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Lombriga

Giulia G.S.A.

      Eu queria ser uma lombriga. Sei que falar algo assim e começar um texto com essas palavras pode assustar a maioria das pessoas, mas o fato é que eu gostaria de ser aquele animalzinho inconveniente! Para seguir com a minha linha de raciocínio precisamos dar um “flashback” até uma aula de biologia na qual eu estava sentada ao lado dele…

      Nessa aula aprendi que a lombriga causa a ascaridíase, que por sua vez nos deixa com dores, desnutrição e anemia. Ele se fixa no intestino delgado e ali se reproduz. Não foi isso que me chamou atenção, mas sim o que meu professor disse: “As lombrigas foram os primeiros seres a sentir as coisas, mas não possuem memória, portanto vocês nunca acharão um livro chamado ‘Memórias de uma lombriga’”. A partir daí tive o desejo de virar uma lombriga.

      Pense um pouco em nós, seres humanos, nojentos e amantes de corações partidos, nós sentimos tantas coisas ao mesmo tempo que naturalmente ficamos frustrados por não decifrarmos os nossos próprios sentimentos; falo isso por experiência própria. A lombriga sente exatamente a mesma coisa que nós: dor, felicidade, tristeza, amargura, amor, frustração, coração partido, raiva e tantas outras coisas. Mas ao contrário de nós, elas não se lembram de nada! É como se toda aquela felicidade fosse sentida pela primeira vez toda hora! Assim como a dor, a ansiedade, a tristeza etc.

      Mas melhor ainda é não sofrer por decepção, não sofrer por perda, não sofrer por separação e, principalmente, não sofrer por corações partidos. Já parou para pensar que as lembranças são as maiores causadoras de nossas dores? O mundo seria muito melhor se fôssemos todos lombrigas! Imagine o desgraçado, ingrato e cafajeste do seu namorado pedisse um tempo para pensar na relação, você simplesmente seguiria adiante em busca de prazeres que não geram angústia ou dor! Até mesmo a felicidade, quando se abriga na nossa memória, é uma companhia inoportuna. Mais incomoda que conforta.

      Feliz é a lombriga; sente, mas não se lembra.

 

A flor escondida

Hoje cedo deixei minha esposa dormindo e fui ao mercado da rua de trás. Já estava com o cestinho cheio de tudo aquilo que eu precisava ou desejava, mas mesmo assim continuava caminhando pelas prateleiras, vislumbrando aquelas cores e símbolos que tanto nos hipnotizam quando vamos às compras. Foi assim, agachado, mirando as latas de atum, que fui invadido por um cheiro suave e delicado de jasmim que remetia a algo distante, esquecido em algum fundo da memória. Quis saber de onde vinha a fragrância, levantei-me e contornei a prateleira lentamente – com medo de espantar o perfume? – encontrando uma pequena senhora olhando sei lá o quê do departamento de limpeza. Cogitei perguntar-lhe o nome do perfume, mas hesitei.

 

Sabendo então de onde vinha, tentei compreender aonde aquele cheiro me levava. Taubaté, onde vivi 18 meses, 18 anos atrás? Talvez. A primeira imagem que me veio à cabeça é daquele shopping a que fui duas ou três vezes, sempre com medo de ser assaltado ao atravessar o viaduto. Mas que boa lembrança eu guardo daquele lugar? Lembro-me de ter ido lá com os colegas de pensão, sem nunca conseguir concretizar os sonhos das vitrines ou os desejos dos hormônios. Mas o mais curioso é que eu não tenho nenhuma lembrança olfativa do local. O olfato é que levou até lá.

 

Continuei seguindo a velhinha, fingindo interesse pelos sucos em pó, chás em lata, cervejas importadas. Ela foi conversar com o açougueiro, eu fui investigar os congelados. Tentei identificar um ou outro aroma, mas o ambiente não era propício. 

 

Teve uma vez, em que estava no shopping com meus pais, numa das poucas vezes em que eles puderam me visitar em Taubaté. Estávamos flanando, olhando zoologicamente as vitrines, com o afastamento habitual dos adolescentes quando caminham com seus pais, quando noto uma garota cruzando meu caminho, deixando porém seu olhar no meu. Se era bonita, se era perfumada, não tenho a menor ideia. Talvez nem tivesse o poder de atração que eu lhe atribuo, afinal não desviei meu caminho, não fui atrás dela. Ou talvez tenha ido, diversas vezes, em meus pensamentos. Mas talvez não. Talvez ela seja apenas uma explicação racional, um esclarecimento artificioso para algo que eu não consigo compreender. Houve outros olhares, em situações que me deixaram mais lisonjeado, em momentos em que eu de fato precisava inflar minha vaidade, mas estes cumpriram seu destino de durar apenas o que duraram, deixando apenas um pequeno rastro que não leva a lugar algum.

