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Nowhere, boy…

 Nowhere Boy, que algum maluco preferiu traduzir como O garoto de Liverpool, só chegará aos cinemas comerciais brasileiros em dezembro. Como não sei o que será de mim no final do ano, achei mais prudente pegar o filme no “the pirate bay”; talvez não seja o correto, mas enfim foi o que aconteceu.

 Voltemos ao título: mais do que ignorância plena em ambos os idiomas (afinal, nem precisa saber inglês para consultar um dicionário bilíngue em busca de duas palavrinhas), o tradutor demonstra uma imensa falta de bom senso. Nowhere, lugar algum, é examente a antítese de Liverpool, o lugar específico onde o jovem Lennon começou a surgir. Isso para não falar da referência óbvia a uma das grandes canções da banda: “Nowhere man”.

 Sim, o título original foi um achado. Lennon, assim como muitos adolescentes de todas as épocas (de todas as épocas em que houve adolescência, entenda-se), sentia-se perdido, deslocado de seu meio. Um rebelde? Um desajustado? Sim, mas ao contrário do vulgar, Lennon não era uma criança mimada cheia de espinhas que usava da preguiça mental como principal argumento contra o mundo a seu redor (pois é…). O filme mostra-o, ainda que sem a devida ênfase, lutando contra as cordas de um banjo incansavelmente até que saísse algo que prestasse. E mais do que o empenho individual, o filme também mostra seu senso de medida: ele conseguiu reconhecer a grande habilidade intrumental de Paul e George. Se John fosse o egocêntrico tapado típico, ele teria permanecido um adolescente até os 50, como diria Machado, mas se tornou aquilo que a posteridade pôde muito bem apreciar.

 A insegurança a que nowhere faz referência parece advir da rejeição dos pais, da criação ao lado de uma tia que dificilmente aparentava doçura e da insatisfação com a escola que em momento algum consegue lhe conquistar o interesse. Sim, o tom é meio determinista (ou a palavra da moda seria psiquiátrico? psicologizante?), e isso incomoda justamente por soar como uma desculpa a determinados problemas (e eventuais virtudes) que o indivíduo possa desenvolver. Como já disse, gostaria que o filme tivesse enfatizado o estudo, a aprendizagem cultural (não necessariamente acadêmica) do artista; saber as fontes em que ele bebeu, saber de que modo ele digeriu uma ou outra influência, isso sim destacaria o papel ativo deste grande ícone do século XX. Mas não…

 O filme, cujas maiores qualidades parecem se resumir ao título, prefere enfatizar a conturbada relação que John tem com sua mãe. Não poderiam faltar, claro!, insinuações a um possível incesto. Outro ponto fraco do filme, aliás gritante, foi a incapacidade de sugestão em duas cenas que se tornaram grotescas: a do atropelamento, que poderia ter sido insinuado pelo som ambiente, e a do sexo descompromissado, que não precisava ser explicitado com imagens tão pouco sedutoras – engraçado: com um cena tão broxante até parece que o filme promovia o moralismo.

 Enfim. O filme parece uma daquelas “sessões da tarde” a que assistimos, de que gostamos de uma ou outra paisagem, mas que não consegue compartilhar raciocínios mais sofisticados. Beatlemaníacos de plantão que por ventura lerem meu texto, talvez vocês talvez gostem do filme. Mas a verdade é que este aqui, pelo menos, ficou decepcionado. Sem trocadilhos, o filme não leva a lugar algum.