. No futuro não desejamos ver classes, e vocês precisam impedir que isso apareça entre vocês. É apenas um seguimento das massas. E vocês precisam se educar para tal. Queremos que estas pessoas sejam obedientes, e vocês devem praticar a obediência. Desejamos que as pessoas almejem a paz, mas que também sejam corajosos. E vocês alcançarão a paz. Vocês precisam almejar a paz e serem corajosos ao mesmo tempo. Não queremos que esta nação seja fraca; ela deve ser forte, e vocês precisam se endurecer enquanto são jovens. Vocês precisam aprender a aceitar privações sem nunca esmorecer. Não importa o que criemos e façamos, nós passaremos, mas em vocês a Alemanha viverá. E quando nada restar de nós, vocês levarão o pavilhão, que há algum tempo nós levantamos do nada. E sabem que não pode ser de qualquer outro modo, como estarmos juntos de nós mesmos. Porque vocês são carne de nossa carne, sangue de nosso sangue! E suas mentes jovens estão repletas do mesmo ideal que nos orienta. Vocês estão unidos a nós, enquanto as grandes colunas do movimento marcharem pela Alemanha vitoriosa, sei que vocês se juntarão às colunas. E nós sabemos que a Alemanha está diante, dentro e atrás de nós. A Alemanha marcha dentro de nós, A Alemanha segue atrás de nós!” Discurso de Adolf Hitler aos jovens alemães in O Triunfo da Vontade

Muitos jovens admiram Adolf Hitler (“Há criaturas que chegam aos cinquenta sem nunca passar dos quinze”- Machado de Assis) por se deixarem seduzir pela sua forte retórica. É o mesmo que gostar de ser enganado. Ou talvez seja pior do que isso. A quem possuir forte identificação de princípios com o líder nazista, este texto de nada valerá, parecerá propaganda barata. Não é a eles que dirijo minha palavra. O que me interessa aqui é analisar estruturalmente a política de trocas que Hitler propõe a seus ouvintes, identificando um perigoso e recorrente artifício que ainda hoje busca aliciar mentes ingênuas.

Num filme a que assisti nesta semana, o professor de Ciências Políticas pergunta a seus alunos qual seria a premissa histórica para um governo ditatorial. Com bastante pertinência, alguém responde “Alto desemprego e injustiça social”, mas também seria possível responder de modo mais sintético: forte insatisfação com a realidade.

Hitler sabia disso. Não por acaso ele faz referência a um novo tempo, a uma nova Alemanha que possa satisfazer os desejos do povo. Quem leu A revolução dos bichos sabe que os sonhos que alimentaram a revolução muitas vezes não passam disso: sonhos. Em nome de uma pretensa liberdade, o indivíduo vai se aprisionando cada vez mais.

Hitler sabia disso. Ele promete uma nação unida, sem classes, mas pede em troca obediência plena. Só com muito esforço seremos capazes de não perceber a incoerência: obedecer a quem, cara-pálida? Assim como no livro de George Orwell, aqueles que prometem a igualdade são os primeiros a exigir privilégios. Não raro conceitos abstratos são manipulados a ponto de significarem seu próprio antônimo: Os porquinhos constroem uma muralha a fim de dar mais liberdade [sic] aos animais; Hitler oferece uma nação sem diferenças, mas com privações [sic again]. Em nome de um ideal, o povo se rende a idealizações.

Hitler sabia disso. Habilidosamente, ele engendra sua “arquitetura da destruição” (nome do magnífico filme de Peter Cohen) de modo a seus fãs perceberem apenas a primeira palavra da expressão. Em nome de um ideal, de um princípio, do sonho de uma vida melhor, o indivíduo abre mão do seu caráter, da sua consciência, da sua própria individualidade. Essa troca vale a pena? Já tratei da anulação do indivíduo em nome do coletivo quando comentei a primeira versão do filme A onda, o qual ganhou nova versão – da qual também pretendo falar. Continuo achando que as imagens podem ser perigosos cativeiros.

Encarar a realidade não é fácil. Muitos querem líderes que lhe apontem o caminho. O melhor exemplo que me vem à mente é o do professor John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos. Por melhores que tenham sido suas intenções, ele soube – etimologicamente – cativar seus alunos, dando-lhes uma sensação de liberdade. Os jovens, que deveriam aprender a importância da dúvida, acreditavam religiosamente nos dogmas de seu professor. O discurso idealizante se aproveita daquilo que todo homem maduro deveria saber: a vida não é perfeita, a vida muitas vezes é angustiante, a vida não deveria ser assim.

 Nenhum homem decente se considera plenamente satisfeito. Não há mal algum em reconhecer nossos problemas, muito pelo contrário. Daí, das nossas insatisfações, surgem os preciosos ideais, que nada mais são do que o estímulo de que precisamos para construir um futuro melhor. As idealizações, por sua vez, são a falsificação das possibilidades, são o desmerecimento ao senso crítico do interlocutor; são a malícia transformada em palavras. As palavras seduzem. As palavras alimentam sonhos; sonhos de que ela própria se alimenta. Não vale a pena saciar a fome à custa de nossa própria carne. Há quem diga, fazendo referência a Hitler, que precisamos de um líder como ele. Mas não. Ensinamento por ensinamento, este, de Oscar Wilde, enfatiza melhor a responsabilidade que temos sobre nosso próprio destino: “O indivíduo que não pensa por si próprio, na verdade, não pensa”.             

Cultura idealizada?

O diálogo que se segue foi motivado pelo texto Limitação Cultural.

