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Uma questão de vocabulário

 Até quem nunca leu o romance 1984, de George Orwell, ou assistiu à sua adaptação cinematográfica, já deve ter ouvido falar da novilíngua. Ao contrário do que se espera dos dicionários, por meio da novilíngua, palavras eram condensadas ou removidas do vocabulário. Desse modo, extinguindo palavras, extinguindo-se seus sentidos, consegue-se restringir o próprio pensamento.

 Em sala de aula, eu gosto de explicar esse processo lembrando meus alunos das sutis, mas importantes diferenças entre: felicidade e alegria; amor e paixão; pessimismo e ceticismo; comer e alimentar-se; à toa e em vão etc. e tal. Vocabulário, repito: quando devidamente compreendido, é capacidade de raciocínio, ajuste fino da sensibilidade, do intelecto. Por isso, gosto muito de uma tática inversa à novilíngua.

 Quando um termo se desgasta, é preciso que procuremos seus sinônimos. Lembrando que sinonímia não indica igualdade, mas proximidade, quando aferimos sutis diferenças, aprendemos a focalizar com mais precisão, a tornar nossas antenas mais aptas a captar os ruidosos sinais que os dias, a despeito de nossa vontade, transmitem (ou: ecoam?). 

 Toco no assunto por causa de Memento Mori, novela de Muriel Spark. É o segundo livro dela que eu leio – quando li o primeiro, Escola para a vida, tive a sensação de que bastaria um conto, ou seja, um terço das páginas, para que ela contasse o que contou. Não, a escrita não é ruim, a trama não é exatamente esquemática, mas temos a sensação de que as personagens são caricaturais demais para exigirem 150, 200 páginas. Meu paladar apreciaria mais se o mesmo sabor estivesse numa porção menor. Mas, gostos à parte, voltemos à questão da linguagem.

 O livro focaliza a vida de um grupo de idosos já em fins do outono metafísico. Pouco a pouco, todos eles passam a receber um estranho telefonema alertando-os: “lembre-se de que vai morrer”. Todos eles, praticamente, recebem o aviso como uma espécie de ameaça. Apenas duas exceções fogem à regra: Jean Taylor, governanta aposentada, que vai viver num asilo público; Henry Mortimer, inspetor de polícia aposentado, que juntamente com a esposa passa as tardes cuidando do jardim ou brincando com os netos. Ambos percebem que o aviso não é nada mais do que isso, um “memento mori”, um lembrete da nossa mortalidade, um “carpe diem” dito de outra forma, num modo mais soturno, menos floreado, menos solar. Taylor, um pouco por ser pobre, bastante por estar seriamente adoecida, compreende o recado, mas não pode usufruí-lo. Mortimer, aparentemente já seguindo a dica antes mesmo de recebê-la, lembra Marlon Brando brincando com o neto naquela famosa cena de O poderoso chefão; a proximidade da morte o assusta menos que a possibilidade de esquecer que está vivo.

 As duas expressões latinas, Carpe diem e memento mori, lembram-me aqueles chocolates embrulhados com papéis coloridos em festas de aniversário na extinta década de 1980. Escolhamos a luminosa embalagem amarela ou a sombria azul marinho, o gosto não chega a mudar. Seja pelo otimismo adolescente, seja pelo temor da maturidade, não importa de onde venha a dica, o importante é captar a lição: o presente não deve ser menosprezado.

Escola de Intervalos

 

Uma escola para a vida, de Muriel Spark, é um livro pequeno e ágil, daqueles que conseguimos terminar numa madrugada de insônia. O enredo é simples: Rowland Mahler e sua esposa Nina Parker dirigem o Colégio Sunrise, uma itinerante finishing school, pequena escola elitista onde nove jovens recém-saídos do colegial aprimoram-se nas mais diversas artes (moda, boas maneiras, culinária, decoração, redação, entre outras perfumarias…) antes de seguirem para uma faculdade. De acordo com uma resenha saída na época de lançamento do livro, 2005, trata-se de uma história de dor-de-cotovelo literário. Mas não é bem isso.

A mais óbvia – mas não a única nem a principal – das ironias do livro é apresentada rapidamente: Rowland, o responsável pelas aulas de redação criativa, está sofrendo de um bloqueio criativo, que o impede de dar sequência a um livro que vai se arrastando ao longo da narrativa. Para piorar, um de seus alunos, Chris Wiley, de apenas dezessete anos, está escrevendo um inovador romance sobre Mary, rainha da Escócia, acusada de assassinar seu marido. Inocente? Culpada? A esse enigma sem solução, o jovem estudante decide apresentar uma nova teoria, cujos detalhes não interessam a esta resenha. Pouco a pouco, Rowland sentirá ciúmes do seu pupilo. Peraí! Eu disse “pouco a pouco” e não “sem mais nem menos”. Vamos aos motivos:

Poderia dizer que Chris é um jovem muito pretensioso – mas isso por si só talvez nem seja um defeito dos mais graves; poderia dizer que Chris possui uma autoconfiança extrema – mas isso também não parece ser um crime capital. No entanto, pegue essas duas características e some a uma ineficiente autocrítica – pronto! Temos um típico adolescente egocêntrico, daqueles que julgam ter o rei na barriga.

