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Selênica caminhada

Eis a verdade, aquele finíssimo arco luminoso, de um bege meio sujo, até que tinha seu charme. Nada me parecia mais poético e dionisíaco do que ficar deitado no quintal, vislumbrando por entre os balançantes galhos das laranjeiras, aquela solitária e distante esfera cujo brilho sequer era seu. Quer metáfora melhor para o adolescente que recebia palmas pela estulta obediência, enquanto sua escondida sagacidade permanecia, assim, escondida? Cacete! Como a lua me deixa brega… Tiro os olhos dela e miro o garçom. Mais fritas?; a dieta não permite, mas deixo vir o Johnny para afagar o hálito.

Se não houvesse esses prédios, a Bela Vista até faria jus ao nome. Justamente ali, onde agora desce a Nove de Julho e seu trânsito passional, haveria um… Não, se eu continuar com essas divagações, o Gílson vai pegar no meu pé, preciso encontrar algo para ver – Isso: ver, não imaginar! O garçom com sua baby-look marrom? Não, o pessoal já está achando que eu sou viado, melhor me concentrar numa mulher – ai, que menina ridícula olhando para mim! Hum… aquela senhora é bem atraente – Puts! Ferrou, agora minha esposa que vai ficar brava por eu estar aqui xavecando essas vagabundas. Garçom, faz o Johnny pra viagem, ok?

O jeito era buscar assunto em outras bandas; aquele boteco cheio de catraca-livre até renderia uma boa crônica, mas deixemo-lo ali, com suas enferrujadas cadeiras dobráveis de metal, seus guardanapos empoeirados e sua controversa freguesia – levemos apenas o Johnny paraguaio que após a segunda tragada encontrará o bolor veranista da sarjeta. A Frei Caneca nos aguarda.

Ainda no bar, porém, calculo como sair dali, da Pamplona, em busca de um bar menos insalubre, lá na região colorida. Engraçado é que, depois dessa reviravolta toda, eu volte a virar meus olhos para aquela lua finíssima, quase ausente. Se não me engano, e certamente não me engano, a lua minguante sempre aponta para onde o Sol vai nascer, ou seja, para o leste. Como a Augusta fica a oeste da Pamplona, basta seguir o sentido oposto ao sugerido pela lua, simples assim; em cinco ou dez minutos estarei num barzinho bacana ou na fila do Espaço Unibanco. Seja como for, até lá, convém prestar atenção na caminhada, vai que rola uma crônica e o Gílson liberta um sorriso por trás do bigode. Aquele emaranhado de cabos, caindo de poste em poste, por exemplo, sugere a esperança que se renova todas as manhãs para ser corroída ao longo do dia. As semanas, os meses, inda que não a esfolem, deixam nela uma gordurosa camada de poeira que se confunde com a própria epiderme; aparência e conteúdo…

Epa! Controle-se, Baby!, pare de viajar e volte os olhos à rua, ‘tá vendo? Quase que leva um tombo! Pois é, a calçada parecia uma escada ensandecida, cujos degraus não sabiam se tombavam ou se erguiam, se gingavam para a direita ou para a esquerda. Com um pouco de esforço consegui driblá-los, mas quase que torci o tornozelo. Maldita desatenção! Ou talvez tenha sido culpa do Johnny, talvez do Gílson, que… caceta! Lá vou eu novamente me perdendo em devaneios. Chega, agora poste é poste, descida é descida, viela é viela, beco é beco… beco? Onde raios fui me meter? Dez minutos de descida e nada de Augusta, Frei Caneca ou Peixoto Gomide! Só essa ladeira pançuda e abandonada que se construiu às minhas costas. Evidente que entrara em alguma rua por engano, caso contrário não estaria aqui, mas que erro besta eu fui cometer para estar… onde será que estou? Ali, na frente, atrás da montanha de prédios tem uma torre que eu me lembro de ter visto… no início da Paulista? Então pronto: mistério resolvido, eu devia estar mais ou menos atrás do prédio da Gazeta, fui exatamente na direção contrária à qual eu tinha de ir. Eu teria ficado naquela rua pensando nos porquês, mas o barulho de passos atrás de mim fez com que eu descobrisse uma curva onde julgava haver o beco, cambaleando adentrei-me a um “bosteco” após quase destroncar os joelhos numa corrida cega morro abaixo. Longe de mim ser um covarde, mas é que bateu uma sede daquelas, desejava a seco o chá gelado de laranja com gengibre, aquele com zero calorias. Aqui não tem essas coisas de viado, não! Então traz o Johnny.

