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pão que se alimenta da fome

 Escavações recentes comprovaram que sob as calçadas da avenida Paulista não há terra, somente camadas de concreto e rochas inférteis. O que então impede as ratazanas de se exporem à nossa admiração e espanto em busca de comida e afeto? Acaso se alimentam dos anônimos que, desgostosos dos ares cotidianos, se entregam às entranhas do metrô?

O canto das estrelas

Cíntia Mayumi

      O céu brilhava sobre a praça, brilhava sobre sua mente ansiosa. Mas ela não parava de pensar “O que fazer, para onde ir?” – e olhava para o céu, esperançosa.

     Esperava uma estrela cadente; seu único desejo era uma resposta. E insistentemente perguntava ao céu.

     As estrelas insistiam em retrucar; retrucavam com o único dom que possuíam. Mas, a despeito do espetáculo do céu, a menina parecia não notar.

     E as estrelas, brilhando em revolta, possuíam um canto, quase imperceptível. “O que fazer, para onde ir?” – ela perguntará sempre ansiosa, até aprender a ouvir o canto inaudível.

momento branco

manhã branca

peixe branco

uma

polegada branca

(Haroldo de Campos)

– A tela esconde ideias, lança nuvens, penumbras, terra escura sobre as palavras que queremos encontrar. Essa, neste momento, é a função da sua arte. Comunicar-se num mundo em que camadas de preconceito, intolerância e indiferença se colocam entre o eu e o tu seria o pecado mortal do artista consciente de sua arte. É vital que se diga a todos os ouvidos o ruído. Mais do que o silêncio, que sugere paz, tranquilidade, calma, o ruído estimula, excita e incomoda. A recusa é, de certa forma, uma espécie de afirmação. Dizer sim para o nosso tempo, sua complexidade, seus meandros, é balbuciar algo impronunciável, gemer uma interjeição não compreensível, sussurrar o inefável.

Ouvindo aquilo tudo como se ouvem antigos ecos nunca esquecidos, ela sorriu, admirando a energia que se desperdiçava com tanto empenho. Uma brisa tocou o seu rosto, harmonizando com o frescor do suco que o garçon havia acabado de trazer. Admirava as conversas; delas algo de grandioso sempre pode surgir – mas naquele momento ela queria mesmo era fruir o instante, sentir o vazio, como se o perfume daquele limão rosa, com suas camadas de açúcar e acidez, pudesse se fundir com a plenitude que só a quietude a dois pode trazer.

Da ponta do lápis

Algo em minhas fibras me diz que não sou daqui. Uma sensação de falta, certa ausência em meus contornos, como se eu tivesse sido amputado de algo maior; algum galho, quem sabe um tronco.

Bobagem minha talvez. Será essa forma diminuta, cilíndrica, que em nada se parece com uma cerejeira ou eucalipto, a dimensão do meu ser, o corpo da minha psique? Terei sido outra coisa antes de ser eu mesmo? Até quando serei o que sou? Se tirassem de mim a grafita, ainda assim permaneceria? Ou será ela o núcleo da minha consciência?

Quando me apontaram pela primeira vez, temi, sem saber ao certo o que temia. Gastaram-me a grafita, apontaram-me mais uma vez. E outra e outra vez. Sofri, mas resisti, sendo se não mais o mesmo, mas ainda assim de algum modo ainda eu.

Por sofisticação ou desleito, apontaram-me a outra extremidade, causando-me o mesmo incômodo, mas uma nova preocupação: eu, que já não era galho ou tronco, já não era mais o mesmo de uma, duas semanas. Mas ainda era algo ciente ou pretensamente ciente do que era. Se continuarem me gastando a grafita, se continuarem me apontando, e sim farão isso, até quando permanecerei? Haverá uma nova consciência, um saber das raspas; de algum modo ainda serei?

de retalhos

O que sobra da vida se lhe tirarmos os instantes, não aqueles forjados por fotografias enganadoras, mas aqueles que acontecem sem que percebamos, aqueles de que iremos nos lembrar quando desejosos de alegrias e felicidades olharmos para trás?