 

Fonseca: Li o texto. Achei normal. Achei “Passagem da vida” e “Crescer dói” mais impactantes e bem escritos.  Esse texto novo está normal. Para mim não há nada que salte muito aos olhos e, até mesmo, achei tendencioso. Mas tem um porém aí: Minha capacidade analítica não é lá muito boa. A cada aula de leitura e interpretação de textos eu vejo isso. Às vezes, eu tenho dificuldades até em achar os movimentos do texto, oras!

Então, é melhor perguntar: Que méritos você viu no texto? Você disse antes que colocaria em seu blog textos que lhe agradassem em um ou outro aspecto. Falando desse especificamente, qual foi o diferencial? O que o motivou a escolhê-lo?

João das Flores: Tendencioso em que sentido? O texto trabalhou bem o conflito. Ele é linear, pois vale-se de uma lógica bastante racional, quase matemática. Nos outros havia mais poesia, não discordo.

Infelizmente, agora não posso colorir o texto acentuando as oposições.

Fonseca: Assumindo que adjetivo é uma palavra que caracteriza, eu achei o texto tendencioso por que, na hora de trabalhar o conflito, as palavras usadas para quem busca a cultura são positivas e para as pessoas que não buscam a cultura, pejorativas.

Aqueles que não buscam a cultura estão classificados como imediatistas, simplistas, acomodados etc.

Foi isso.

João das Flores: Wall, cultura vem de cultivo, logo, impossível não associá-la ao inverso de rapidez, imediatismo etc.

Você confunde ter opinião com ser tendencioso. Na opinião de quem escreveu o texto, a cultura é algo positivo, por isso a seleção dos vocábulos adequados a expressar essa idéia.

Dizer que o comunismo foi uma catástrofe não é, necessariamente, ser tendencioso. Seria se o indivíduo, para isso, idealizasse o capitalismo, escondendo os defeitos deste.

Fonseca: Seu exemplo do comunismo e a etimologia esclarecem um pouco.

O que me fazia achar o texto tendencioso era uma reação antagônica que eu via nele. A cultura como boa e o imediatismo como ruim. Sem que este tivesse méritos nem aquela defeitos.

João das Flores: Qual seria o defeito da cultura?

Fonseca: Eu lhe faço a mesma pergunta de forma inversa. Seria a cultura perfeita?

Cultura extensa como citada no texto exige muito tempo e dinheiro. E vamos fugir dos extremos aqui. Veja, por exemplo, a média de estudos mesmo nos países desenvolvidos. O número de pessoas com doutorado é bem menor do que o número de bacharéis. Por que isso? Seria simples preguiça de continuar os estudos? Ou há motivos mais práticos que impediriam o progresso intelectual?

João das Flores: Se cultura é cultivo, trata-se de uma ação que visa a obtenção de um lucro futuro. Sabendo que perfeito é aquilo que já está feito, pronto, acabado (em outras palavras, perfeito é aquilo que não evolui), o indivíduo que busca aumentar sua cultura tem plena ciência de que ele próprio não é perfeito – e mais: ele sabe que a perfeição é uma noção abstrata que jamais será alcançada. Não à toa, ele deixa essa questão metafísica de lado e busca conhecer um pouco mais aquilo que de fato lhe importa.

Note que a perfeição, ou o senso de perfeição, cabe mais a mentes acomodadas, aquelas que se consideram satisfeitas – quem busca a cultura foge da saturação mecanizada e massificada; sempre há algo a aprender.

Assim como na agricultura, a aquisição cultural está sujeita a boas e más colheitas. Mas isso não significa que o indivíduo deixará de plantar. Olhar, simplesmente olhar o terreno, não traz frutos.

Acrescente a isso que a cultura não precisa ser algo oficializado. Ela não se restringe a diplomas ou títulos de louvor. O fato de o indivíduo não freqüentar mais escolas não significa que ele seja um acomodado (Alberto Caeiro está aí de prova).

Fonseca: Humm, note que a minha pergunta sobre a perfeição da cultura levou a um enunciação de suas qualidades e a questão metafísica de perfeição.

Acho que apesar de interessante a pergunta e a resposta que você deu – gostei dos exemplos – cabe ainda a pergunta: Não há defeitos práticos na cultura? Não para dizer que ela não seja perfeita, mas uma explicação mais vertical do que falta de tempo ou acomodamento para não buscá-la?

Sim, há indivíduos ilustres sem diplomas não discordo. Usei o exemplo do doutorado por que para obter um é necessário muito esforço e estudo.

Uma digressão: Saindo da esfera da perfeição da cultura e entrando na de perfeição pura e simples: Qual é a metáfora, ou qual o significado escondido no nome do tempo verbal: “Pretérito mais-que-perfeito”?

João das Flores: Pretérito perfeito: passado terminado. (Você chegou.)

Pretérito mais-que-perfeito: passado terminado antes do pretérito perfeito. (Quando você chegou, eu já comera o bolo.)

Fonseca: Perdoe a minha insistência em procurar um defeito na cultura.

Eu fiquei tão espantado com a sua pergunta: “Qual seria o defeito da cultura?” que me coloquei a matutar sobre isso. Mas qual é o defeito mesmo?

Na Filosofia nunca há consenso. Há sempre um contra argumento, um filósofo que discorde, uma briga, um debate. Então, quando eu não achei um defeito na cultura fiquei pasmo.

Agora nesse caso da cultura só consegui pensar em defeitos relativos a ela, mas não em defeitos nela em si. Por isso o meu espanto e a pergunta sobre a perfeição.

É isso. Não vejo nenhum. Quem sabe em minhas leituras isso se solidifica ou eu acabo pensando em algum?

Até mais.