Com o Johnnynas mãos, as costas no balcão, fantasiava uma pose de quem estava à vontade no lugar. Mas quem reparasse direito notaria na hora a mão desmunhecada na cintura e as geladas gotas de suor abandonadas na testa. É, chapa, em que canto de bunda fui me meter? Atrás de mim, o garçom percebia tudo sem nada se importar; na mesa vermelha à minha esquerda, um inexplicável casal hétero trocava sorrisos sacanas quando já deveria ter se deixado levar pelo desejo obsceno que ambos tentavam esconder; aconchegada em trapos do outro lado da rua, debaixo de uma sombra, uma criatura parecia dormir. Mas os passos que é bom nem deram sinal de aparecer. Dou uma tragada, a ardência amarelada da bebida veio desacompanhada do sabor fumarento que eu, iludidamente, cogitava encontrar. Tacar o copo no chão, reclamar com o garçom, pedir uma copo d’água com açúcar? Mas que nada! O esquema era descobrir onde era a saída para dar o fora dali, discretamente, sem despertar a atenção dos malacos que vislumbrei no escuro do bar assim que pedi uma segunda dose.

– Não tenho troco para tudo isso! – disse-me baixinho o garçom, como se insinuasse os maus lençóis em que fui me abrigar. Talvez, ele se divertisse comigo, pois pegou a nota de vinte e se deslocou para o banheiro, deixando-me ali, só com meus pensamentos.

Bom, é isso. Dane-se a crônica! Ficar olhando esse povo só me traz apreensão, esse azulejo lavado com água suja quase não se aguenta na parede, dá até para ver uns lances de tijolos ali perto do teto… Para, para com isso! Você aqui perdido, no meio de um monte de notívagos que jamais viram a luz do dia ou a umidade de um banho, vai ficar se preocupando em descrever a cena? Até o Gílson me repreenderia. (Não, nesses casos, é preferível correr a observar!) Mas correr para onde? Essa lua nó cega que dois dias atrás sequer estava no céu veio aparecer só para me…

É isso, bugalho! A lua que me iludiu não era minguante, mas crescente. Logo, ela estava apontando não para leste, mas para oeste. Consequentemente, eu, seguindo o caminho oposto… Notei que o barman me olhada com se eu fosse um almofadinha soltando a franga e contive minha animação. Causa encontrada, faltava buscar o desfecho. Como eu faria para escapulir dali, daquele quarteirão pútreo? Não era preciso ser muito esperto para temer um furto ou mesmo um roubo ou, ai, ai…, parece que a moda do sequestro voltou. Sim, os camaradas pegam o um sujeito qualquer que nem eu e conseguem, à custa de posteriores dívidas bancárias, uns cinco, oito mil da família. Minha esposa, chateada por eu tê-la deixado em casa, assumiria a bronca? Meus pais, a quem não honro com uma ligação há três meses, mandariam algo além das condolências? Melhor não arriscar. Saio do bosteco, pego o caminho de volta e, com a coragem de quem não tem nada a perder, encaro o morro – não sem antes abandonar meu dinheiro e todos meus documentos numa faminta e escura boca-de-lobo. Agora sim, sentia-me protegido. Mas chega de papo, oito quilômetros me aguardavam até chegar em casa – o Gílson que me perdoe, mas não tive ânimo para anotar nada no meio do caminho.

