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Revisitações idealizadas

[exercício redacional: dissertação básica]

A casa dos avôs, o pátio da escola, as festas com a família, até mesmo o gosto das frutas parecia diferente. Conforme se folheiam as fotos do velho álbum, diversas lembranças vão sendo retomadas – reconstruídas? – na memória. Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Isso, porém, talvez não seja resultado da vivência de épocas deslumbrantes, mas sim do contrário.

O presente, só este ínfimo e fugaz espaço de tempo, nos pertence. O resto é abstração, é aquilo que já nos pertenceu ou que irá talvez nos pertencer. Em todo caso, no presente do indicativo de nossa vida, só temos mesmo esse instante, e é a ele que devemos devotar nossas preocupações e empenho.

Muitos indivíduos, porém, parecem viver no passado. A distância temporal parece fazer com que eles não mais percebam nitidamente que aquela época também tinha seus desagrados. Mas o pior de tudo é saber que, por melhor que ela tenha sido, ela já foi, não existe mais. Se o indivíduo quiser retomar aqueles prazeres, se quiser reviver aquelas situações, é imperativo que ele volte a focar seus interesses no presente. Só assim, e não esperando um milagre divino, ele poderá viver o tempo que de fato ele possui.

É verdade que as abstrações são importantes, que a memória deve ser preservada. No entanto, o que não pode acontecer é um fetiche pleno das lembranças. No final da vida, provavelmente, elas serão nosso bem mais precioso, mas até lá o melhor a fazer é garantir que nossas boas recordações não venham apenas de um pequeno intervalo de nossa vida.

A casa do meu avô.

[exercício redacional: relato]

Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Não digo da infância toda; ir obrigatoriamente às aulas de catecismo, ficar de castigo, perder a tampa do dedão jogando bola na rua são, de fato, experiências que não gostaríamos de reviver. No entanto, mesmo os desprazeres, vistos agora de grande distância, parecem ter seu colorido, seu encanto.

Foi na casa do meu avô, por exemplo, que tive o primeiro contato com outras formas de vida: lembro-me de ficar olhando diversas folhas contra o sol – aquilo que lhes parecia veias a lhes carregar a seiva sugeria-me mesmo um percurso, uma espécie de mapa rodoviário que eu já começava a folhear com interesse. Foi lá também, na casa do meu avô, que pela primeira vez vi – e que brinquei com – gatos e cachorros. Talvez tenha sido ali que eu percebi que uma criança pode ser ruim com os mais fracos. Não tenho orgulho dessa lembrança, mas acho que esse episódio me ajudou a corrigir uns defeitos.

Naquela época eu sempre jogava bola no campo à tarde. Às vezes estávamos apenas eu e um amigo. A gente ficava batendo falta, chutando a bola um contra o outro. Do lado do campo, havia um riozinho do qual nunca conseguíamos tirar peixe algum. À noite, porém, a diversão era garantida. Como havia muitas árvores e alguns terrenos baldios perto de casa, os meninos gostavam de brincar de esconde-esconde.

Hoje talvez o campinho não exista mais. Algumas árvores podem ter caído, brotos podem ter sido plantados, casas podem ter sido erguidas naqueles terrenos. Ou talvez não. Pouco importa. A infância não são os lugares onde a gente viveu, mas sim as situações, o contexto todo. Talvez a casa de meu avô ainda exista. Mas ele não está mais lá, e aquele menino que o visitava não é mais o mesmo.