Aos instantes cujo sabor se destaca na amargura ou pela amargura, um toque de permanência lhes convém. Preciosidades hipotéticas, sublimações ilusórias? Que seja. Ao cofre em papel e grafite, ou em guardanapos, lenços sujos por um ou outro lamento, uma alegria esganiçada, ao cofre, por que não? Às vezes as impressões surgem antes dos pensamentos, às vezes os pensamentos se disfarçam de impressões. Abriguemo-los, cativemo-los, quem sabe o que eles serão? Se forem um agudo sentimento que se revelarão ao lhes revisitarmos, se forem apenas um arremedo, uma caricatura, um clichê do qual nos envergonharemos, já serão alguma coisa nossa, para nossa glória ou nossa vergonha, mas uma coisa nossa.

Chão

   No escuro do quarto, as pétalas de jasmim mantinham uma pequena lembrança do perfume de quando foram colhidas. Pensava nas estrelas já mortas em algum rincão da via láctea, estrelas que ainda sobreviviam imaculadas neste ou naquele ponto, quase invisível na imensidão noturna. Assim ela seria recordada, a cândida virgem que um dia se perdeu na escuridão da vida? Qual seria sua herança?

Encruzilhadas

   Aquele cheiro aguado antecipava o gosto-desgosto que estava por vir. Resolveu devolver o copo à mesa, na vã tentativa de se esquecer dos porquês que o levaram a ir àquele desconhecido bar na Consolação. A fumaça, visitante ilegal naquela paragem, lhe incomodava menos o olfato. Este era o preço, mas haveria mesmo uma recompensa? Logo iria saber; a imagem de Leine fazia-se notar na penumbra que iluminava o canto oposto do salão.

   “Os dias andam ásperos” – alguém falou, iniciando a conversa. “Ou talvez a aspereza pertença ao tato” – respondeu-se. E assim, aforismos seguidos de hipálages, ensaiou-se o diálogo.

*

   O sábado deixava o metrô das sete mais agradável. Sem aquelas pessoas comandadas pela agenda, pessoas sem finais de semana, pessoas sem ausências a serem preenchidas, era mais confortável abrigar-se ali. Mas, resquícios do cotidiano?, outros estranhos compartilhavam o espaço, invadiam-no, como se quisessem capturar um respingo de dignidade, algo que lhes desse sentido à vida mesquinha. Pobres coitados.

   Na verdade, não se importava com eles. Assim que a estação chegou, deixou-os no vagão, como se fossem não mais do que instrumentos para sua retórica, agora em busca de outro alvo, seja nas escadas-rolantes, na calçada, no bar – enfim, no bar. Ciente ou não, deu a seu rosto um ar de confiança pouco antes de avançar na fumarenta sala à qual se destinava. Lá estava ele com aquela cara de sempre, e agora também ela lá estava. Mais do que teses, ambos apreciavam antíteses, paradoxos, oximoros.

*

   Vadim levantara-se. Naquele boteco pseudonaif, só havia garçons na hora da gorjeta. Ri do modo como ele falava; aqueles trejeitos, longe de surpreender ou evocar uma nova masculinidade, mostrava o quanto ele ainda era pueril. Agora está lá falando com o suposto bartender, como se um dos dois entendesse qualquer coisa de bebidas. Garotos…

   Cá eu, sozinha, num hiato entre uma e outra relação, catando sobras de luz de uma penumbra qualquer, distraio-me com o jovem casal a meu lado. Ele, que pedira um copo de whisky para exibir maturidade – talvez a ele mesmo –, tenta disfarçar o suor das mãos. Ela, com seus gestos projetados, nem parece perceber o quanto é artificial. Mas, cada qual a seu modo, parece que o plano está dando certo. Ele a olha como a uma esfinge; ela sente que não mais o domina. Oaristos de um lado a outro. Em menos de cinco minutos, eles encontrarão seus caminhos. Mas não ficarão contentes com isso.