 

A velhinha não a vejo mais. Acabo de pagar a conta, ciente de que não voltarei a vê-la (ela usava vestido ou calça? tinha óculos? sua aparência, em menos de três minutos, já se torna um enigma). Não importa. Se algum dia eu topar novamente com aquele perfume, saberei.

***

De onde tirei o título:

Retalhos

Visite sua memória: o primeiro dia letivo no início da finada década de 80, quando sua avó fazia questão de lhe acompanhar à escola, distante apenas quinze minutos de sua casa; as pescarias naquele riacho em que só se podia pegar alguma verminose; a horta do avô, na qual as plantas não tinham nomes nem função outra se não alimentar os porquinhos da índia; a primeira vinda a São Paulo, já para ficar, sozinho, inda imaturo, já meio perdido. Tudo bem que você não se identifique com essas imagens que sequer ganharam o registro de uma fotografia, mas pense nas suas; as recordações são uma colcha de retalhos que às vezes nos sugere ter sido construída por acaso, mas que sabemos – aos bem dotados de fósforo ao menos – possui fios e fios da uma coerência (não disse “harmonia”) às vezes inimaginável.

 Sim, essa metáfora não ganharia o primeiro prêmio de originalidade, mas isso não a torna menos verdadeira. Conforme envelhecemos aprendemos (será?) que a vida é perecível, passamos (sempre) a relembrar o que se passou e (às vezes) aprendemos com isso. A memória é uma bela interlocutora, tanto pelo que nos traz de alegria, mas também pelo que nos traz de amargor; você sabe que a vida não é guiada pelos livros de auto-ajuda, ainda que haja neles uma coisa ou outra que lhe possa ser útil. É mais ou menos sobre isso (a memória, não a auto-ajuda) que trata Retalhos, ótima HQ de Craig Thompson .

 Logo nas primeiras páginas ficamos sabendo que se trata de uma obra memorialística, o que não me é muito animador – talvez por ter pensado encontrar algo como A garota das laranjas ou  O vendedor de histórias, dois livros chochos do famoso Jostein Gaarder (aquele de O mundo de Sofia e O dia do curinga) em que nos deparamos com narradores egocêntricos que não sustentam a própria prepotência. Felizmente, eu estava errado.

 Retalhos, como o nome sugere, nos apresenta a inúmeros episódios da vida de Craig. O livro todo é feito de tensões: do seu relacionamento com o irmão, provamos da doçura lúdica, mas também do acre sabor da violência a que ambos são submetidos pelo baby sitter ou pelos colegas de escola (lembre-se de que bullying só foi reconhecido como problema ultimamente; quando eu era criança, os fracos optávamos por suportar passivamente ou por sermos taxados de afeminados, caso tentássemos reclamar);

do convívio com os pais, vemos como ternura e brutalidade ecoam de uma autoridade que nem sempre se distingue do autoritarismo; da vida social, o eterno conflito entre o indivíduo introspectivo e a coletividade acéfala;

da vida amorosa, a tensão entre desejo e castidade.  

 

  Tudo isso parece ter brotado de sua formação cristã – corrijo-me: tudo isso parece equacionado pela particular postura cristã com que ele vê o mundo a sua volta. A família de Craig é cristã, Craig é cristão, mas ele não parece sublinhar a conduta dos pais, do pastor ou de outros fiéis. Na verdade, mesmo na religião, ele se sente isolado, inseguro.

 Inseguro – convém analisar essa palavra. Craig sempre foi um jovem frágil, daqueles a quem uma força interior é imprescindível para suportar a desordenança do mundo. No entanto, ao contrário dos depressivos, ele percebe a importância de criar – a partir do próprio eu – uma nova ordem, um novo modo de encaixar-se no volúvel e labiríntico espaço. Muito bonito e significativo é quando ele queima seus desenhos, desapegando-se de um passado que urge ser deixado para trás.

  Hoje, olhando para trás, percebemos que pequenos atos, equivocados até, certas dores, que certamente gostaríamos de ter evitado, ajudaram a criar o indivíduo em que nos tornamos. Sim, quando olhamos para trás, toda aquela aleatoriedade, todo aquele caos de diferentes tecidos e texturas, toda a nossa vida possui um fio aparentemente desordenado que só ganha sentido agora, depois de pronto. Mas não se alegre muito. Ainda estamos a costurar; há mais retalhos pela frente.