Arquivo de Tag | millôr fernandes

Meio e Fim

Layla Mouallem (laylinha000@gmail.com)

A temática ambiental parecia ser, até pouco tempo atrás, capricho de alguns excêntricos. Ambientalistas não conseguiam ser ouvidos em decisões regionais e, muito menos, globais. A humanidade fingia não fazer parte da natureza e abusava dela de maneira inconseqüente e insustentável. Talvez o homem nem sequer projetasse a longo prazo o resultado de suas ações, mas um ponto é fato: esse prazo chegou, e os resultados não são nada releváveis.

Em uma de suas crônicas, Millôr Fernandes escrevera: “um recém nascido é a prova de que a natureza ainda não desistiu do ser humano” É interessante notar que o advérbio funciona ainda que invertamos sujeito e objeto: ainda não desmataram os 41% restantes de Mata Atlântica, ainda não poluíram todos os rios do planeta, ainda não fizeram da atmosfera um mar de dióxido de carbono. Como muitos parecem rebaixar esses assuntos para planos secundários, todas essas tragédias e outras piores podem estar mais próximas do imaginado.

Não faria sentido um ser humano destratar seu meio, a não ser que seu lado sentimental e subjetivo tenha sido silenciado por um equivocado senso de razão. Percebe-se que o homem perdera, ao longo da história, seu carinho e cuidado com a natureza devido a um raciocínio pretensamente tecnicista e evolucionista ter-lhe dominado a cabeça. Isso pode ser conseqüência de seu fascínio pela tecnologia, indústria, produção em massa e resultados a curto prazo. Há também uma culpa na educação: não por acaso, as que recebem maior incentivo do governo são aquelas que priorizam o ensino técnico, ou seja, se preocupam muito mais com a formação de uma mão-de-obra necessária ao mercado do que com cérebros analíticos e desconfiados em relação a questões mais intrincadas e menos imediatistas.

Em resposta a esse caos, empresas cientes do contexto ambiental do globo têm priorizado funcionários com olhar e conhecimento mais abrangentes. Certamente, esse seria o melhor caminho para a humanidade seguir; educação é a base do homem e o homem o principal catalisador dos rumos do meio ambiente. Desse modo, quem sabe algum dia a frase de Millôr Fernandes possa ser reescrita: “houve um momento em que a natureza insinuou que desistiria do ser humano, mas as idéias recém nascidas na humanidade não permitiram”.