Rowland, dominado pelo ciúme, não percebe nada disso. Para ele, Chris é um jovem talentoso que irá vencer a corrida e publicar um livro de sucesso antes dele, o professor. Por despeito, ele tenta se convencer de que o garoto nada mais é do que um escritor imaturo, cujas hipóteses ousadas revelam apenas desconhecimento da história propriamente dita, cujas opções formais são fruto menos de um inovador senso estético do que de um desleixo típico da idade. Mas, corroído pela inveja, ele não consegue se persuadir; o garoto é mesmo um artista prematuro.

Chris parece ser bem sucedido em todos os aspectos. Sua mãe e seu tio, os responsáveis por sua educação, não se opuseram a que ele fosse estudar fora de casa, numa escola liberal e flexível que lhe daria total liberdade e sossego para que ele escrevesse seu romance em paz. Além disso, ele curte um romance com Célestine, jovem cozinheira da escola. Agora, deixemos as aparências de lado: primeiro, o livro insinua que os responsáveis por Chris mantêm uma relação incestuosa, daí o interesse em cultivá-lo longe de casa a maior parte do tempo; segundo, só há dois alunos homens na escola, o outro, Lionel Haas, além de ser mais inteligente, flerta com a moça mais culta da escola, Lisa Orlando, a qual se tornará professora de Psicologia em Southampton. Não há como negar: sua liberdade e seu charme só se destacam quando lemos com desatenção.

Sunrise é um escola de intervalos, uma espécie de lugar-instante extirpados do tempo, um ponto crucial para a transformação de seus personagens. Nina percebe que seu casamento se reduziu à sociedade que ela mantém com Rowland. Não há discurso indireto livre que não revele seu desejo de dar um pé na bunda do marido. Este, por sua vez, sente-se extremamente incomodado por Chris, mas não consegue expulsá-lo de sua vida. E Chris, mesmo sabendo do ciúme doentio que o ronda, sequer pensa na possibilidade de sair da escola. Desvendemos essa curiosa relação.

Chris e Rowland, apesar dos pesares, dependem um do outro. Nenhum deles sabe, mas se tornou fonte inspiradora para o romance do parceiro-adversário. Rownland romanceia sua própria experiência didática; Chris inspira-se nos ciúmes de seu professor. Um mais hipócrita que o outro.

O jornalista Daniel Piza, autor da resenha a que eu me referi lá em cima, quis ver a si próprio nessa história. De acordo com ele, Rowland “parece até um intelectual brasileiro, sempre com dor-de-cotovelo dos que têm mais talento e juventude”. Além da generalização tipicamente mal colocada, é impossível não perceber a implícita autorreferência ao jovem talentoso. Menos, por favor. Sem contar que Chris, ao contrário do que o resenhista insinua, não se dá melhor que Rowland. A verdade é que ambos brigam, ambos escrevem seus livros (Chris torna-se um autor “legível”, sucumbindo àquela despeitada, mas certeira previsão a que me referi no quarto parágrafo), ambos se reencontram, fazem as pazes, tornam-se sócios e concretizam as apostas de todos os adultos que acompanhavam o caso: tornam-se um casal.

Talvez vejam no desfecho certa homofobia (por que os gays são desajustados?). Bobagem. Todos os personagens adultos da novela são desajustados que buscam se ajustar. O livro não trata apenas de um mero ciúme, mas da paixão em suas mais diversas e doentias vertentes. Se não entendermos assim, a novela se torna fraca, mal escrita. O jovem e supostamente talentoso aluno está muito longe de ser um modelo, um ideal; na verdade ele é banal e medíocre como a maioria daqueles que, na falta de um senso crítico apurado, deixa-se enganar por um ego gigantesco.

 

P.S.: O Piza, que escreve muito bem e que já fez ótimas resenhas, nessa comete alguns deslizes, além dos já citados: “o solitário Tilly” na verdade é uma moça, e é ela quem engravida, não a bobinha da Mary Foot. Mas não posso culpá-lo. Até o tradutor, Domingos Demasi confunde-se com o gênero dos personagens, ora tratando a jovem Pansy por homem (p. 6), ora por mulher (p. 120). Fora os trechos de construção ambígua.