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Das vitrines

Michell Lee

 Andando pela avenida, o indivíduo depara-se com um sujeito muito curioso. Pelo reflexo de uma vitrine, o vira fazendo uma careta: o levantar de sobrancelhas com um sorriso enigmático despertara intensamente o seu interesse. Fez, então, o caminho de volta para casa imitando, continuamente até a total semelhança, a careta do tal sujeito. É assim que Oliver Sacks descreve, em Um antropólogo em Marte, uma das características da síndrome de Tourette: a obsessão por imitar o comportamento alheio. Essa compulsão, entretanto, não se limita a um caso clínico. Ela levanta um questionamento se há, de fato, no indivíduo uma personalidade consolidada ou se se trata apenas de um plagiador que expressa feições de outrem. Percebe-se que muitos de nós agem de maneira semelhante: acreditam possuir uma personalidade desenvolvida com caracteres exclusivos, mas imitam outros, quase sempre de forma inconsciente. Vemos, desse modo, que a ânsia de valorizar a própria individualidade é equivocada: a construção de um “eu” sempre envolve influências extrínsecas.

Somos naturalmente o resultado de uma composição de personalidades. Em um de seus artigos, o ensaísta Daniel Piza, sugere que nós somos seres contemplativos: aprendemos pela imitação. Assim, ele prossegue afirmando que o próprio design do cérebro é adaptado para captar movimentos e detalhes que pareçam informativos ou estimulantes. Para ilustrar essa ideia, basta tomarmos como exemplo máximo e caricatural o pseudodocumentário Zelig, de Wood Allen. Nele, o personagem que dá nome ao filme está constantemente assimilando características e feições daqueles que o rodeiam, sendo por isso chamado de “camaleão humano”. Percebemos que, em maior ou menor intensidade, todos somos “camaleões”: somos levados a interagir e a nos comportar de acordo com o que aprendemos com nossos pais, parentes, amigos, filme, livros. Não há dúvida de que o indivíduo seja em parte uma remodelagem das influências que ele recebe.

O que nos caracteriza, entretanto, são as nossas singularidades – de nada adianta somente se camuflar. No filme, Zelig torna-se conhecido por alterar a sua fisionomia e caráter toda vez que se sente acuado e inseguro. Ou seja, Zelig abandonava constantemente a sua real essência para se tornar igual aos outros, irrelevante, obtendo assim uma aparente segurança. Em uma análise mais profunda, percebemos que a crítica de Woody Allen é direcionada à massificação da sociedade, na qual os indivíduos agem como “zeligs”, abdicando do seu “eu” de forma irracional. Contudo, essa busca por aparente aceitação social impede a formação de uma real personalidade. Em seu livro, Sacks explica que a identidade é construída através da experiência, classificação, memória e – sobretudo – acontecimentos interessantes. O indivíduo que aceita as influências sem análise não só está a um passo da alienação como também acredita possuir uma personalidade fora do comum. Vemos, portanto, que também possuímos certas características da síndrome de Tourette. Contudo não somos dominados por tiques ou compulsões: somos nós que decidimos se seremos meras cópias ou se conseguiremos ser inovad0res, como o sujeito que primeiro expôs sua careta na vitrine.

 

Outras torres

Michell Lee

 “Vozes veladas, veludosas vozes”. Névoa translúcida até o horizonte sem fim. O luar, em raios difusos, ilumina o poeta em sua torre de marfim. Para ele, era uma torre tão alta quanto a de Babel seria; para outros, não passava de excentricidade. É de forma análoga a essa imagem poética que muitos de nós temos a nossa existência retratada: subimos e permanecemos em torres de marfim, uns mais ao alto, outros, quase ao chão. No entanto, quanto mais se sobe, quanto mais se avoluma um desejo de Ícaro de se afastar do chão, mais o indivíduo se isola da realidade. Isso pode ocorrer de tal forma que muitos chegam a um limiar ao qual uma sociedade estereotipada, padronizada, passa a chamar de loucura. Mas esses indivíduos aparentemente próximos ao chão se esquecem que também estão, de certa forma, presos a sua torre de marfim: olham para o alto sem olhar para si próprios.

 Há torres tão altas que não é mais possível uma volta pautada em esforços individuais. Em Um estranho no ninho, filme de Millos Forman, é retratado um sanatório no qual há diversos indivíduos com supostos problemas neurológicos. Bastante curiosa é a presença voluntária de personagens que, devido a problemas como ciúmes em um casamento conturbado, ausência de confiança ou medo do mundo social, se isolam neste lugar em busca de apoio e segurança – mais até do que da própria cura. Em uma análise mais profunda do filme, percebemos que o espaço físico do sanatório é uma representação da mente humana: todos nós já tivemos uma fase ou momento em que desejamos nos isolar, nos fecharmos em nossa própria realidade. Isso ocorre porque, no fundo, queremos reestruturar nossas atitudes e pensamentos, direcionar a nossa vida, – em suma – manter a unidade do nosso “eu”. Entretanto, há indivíduos que sucumbem a problemas fisiológicos e, sobretudo, sociais enclausurando o seu “eu” de tal forma que perdem a noção da realidade, dando vazão a ações inconscientes de agressão e insanidade. Apesar da “altura”, porém, há caminhos de volta.