 

Fios noturnos

No teto, os adesivos fosforescentes simulavam um delirante céu onde estrelas, lua e sol, dispostos de modo a ofender qualquer princípio de cosmologia, brilhavam ao mesmo tempo. Mesmo assim, era bonito. Não o que eram, mas o que simbolizavam: o carinho e a dedicação que os puseram lá, dando um ar coloquial e rústico, inda que descabidos, à nossa aconchegante alcova. Ao menos, a leve cortina branca que descia quase do teto até quase o chão, impulsionada pelo zéfiro noturno, parecia dar formas femininas a esse esquecido deus grego. Para que tudo isso? Essa decoração programada para nos atrair ao mundo de Morfeu, de tanto racionalizada, mais desperta nossa atenção do que… e esse guarda-roupa que até semana passada era coberto por um irrelevante marrom? Lixado, descolorido, pintado de branco, coberto de verniz, adquiriu manchas amareladas que lembrariam antigas pinturas japonesas, mas – que ela não me escute – lembram apenas um velho muro perdendo as escamas. Bom, felizmente, ela está dormindo, assim tenho um pouco de paz. Se há coisa pior do que ficar encarando esse tresloucado painel de absurdos, só mesmo enfrentar a minuciosa descrição do cotidiano a partir do ponto de vista de uma mulher que já conquistou seu marido. Digamos que seja uma vingança contra Adão, pois quando Eva lhe foi apresentada teve de ouvir tantas histórias sem pé nem cabeça a respeito da criação das coisas e dos seres que não é nenhum disparate saber que ela preferiu aprender a língua dos ofídios. Tá certo, tá certo… tenho de reconhecer que nunca vemos a própria olheira e que só o peido dos outros nos incomoda. Na medida em que…

Calma! Mas que coisa é essa? De onde vem esse sopro sibilino? Mais do que um respirar, menos do que um sussurro. Não é da janela que esvoaça a cortina, lançando sombras macabras no guarda-roupa descolorido como lápides de cemitério; não é da minha esposa cujas orelhas ardiam agora há pouco; não é do enorme e macio gato pedrês que se aconchegou entre nós. Nem a esposa, nem o gato, nem o vento, parecem perceber o fio sonoro que se estende pelo quarto. Quem dera fosse o bule de chá; camomila cairia bem numa hora dessas. Felizmente, porém, o barulho não vinha da cozinha; assim eu poderia permanecer na cama.

Cogitei estar sonhando. Evidente que aquelas formas sombrias que a cortina imprimia no guarda-roupa não poderiam ser literais; julgo mesmo que o amarelado parecia escorrer lentamente, símbolos da evanescida consciência. Enfim olhei para o teto, prova definitiva de que, enfim, estava onde queria e deveria estar, mas nada nele parecia confirmar minha hipótese. Melhor assim, pois se há algo pior do que a insônia, só o pesadelo, mas se há algo pior do que um sonho ruim é vigília infrutífera. Até parecia que tudo isso fosse mesmo um pesadelo, daqueles que nos dão e nos tiram pistas, que sugerem e renegam, insistindo no vai e vem típico das ilusões. Confesso que vez ou outra tentei flutuar, partir-me em dois ou mesmo fundir-me ao travesseiro, mas não adiantou; a única coisa concreta era, veja só, o sopro insistente que parecia nascer debaixo da cama.

Ciente de que ele era real, tinha duas alternativas: esticar-me para o lado e inquirir ao escuro o que lá havia ou esticar-me para dentro e inquirir à imaginação o que poderia ser – nem passou pela minha cabeça acordar minha esposa e ficar exposto ao seu entusiasmo em me contar seus sonhos. Pois bem, passei as costas da mão esquerda na testa, senti um princípio de suor e reparei que já se passavam das duas – e o barulho, tão insistente, murchava, sumia, deixando-me a sós comigo mesmo; pior companhia não há. Basta! Girei para o lado esquerdo, desci – quase caindo – da cama e tateei o breu até derrubar algo líquido que não escorreu. Quanto de tempo eu teria economizado nessa empreitada se tivesse me atentado a uma pequena garrafa d’água parcamente fechada, de onde escorriam finos fios de ar? Tão finos quantos os resistentes e fugazes fios que tecem nossa farta imaginação.