 Certamente “doenças mentais” é um termo a ser repensado. Oliver Sacks, na introdução do livro Um Antropólogo em Marte, nos conta que está escrevendo o livro com a mão esquerda (a outra estava inutilizada). Ele especula que cargas sinápticas, conexões e sinais cerebrais se alteraram para adaptá-lo à sua nova situação. Assim seriam as “doenças” neurológicas: uma adaptação às necessidades do corpo e ao meio social, podendo resultar em mudanças extraordinárias se comparado com uma pessoa “normal”. Um ótimo exemplo é a história de Bennett, que sofre de crises de compulsões, tiques e bruscas alterações de humor – as quais Sacks chamou de síndrome de Tourette. No entanto, Bennett conseguia suprimir tudo isso quando realizava as suas cirurgias médicas – a sua maior paixão -, de forma tão detalhista e com eficácia sem precedentes. Percebemos que é preciso haver algo que ligue o indivíduo ao mundo real, seja a arte, a profissão, a música – em suma, um estímulo exterior à mente, um canal de expressão do “eu”. Até o título, Um estranho no ninho, sugere isso: é preciso que haja algo ou alguém que desperte os pacientes de seu estado de torpor – isso, no filme, é personificado em McMurphy (o “estranho” que gera uma reviravolta no sanatório).

 Um antropólogo em Marte: um homem que estuda o seu semelhante – e as relações sociais envolvidas – em outro planeta, em outra mente que não a sua. Percebemos que todos nós deveríamos ser esta figura: não há torres alinhadas na mesma altura, as nossas mentes se estruturam de forma desigual. Assim, seria preciso ter um conhecimento prévio, mínimo, da mente alheia, de forma a estar com ela numa mesma ou compatível realidade, de forma a compartilhar momentos e prazeres. Infelizmente, muitos acham ter os pés no chão, quando, na verdade, podem estar  tão deslocados quanto o poeta e sua torre de marfim.

Travessias

Michell Lee

  De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.

  A necessidade de provarmos a nossa singularidade talvez seja aquilo que nos conduz a caminhos incertos. Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte, conta a história de Greg, indivíduo de conturbada adolescência. Cansado das regras e comportamentos dos pais, Greg abandonou a escola, passou a usar drogas e a se ocupar inteiramente com shows e concertos de rock. Tais atitudes, embora extremadas, revelam a necessidade de se buscar novas valores e parâmetros. Afinal, somos seres contemplativos, aprendemos pela imitação; mas é pelas nossa escolhas e decisões que esses valores tomam um sentido realmente nosso, pessoal. Em outras palavras, a adolescência é uma das fases essenciais para a caracterização do “eu”, na qual o indivíduo quer parar de ecoar e, ao mesmo tempo, adquirir um comportamento e personalidade únicas.

  Não é preciso chegar à margem oposta  para saber o que podemos perder. Francis Ford Coppola, em Peggy Sue, o seu passado a espera, apresenta o anseio de muitos: a de voltar ao passado e mudar completamente a direção e conseqüências de suas atitudes. Isso é personificado em Peggy Sue, que volta magicamente ao passado. Assim, ela realiza desejos da adolescência, revive a presença dos pais e, sobretudo, tenta impedir o seu próprio casamento -na sua visão, o marido seria o motivo de sua infelicidade. No entanto, mesmo com a possibilidade de mudar o seu destino, Peggy não o faz: ela percebe que era feliz com a sua vida, que os árduos caminhos percorrido para construí-la não merecia ser desprezada; tudo isso era representado pela saudade dos filhos. Percebe-se, portanto, que alterar a forma com que enxergamos o que nos cerca pode nos poupar de perdas irremediáveis e arrependimentos.

  Mudança ou estagnação, perdas e ganhos. Essa polarização ocorre não apenas na adolescência ou na fase de reavaliação da vida adulta, mas sempre que achamos que não temos nada a perder ou quando já alcançamos o lugar onde queríamos estar. As pontes são úteis; as travessias, desafiadoras; no entanto, a nossa satisfação se dá em uma margem ou em outra: de nada adianta percorrer seguidas pontes sem nada valorizar. O comedimento, aliado ao certo balanço de nossas necessidades, é a chave para não nos perdemos em um eterno saudosismo do poeta e sua margem perdida.